quinta-feira, 4 de julho de 2013

Não subestimem os jovens!

POR CLÓVIS GRUNER


Conheço e respeito a trajetória de Marilena Chauí, sua contribuição e importância na vida intelectual do país. Foi principalmente por isto que achei frágil sua análise das manifestações, compartilhada pelo Felipe em seu post da semana passada. Filósofa experiente, nem todo o Spinoza do mundo foi suficiente para compreender a nervura do real dos acontecimentos recentes. Se acerta no diagnóstico da causa – o “inferno urbano” e a necessidade urgente de repensar o transporte público e democratizar o acesso à cidade –, a filósofa uspiana se equivoca em quase todo o resto.
 
Há, por certo, seu petismo militante, a limitar sua interpretação: afinal, as manifestações afetaram os índices de aprovação da presidenta Dilma Rousseff e do prefeito Fernando Haddad. Informada por uma concepção de política que parece encerrá-la nos limites partidários, a leitura de Chauí chega a descaracterizar o próprio MPL, segundo ela “composto por militantes de partidos de esquerda”, o que não é exatamente correto. É esse mesmo critério que aparece na verdadeira inquirição feita aos manifestantes, como se fossem legítimas apenas aquelas movimentações conduzidas pelas bandeiras partidárias, com pautas e lideranças definidas em assembleia e com direito à questão de ordem.
 
Quando se propõe a analisar o papel das redes sociais, Chauí não se equivoca apenas. Não acredito que para falar de internet seja necessário ter uma conta ativa no Facebook ou no Twitter e manter um blog sempre atualizado no ar. Mas também não acredito que se compreende o seu funcionamento recorrendo ao bom e velho frankfurtês. Se já é complicado valer-se de Adorno para analisar, por exemplo, manifestações como o cinema, músicas populares como o jazz ou o rock (na verdade, qualquer outra que não a clássica) e a televisão, ainda mais difícil é tentar compreender fenômenos como as redes sociais por meio exclusivamente da “teoria crítica”.
 
Sem muito esforço, Chauí poderia evitar bobagens que beiram ao cômico. Dizer que as redes sociais assumem “gradativamente uma dimensão mágica (...) porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer”, revela não apenas sua desconexão com a realidade que procura analisar e entender, mas também seu desrespeito com aquilo que se recusa a compreender: convenhamos, é preciso uma dose generosa de má vontade para equiparar as manifestações chamadas pelo MPL à convocação para um show da Madonna.
 
ALIENADOS?  – O texto de Marilena Chauí revela uma dificuldade que não é apenas dela, mas de uma boa parte da esquerda, embasbacada diante daquilo que não compreende e não controla. Já disse em outra ocasião que não é a postura da direita que me surpreende. Assustada e cansada, a ela não interessa que as mobilizações evoluam para mudanças mais profundas ou para uma reforma política consistente, daí sua urgência em tentar atribuir às manifestações uma pauta genérica e oportunista: sem nem mesmo um rascunho de projeto para o país, há uma década a oposição sobrevive do “combate à corrupção”, como se tal expressão se revestisse, essa sim, de um “caráter mágico”.
 
Incomoda-me é a obtusidade de certa esquerda que, preocupada exclusivamente com as eleições de 2014, é incapaz de reconhecer o que há de singular nas manifestações: não estamos na luta contra a ditadura civil militar, nem na campanha pelas Diretas Já, e mais de 20 anos nos separam da última grande mobilização popular, que foi o impeachment de Fernando Collor. Deveria ser óbvio, mas não é: não se entende a singularidade deste momento se o analisamos à luz daqueles eventos e exigimos de jovens, ainda não nascidos em 1983 e alguns sequer em 1992, que ergam as mesmas bandeiras – que tenham o “mesmo foco” – que eram as nossas quando fomos às ruas há duas ou três décadas.
 
O que para muitos é falta de foco ou de uma bandeira, revela uma sensibilidade e uma inteligência capazes de captar demandas que, por dispersas que pareçam, são parte da experiência de uma geração felizmente desacostumada à ditadura e, por isso, mais atenta às fragilidades e contradições da democracia, bem como à necessidade de fazê-la avançar. Inclusive, construindo alternativas de participação e ocupação do espaço público que não exclusivamente as partidárias, porque sabe que a democracia não se constroi apenas nos limites das instituições formais e dos  partidos, e que nem só nestas esferas podem se produzir as mudanças.
 
Ao contrário do que afirmam, em um estranho uníssono, a mídia conservadora e parte de nossos intelectuais à gauche, uma parcela da juventude brasileira está nas ruas há muito tempo. São jovens, principalmente, os que ocupam as ruas para se solidarizar com as comunidades indígenas vitimadas pela truculência desenvolvimentista do Estado e das grandes empreiteiras; para denunciar a violência contra a mulher nas “Marchas das vadias”; para protestar contra o preconceito e festejar a liberdade nas “Paradas da Diversidade”. São jovens, principalmente, os que chamam a atenção para as precárias condições de nossas escolas e de nossa educação; que dão as mãos a trabalhadores de diferentes categorias em seus movimentos reivindicatórios; que acusam o nosso racismo; que sofrem no corpo e denunciam corajosamente as muitas e cotidianas formas de violência policial.
 
As manifestações das últimas semanas só são uma novidade para quem, alheio ao que se passa nas ruas, não consegue perceber a diferença entre elas e um show da Madonna ou, pior, as associam aos movimentos fascistas e à “Marcha da família com Deus pela liberdade”. Quando findaram os eventos que durante semanas paralisaram parte da França, os estudantes parisienses mal e parcamente conquistaram aquilo que os motivou a ir às ruas, a reforma universitária.  Mas, como observou alguém recentemente, o "Maio de 68", se não mudou profundamente as instituições políticas francesas, transformou nossa forma de pensar e fazer política, de ouvir música, de ler, de trepar. Não subestimemos a juventude e sua capacidade de nos chamar a atenção para o que é atual no contemporâneo.

21 comentários:

  1. Até que enfim, hein?

    ResponderExcluir
  2. Todas as manifestações já serão uma grande vitória se a população, principalmente os mais jovens, começarem a realmente conhecer e ter opinião politica. Isso não quer dizer ter filiação partidária, muito pelo contrário. Não adianta falar que fulano não presta que tem q votar tal coisa que tem que mudar tudo, é preciso conhecer o processo democrático, porque nem sempre a mudança é para melhor...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso, André. Democracia também se constrói com partidos, mas ela se consolida à medida que a sociedade consegue organizar-se por caminhos alternativos e mais diretos. Não é jogar no lixo a representatividade, mas repensá-la e criar mecanismos outros de participação. Não sou otimista, porque o otimismo é para os tolos, mas acho que aprendemos e amadurecemos, como cidadãos, nestes enfrentamentos. Aprendemos, inclusive, quando nos frustramos: o Brasil, afinal, não sairá desta experiência muito diferente e melhor do que quando entrou.

      Excluir
  3. Excelente texto, Clóvis! Infelizmente a Marilena Chauí PTizou-se de tal forma a ficar caricata. E os livros didáticos de Filosofia das nossas escolas são escritos por ela - fruto de acordos, também, claro. Tuas considerações sobre os clichês acerca das manifestações (sim, são recentes e já temos clichês) são perfeitas.

    ResponderExcluir
  4. opa, já que alguém - um que seja - concorda que ler o que dona chauí pensa é perda de tempo volto a ler o blog. desde o elogio à essa senhora feito pelo felipe estava em manifestação contra o chuva ácida, não o lendo. é que sou classe média...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, não estava lendo né?!

      Chegou até aqui por osmose, deveras...

      NelsonJoi@bol.com.br

      Excluir
  5. Clóvis, você foi bonzinho com a Chauí, tem um tal de Clóvis Panzarini que fez uma análise, digamos assim, mais ácida do tema.

    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,marilena-intuiu-,1049953,0.htm

    Defenestrou ela e o grupo que defende.

    A título de entender o que pensa "a turma do lado de lá', é um texto bem completo.

    A sua Crítica a Chauí, perto do texto deste cara, soa como elogio.

    NelsonJoi@bol.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nelson, não me arrisco a dar pitaco em economia, assunto sobre que conheço pouco, muito pouco. Mas temo, sim, pelo que poderá acontecer a médio e longo prazo, porque já li gente boa e que domina o metier a dizer algo que a economia brasileira, em que pese a relativa estabilidade, está mais ou menos por um fio e que é preciso tomar providências urgentes antes que venha o estrago.

      Excluir
  6. Quando parte dos intelectuais vai acordar para a realidade de que a sigla que governa o país está morta e enterrada com cal? O PT não existe mais, morreu quando o Lula ascendeu ao poder em 2002. O PT traiu a esquerda deste país. Aliás, a própria esquerda brasileira se traiu ao mostrar a sua verdadeira face. O PT pode vencer quantas eleições puder, com os votos dos beneficiários do Bolsa-Família ou com os das Cotas Raciais, mas vai continuar a ser um partido que só pensa que causa própria, ou seja a manutenção do poder. O PSDB também, mas esse nós conhecemos muito bem. Nunca votei no PT, votei no FHC, no Serra e votarei no Aécio Neves (embora não simpatize por ele), mas, sinceramente, espero que em 2014 a dona Dilma se reeleja para finalizar a lambança que a sua sigla aprontou nos últimos 12 anos. Esse país tem de chegar ao fundo do poço para que haja uma revolução verdadeira.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O pais chegar ao fundo do poço? Hein? O PSDB é tão ruim como o PT mas esse nós conhecemos bem. Hein? Blog é legal porque vemos algumas idéias "muito interessantes".

      Excluir
    2. Antônio, provavelmente o José não sabe ou não lembra que o FHC, quando presidente, comprou o Congresso não para aprovar projetos de governo, mas para mudar a Constituição e aprovar sua reeleição.

      Caso único, aliás, em países ditos democráticos: quando a regra do jogo muda, muda para o próximo mandato. FHC fez o que nenhum outro sequer tentou: colocou o congresso de joelhos á custa de muito dinheiro público, deu um golpe brando, mudou a constituição que jurou defender e gozou o benefício da mudança ele mesmo.

      Mas é claro, o fundo do poço foi o governo petista. Afinal, FHC é de Higienópolis e, veja o nome, alguém limpinho como ele deve ter conseguido tudo na base do charme.

      Excluir
    3. E também não deve lembrar que no segundo mandato do FHC:

      A inflação beirava os 10% (no último ano de mandato);
      O País crescia a 1% +-0,5;
      O dólar chegou a custar R$ 4,00;
      A bolsa quase quebrou que tiveram que criar um dispositivo que fecha a bolsa quando há variação de 10%;
      Tudo era culpa da "crise nos tigres asiáticos";
      Licitavam rodovias com pedágio que hoje custam R$8,00 o trecho;
      O Brasil teve que abaixar a cueca para pegar míseros 20 bilhões de dólares emprestados do FMI, em parcelas;
      Que os investidores construíam apartamentos e quitinetes para alugar, hoje se constrói para vender;
      Que se proliferavam favelas e mais favelas por este país a fora;
      Que apenas 0.78% da população tinha curso superior;
      ....
      ...
      ...

      Olha, eu também estou decepcionado com PT, não acredito na politica de que os fins justifiquem os meios que o partido adotou, mas eu tenho memoria e lembro muito bem das barbeiragens que os tucanos fizeram;

      Se o PT e o PSDB expurgassem o que de pior existem neles e se livrassem dos partidos apêndice, principalmente do PMDB, do DEM e do PSD e unissem forças por um Brasil mais justo, tenho certeza que teriam várias pessoas competentes para compor um baita governo de coalizão.

      Mas é uma coisa tipo o passe livre: UTOPIA!

      NelsonJoi@bol.com.br

      Excluir
  7. A internet substitui todo movimento de VAI E VEM entre remetente, correio e destinatário. Porém numa velocidade infinitamente maior. Só que nesse caso os cachorros ficam irados por não poderem morder a perna do carteiro.

    ResponderExcluir
  8. Não é uma questão de subestimar os jovens, apenas que suas demandas são facilmente cooptadas e muitas vezes enterradas pelos donos do poder de sempre.

    ResponderExcluir
  9. Tá engraçado ver essa galera de tiquinho duro porque veio uma crítica desses lados para a Marilena Chauí. Mal sabem que pra esquerda esse é o hábito e que sem isso não tem graça.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nem em um comentário o Silverinha consegue deixar de fazer menção a uma genitália...

      Tem problema este menino...

      NelsonJoi@bool.com.br

      Excluir
    2. Não. Autocrítica ou "fogo companheiro" definitivamente não é uma característica da esquerda.

      Excluir
    3. Marcos, logo se vê que você não sabe nada sobre a esquerda.

      Excluir
  10. Depois de falar de Hegel em defesa de Said, a Chauí zizekiou. Insiste hoje na mesma tecla que a turma do filósofo do leste europeu: a da "falta de objetividade" dos movimentos populares contemporâneos. Da mesma forma que Zizek fez pouco caso das manifestações que chacoalharam o mundo árabe, hoje a Chauí passa vergonha ao menosprezar o que vem das ruas.

    E eu concordo com o Clóvis quando diz que não se trata de qualquer deslize. A trajetória da Chauí é qualquer coisa menos irrelevante.

    ResponderExcluir

O comentário não representa a opinião do blog; a responsabilidade é do autor da mensagem