sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Quem tem problemas com a língua não come

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Há muitos motivos para se visitar Portugal. Mas um deles é, com certeza, a culinária regional. A minha balança é a maior testemunha de que por aqui se come e bebe muito bem. E como os prazeres da mesa merecem ser compartilhados, faço a minha sugestão para um almoço à portuguesa aí na sua casa. Lá vai:

Aperitivo - Punheta de Bacalhau
Enquanto faz o almoço, nada melhor do que reunir os amigos para uma punheta rápida. É um bacalhauzinho desfiado, temperado com cebola, azeite e vinagre. Simples e dá muito prazer. Fácil de fazer, é uma boa opção para os solitários.

Entrada - Sopa de Grelos ou Sopa Seca que se Agarra às Costas
Por alguma razão, a sopa de grelos é a preferida dos marmanjos. Já os que não se importam de ter algo agarrado às costas preferem a segunda sopa, típica da Beira-Litoral e feita à base de feijão e pão.

Prato principal - Arroz de Pica no Chão
É uma especialidade da região do Entre-Douro e Minho, no Extremo-norte do país. O Arroz de Pica no Chão é feito à base de frango e toucinho, levando os devidos condimentos. É um prato delicioso, mas um tanto pesado e por isso deve ser apreciado com moderação, em especial por quem gosta de um "rala-e-rola" depois do almoço. Com Pica no Chão a coisa fica mais difícil.

Acompanhamento - Caralhotas ou Cacetes
Uma refeição portuguesa tem sempre pão à mesa. As caralhotas são pequenos pães típicos da região de Almeirim. Já os cacetes são comuns em todo o país. É fácil encontrar um português com o cacete na mão.

Bebida - Vinhos Portugueses
Os vinhos são classificados por regiões e há para todos os gostos. Talvez seja bom optar por um vinho com aspecto mais leve e feminino. Pode escolher um Monte das Abertas (Alentejo), um Quinta da Pellada (Dão) ou, talvez, uma garrafa de Rapadas (Ribatejo). Mas se insiste em uma bebida mais encorpada e masculina, uma boa opção pode ser o Três Bagos (Douro). Ou, ainda mais intenso, um Terras do Demo (Beiras).

Sobremesa - Mamadinhas da Pousadinha de Tentúgal ou Espera-Marido à Transmontana
A confeitaria portuguesa é muito rica e os doces conventuais são mesmo um objeto de culto. O Espera-Marido é um doce simples que se faz com açúcar, ovos e canela em pó. Já a mamadinha é uma das maiores delícias surgidas nos conventos.

Digestivo - Licor de Merda
É uma bebida da região de Cantanhede, feita à base de leite, baunilha, cacau, canela e frutas cítricas. Quem experimentou diz que é uma merda, mas muito gostoso.
É como diz o velho deitado: "Eu, por exemplo, gosto de comer sapateiras, madalenas e trouxas".


Texto publicado no jornal A Notícia

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Gisele e o sonho dos publicitários

POR ET BARTHES

Nunca falha. É só alguém tentar censurar uma peça publicitária e ele vira uma das mais vistas na internet. Aliás, as marcas até agradecem, porque acabam gerando buzz e ganhando mídia grátis. É o que está acontecendo com a campanha da Hope, que mostra a modelo Giselle Bündchen em roupas interiores. As feministas reclamaram (não das roupas, mas dos conteúdos) e o filme pode ser retirado do ar pelo Conar. O problema é que, por causa da irritação das feministas, o filme está sendo visto até no exterior - já tem mais de 360 mil visualizações no Youtube. É o sonho de todo publicitário.


O candidato por trás da máscara



POR JORDI CASTAN

O Marques de Vauvenargues,conhecedor da corte e dos cortesãos, dizia que: "não há nada pior que uma pessoa amável por interesse". Os tapinhas nas costas, o riso forçado e até o beijo fingido com que saem à rua os pré-candidatos, trazem para esta Joinville dos dias de hoje a amabilidade por interesse e a convertem numa peçade ficção teatral.

E compartem goles da branquinhacom possíveis eleitores mais ou menos sóbrios, visitam todas e cada uma dasfestas das paróquias da cidade, experimentam churrascos, galetos e carreteiroscrus, no ponto e passados. Os pré-candidatos são convidados a cantar os númerossorteados nos bingos das APPs, a doar brindes e beijar criancinhas e rainhascom entusiasmo inesgotável.

Agora, a tecnologia permite que ospré-candidatos utilizem as redes sociais para estarem mais próximos dos seuspossíveis eleitores, e criem uma imagem pública que os faz totalmenteirreconhecíveis para quem os conhece ao vivo e a cores. Bem humorados,simpáticos, amigos, abertos, inteligentes, sábios, tolerantes. Em muitos casos,os seus perfis nas redes sociais são gerenciados por profissionais que seconvertem no seu “alter ego”, um outro eu. A literatura tem produzido grandesobras a partir da historia de sósias ou de “ghost writers” que ocupam o espaçoe a vida de outra pessoa. Eu não confio nestes pré-candidatos tão falsos quecontratam outros para que os substituam e respondam as tuitadas que recebem,escrevam os seus artigos nos jornais, comentem nos blogs e projetem uma imagemfalsa e irreal. Uma máscara que mais cedo ou mais tarde cairá.

Apesar de não votar neles, prefiroa autenticidade destes outros políticos, que escrevem errado, tuitam abobrinhase não se preocupam com a imagem que projetam. Os mesmos que desconhecem aconcordância, vivem entrando e saindo de sessões ordinárias, são despachantesde luxo em Florianópolis e Brasília e fizeram do cargo e da política um modo devida. São autênticos, e por sê-lo tem os seus eleitores fieis que se veemprojetados na sua imagem. Ainda que eles também, como membros da corte, sãoamáveis só por interesse.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Corrupção: o que tem a ver com você?

POR JORDI CASTAN

Não tem quem nos possa ganhar. É verdade que no quesito corrupção ainda não alcançamos os níveis escandalosos que praticam os países africanos menos desenvolvidos. Os modelos presidencialistas, em que publico e privado se confundem e misturam de tal forma que fica impossível de diferenciar aonde acaba um e começa o outro. Mas estamos nos esforçando para rapidamente equiparar-nos aos melhores, fazer da corrupção parte do nosso cotidiano é um passo firme e definitivo, para que deixemos de nos impressionar com os escândalos e que o corrupto de amanha nos leve a esquecer o de hoje. A banalização da corrupção faz que fiquemos insensíveis, que nada nos surpreenda mais, que nem os valores envolvidos, nem os nomes de corruptores e corrompidos sejam novidades. Chegamos até cumprimentar e em algumas situações extremas homenagear os maiores corruptos. Oferecendo comendas e prêmios aos melhores dos piores.

Se em corrupção o Brasil esta no caminho, para estar entre os melhores, em procrastinação, não tem para ninguém. O Brasil é campeão mundial de “empurrar com a barriga”, transferir para outro dia, demorar em resolver algo. Claro que algumas vezes a casa cai, textualmente, na nossa cabeça, e não nos quedaria alternativa que por as mãos na massa e resolver. Mas conseguimos dar um jeito de adiar uma vez mais a solução.

A elegância com que ignoramos os problemas,deixando de falar deles, olhando para o outro lado, a facilidade com que os esquecemos, nos levam a acreditar infantilmente que se fechamos os olhos,quando os abramos de novo, tudo estará resolvido, como por um passe de mágica. Claro que as coisas não se resolvem sozinhas, na realidade a tendência é que os problemas que não enfrentemos se avolumem e cresçam. Quando mais procrastinemos maiores serão os problemas, poderemos sempre culpar os que nos antecederam por não ter tomado as decisões e atitudes corretas e necessárias, estaremos novamente praticando o nosso esporte preferido, empurrar com a barriga, deixar de decidir, adiar, protrair, alongar, dilatar. Todos eles sinônimos que definem nosso esporte favorito.

Com a verdade me enganas...

POR ET BARTHES

Muitas vezes os políticos são apenas produtos bem embrulhados num discurso bonito. Parece que a coisa faz sentido. Mas um dia as pessoas descobrem que palavras são apenas palavras. Ações são outra coisa. É provável que o pessoal mais novo nunca tenha visto este filme, mas ele ajuda a mostrar que com a “verdade” é possível enganar muita gente. É um filme brasileiro e reconhecido como um dos 100 melhores da história em todo o mundo. Aliás, por falar em verdade, talvez seja melhor não prestar muita atenção ao slogan.


Que tal uma Operação Comensalismo?

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Hoje o tema seria outro. Mas a prisão de Marcos Schoene, agora ex-presidente da Fundema - Fundação Municipal do Meio Ambiente de Joinville, acaba por ser um assunto incontornável. E é óbvio que a esta distância não vou fazer uma análise da tal Operação Simbiose. Os fatos são para os jornais, os julgamentos para a Justiça.

Mas as redes sociais permitem tomar um certo pulso da situação. E deu para notar coisas interessantes. É que a detenção desse senhor Marcos Schoene (aliás, inocente até que se prove a culpa) provocou uma revoada dos espectros de um passado recente. Ou também de um futuro “promitente”.

E quem são? Ora, o pessoal que já mamou na teta pública e quer a mamata de volta. Ou gente que ainda não mamou, mas anda louquinha para pôr a boca no mamilo. Ah... e antes que alguém entenda mal, não estou a fazer a defesa desse Marcos Schoene, que nunca vi na vida, e nem do governo de Carlito Merss, que parece ter uma péssima pontaria para escolher os seus aliados.

O que estou a fazer é apontar o dedo aos canalhocratas que só sabem viver no comensalismo. Ops! E o que é esse comensalismo em política? São os caras que vivem à volta do mais forte, o líder (ou líderes), e se alimentam dos seus restos. Como a rêmora e o tubarão. Gente cuja coluna vertebral é muito maleável.

Mas vamos à reações.

Houve um grupo de pessoas – obviamente opositores do atual prefeito – que exultou com os acontecimentos. O rancor político é tanto que chegam a torcer contra a cidade. Importante salientar: é a mesma cidade que pretendem governar e prometem tornar melhor. Mas, por enquanto, vale a lógica: quanto pior, melhor.

Deu para perceber que muita gente se sentiu vingada e de alma lavada. O nome de Norival Silva foi repetido inúmeras vezes. Sentiu-se um clima de “pay back”. Alguém disse, sem esconder a felicidade, que Carlito Merss está a provar do mesmo veneno que Marco Tebaldi. Ah... o nome disso não é política de terra queimada?

Aliás, por falar no caso ex-secretário da Saúde, aqueles calhordas da comunicação social - os que têm a opinião a soldo - emergiram das tocas todos serelepes. Ou seja, os mesmos tipos que não abriram a boca no caso do Norival Silva (foi como se não tivesse existido) agora aparecem felizes a anunciar que a casa de Carlito Merss caiu.

Houve uns tipos que surgiram cheios de moral. E vieram lembrar que Carlito fazia questão de dizer que o seu governo não estava nas páginas policiais, como a administração anterior. Teve gente a dizer que o PT já não pode posar de reserva moral. E com razão. O PT começa a viver da mesma maneira que todos os outros partidos de poder. Ou seja, a chafurdar no pântano.

Dito isso, leitor e leitora, não acham que uma Operação Comensalismo era bem pensada? Faz falta uma varredura ética. Afinal, como todos podemos ver, a vida política de Joinville pouco ou nada mudou em décadas.

Continua a ser protagonizada por homens pequenos. E deixa poucas esperanças: se o que está aí não é bom, o quem vem pela frente parece ser ainda pior.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Um ser humano por aí

POR FELIPE SILVEIRA

Sempre que eu acho um ser humano por aí - esse bicho cada vez mais raro - a esperança, que tá no bagaço, na raspa do tacho, ganha um pouquinho de vida. Porque o bicho humano tá cada menos humano e mais animal. Menos humano e mais robótico.

Por isso, ao ler a entrevista do rapper Criolo (que tá na estrada há um tempão e ultimamente tem ficado meio pop. E não há nada de errado nisso) à revista Trip, fiquei novamente esperançoso com as pessoas.

Pois nesse mundo cheio de bolsonarinhos, saber que tem gente como o Criolo ajuda. Não é um caso isolado, a gente sempre encontra gente boa por aí, mas é bom espalhar. Abaixo, um trecho da entrevista às páginas negras da revista e o link. Não deixe de ler também a entrevista com a Dona Vilani, mãe do música, no final.

Escutando você, dá a impressão de que você não vê muita saída para o mundo.
A gente vive em um mundo em que pessoas morrem de frio, de fome na rua. Que desmatam o que resta de floresta. O planeta morrendo e de alguma maneira a gente não entra em pânico. O absurdo virou a regra e a sanidade, a exceção. Tanto que quando você vê um grupo ou uma pessoa fazendo algo em prol dos outros, sem esperar muito em troca, isso toca a gente de um jeito emocionante. E muitas vezes basta para você acreditar que alguma coisa tá mudando... Isso é uma desgraça emocional! E não é que eu não veja saída. Mas é que eu sinto que as pessoas são educadas para não pensar. Vou dar um exemplo. Quando falo que tem as oficinas abertas de xadrez no Grajaú, as pessoas ficam abismadas. “O quê?! Xadrez?!” Quando falo que tem um café filosófico no Grajaú, eles se assustam. Isso é uma agressão pra mim. É que no mundo deles eu não penso. Porque todo mundo, rico, pobre, não interessa... todo mundo foi educado para ser engrenagem.

E você sente que escapou disso?
Eu não leio muito. Li 3% do que minha mãe leu. Tenho dificuldade. Não sei tocar um instrumento musical, sou péssimo em matemática. Eu só tirava nota C. Não ia muito bem na escola, mas ia muito bem em me relacionar com as pessoas, meus amigos. Mas é que não conta relação humana no currículo. Eu aprendi em casa a importância disso. Tendo exemplos de sensibilidade, de muita solidariedade, de carinho com os outros. E aprendi assim a ver que a gente é mais do que o que está posto pela sociedade.

E isso não é levado em consideração na escola?
Dentro das escolas públicas, por exemplo, nós temos professores maravilhosos. Pessoas comprometidas, sensíveis, que lutam pra caramba por amor ao ensino. Mas aí vem o governo de São Paulo e tira filosofia do currículo, por exemplo. Depois como você quer cobrar sensibilidade das pessoas se você não a oferece? É triste... Mas, se você pensar, a escola só deixou de ser coisa de elite e se tornou pública com a revolução industrial, pra formar operário. Mas vai além disso. É importante a gente falar de escola? É claro que sim! Mas é muita inocência a gente falar de escola num país onde até a saúde é comércio. Se a sociedade não tem sensibilidade nem para lidar com a saúde, vai ter para tratar de educação?

Leia a entrevista completa aqui.

O caso UFSC Joinville e as “verdades absolutas”


POR CHARLES HENRIQUE

Primeiramente gostaria de enaltecer a qualidade das discussões presentes neste blog. Em tão poucos dias, temas importantes foram abordados, bem como a presença de diversos pontos de vista nos comentários. Tenho certeza que o nível só tende a aumentar.

Em meu primeiro post, recebi feedbacks polêmicos sobre o tema que relatei. Parece que o joinvilense não diz mais “amém” para tudo o que ouve, vê e lê por aí. As “verdades absolutas” impregnadas por alguns estão começando a ser questionadas. Não quero ser tachado como perseguidor das entidades empresariais, mas, necessito seguir na mesma linha, até para complementar o que escrevi por aqui em minha primeira intervenção.

A UFSC em Joinville (é, aquele campus de um curso só) enfrenta graves problemas com os atrasos e problemas estruturais. Todo mundo já está cansado em saber que o terreno escolhido lá na curva do arroz não tinha a menor condição de receber uma Universidade Federal. Nem o contorno ferroviário. Entretanto, deixando estas discussões sobre o terreno para um outro momento, queria me atentar para a escolha dos cursos, feita de forma autoritária, e atendendo a vontade das entidades empresariais, principalmente da ACIJ (olha só, mais um assunto da cidade em que elas se intrometem... seria concidência?).

Políticos, gestores da UFSC, e os presidentes destas entidades (os donos das “verdades absolutas”) saíram com um discurso enlatado e ensaiado: “Joinville precisa de cursos de engenharia porque é a vocação da cidade”. Discurso da década de 80 esse, hein? Faz tempo que a economia da cidade é dinâmica, com um setor terciário fortíssimo. Por qual motivo, portanto, esse discurso continua sendo incitado pelos empresários?

Claro, quanto mais profissionais forem formados para atuar no setor secundário, mais se qualifica a mão-de-obra, aumentando a oferta e diminuindo os salários. Como a classe empresarial tem uma forte ligação com os políticos dessa cidade, vimos vários representantes em Brasília defenderem a criação desse curso de Engenharia da Mobilidade no campus (?!) da UFSC em Joinville, sem consultar a população, que tem outras necessidades, como profissionais nas áreas de humanas, biológicas, saúde, etc. Todo esse jogo rasgou a Constituição Federal, que em seu artigo 205 diz: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Sociedade é um substantivo inexistente para alguns, parece!

*Fonte da imagem: Secom/PMJ.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Em mulheres, nem com flores...

POR ET BARTHES

A internet é mesmo uma coisa espantosa. Porque as imagens podem cair na rede e desmascarar as arbitrariedades. Nos Estados Unidos, o movimento Ocupar Wall Street reuniu centenas de pessoas no sul da ilha de Manhattan (o centro nervoso do capitalismo financeiro nos EUA), para protestar. Oooopa! É raro na terra de Tio Sam. E é claro que a polícia estaria lá para defender a “ordem”, nem que para isso tivesse que partir para cima de mulheres com bastonadas e gás pimenta. Mais de 80 pessoas foram detidas por crimes como bloqueios do trânsito, resistência à polícia, desordem e até agressão. Mas foi tudo filmado e as imagens mostram que a polícia não foi com luvas de pelica.


O Digital Zeitung


POR JORDI CASTAN

A necessidade de saber o que acontece ao nosso redor, de estar informado ao mesmo tempo do que acontece na nossa vizinhança e no mundo, é o maior estimulo ao desenvolvimento da informação. A colônia Dona Francisca teve desde os seus primórdios um jornal escrito, o Kolonie – Zeitung (O jornal da Colônia). Semanalmente trazia noticias e informava da atualidade de incipiente colônia, na época inclusive era distribuído até em Blumenau, que não contava com um jornal impresso. Em 1942 deixou de circular, em parte pelo forte movimento nacionalista e a entrada do Brasil na segunda Guerra Mundial.

Outros jornais ocuparam o espaço ao longo da historia, A Noticia, o Extra entre outros muitos. O mundo da informação tem também incorporado outros meios, como radio e televisão, mas a grande mudança cultural e comportamental é à entrada da internet. A proliferação de sites, blogs, microblogs, espaços virtuais e canais de comunicação permitem que as coisas nunca mais voltem a ser como foram antes.

Opiniões são emitidas em todo o mundo instantaneamente, respostas surgem com a mesma celeridade, as idéias que no passado eram passadas de boca em boca, ou mimeografadas na forma de jornais quase clandestinos, hoje estão disponíveis simultaneamente para todos os que estiverem ligados a rede mundial. Temos acesso ao que esta acontecendo na Austrália neste exato momento, ou no mais recôndito país africano. Se por um lado somos uma sociedade global, mantemos nossos interesses e raízes no espaço local. O que acontece com o nosso vizinho nos interessa o que opinam nossos políticos e como eles agem afeta a nossa vida e o nosso futuro.

O espaço virtual é, cada vez mais, o lugar para estimular o debate, para que prospere o encontro de idéias, para que todas as partes possam expor suas idéias, sem enfrentamentos violentos. Na maioria de blogs e dos espaços disponíveis, só é possível aceder à opinião de um único autor. Para ter acesso a outras opiniões abalizadas, é preciso um trabalho de busca e de pesquisa. Surge em Joinville um novo espaço digital para estimular o debate, o blog “Chuva Ácida” é uma iniciativa local para fazer da construção da cidadania mais que um exercício teórico, o objetivo deste espaço é ser uma alternativa entre a informação panfletaria de um e outro extremo e permitir o surgimento de outras formas de pensamento e de argumentação.

Com acesso a espaços mais democráticos todos ganharam e a sociedade se fortalece.


Publicado no jornal A Noticia, de Joinville (SC).

A voz das mulheres

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Vou pegar uma carona no tema da Maria Elisa e falar sobre o aborto. Mas com uma perspectiva diferente, uma vez que já votei em dois plebiscitos aqui em Portugal. Dois? Sim. Porque no primeiro, realizado em 1998, a proposta de descriminalização da interrupção voluntária da gravidez - nome politicamente correto para o aborto - foi derrotada.

Nessa altura, o pessoal da esquerda abriu a guarda. Houve quem achasse que a aprovação da descriminalização estava garantida. Ao contrário, os conservadores cerraram fileiras e conseguiram ganhar por escassa vantagem. Foi necessário que o governo socialista trouxesse o tema a novo escrutínio público em 2007, quando a legalização do aborto (até às 12 semanas de gravidez) foi aprovada.

E o que torna a minha perspectiva diferente? É que já passei por dois períodos de intenso debate e hoje, sem querer aprofundar muito o tema, deixo duas coisas essenciais:

1. A despenalização do aborto está em vigor desde o plebiscito e, ao contrário do que pregavam os conservadores, o país não foi destruído pela ira divina. E as autoridades médicas têm feito relatórios muito favoráveis. Hoje as mulheres portuguesas já não precisam fazer a interrupção da gravidez em clínicas mal aparelhadas, onde os riscos para a saúde são muito grandes.

2. O debate é sempre muito importante. Mas houve momentos negros. O ponto negativo foi o discurso irracionalista dos conservadores, determinados a legislar sobre o corpo das mulheres. Algumas vezes o papel de certos religiosos não foi edificante. O que leva a uma comparação: em Portugal a população é maioritariamente católica e a discussão permaneceu quase circunscrita; mas no Brasil o número de religiões e seitas fundamentalistas pode transformar o debate numa autêntica babel.

É assustador. Porque essa gente fala tão alto que é capaz de abafar a voz das mulheres.

Mobilidade urbana: como eu volto da balada às 3h da manhã?


POR FELIPE SILVEIRA

Semana passada, mais precisamente na quinta-feira (22), foi celebrado o Dia Mundial sem Carro. A ideia é boa: fazer as pessoas refletirem sobre o uso excessivo do carro e pensar nas alternativas de mobilidade, como o transporte público e a bicicleta. Pensando nesse tema tão importante, nesse trânsito tão caótico, escrevi esse texto, que começa com a seguinte historinha:

Lá pelos 16 ou 17 anos, meu grande dilema era saber como voltar pra casa de uma festa que acabasse mais cedo, lá pelas 2 ou 3 horas, por exemplo. Sem carro nem permissão pra dirigir, sem bicicleta (não dava pra ir pra balada de zica), sem dinheiro pro táxi e sem carona, eu tinha que esperar, pelo menos, até as 4 horas pra voltar pra casa, que era mais ou menos a hora que o ônibus começava a rodar.

Por causa dessa dificuldade pra voltar pra casa, o meu sonho era fazer logo 18 anos e a carteira de motorista, para não me incomodar mais com essa situação. E, assim como eu, milhões de moleques não vêem a hora de sair por aí motorizados.

É claro que esse não é o motivo principal para alguém querer ter um carro, mas esse pequeno relato pessoal ilustra a questão que, para mim, é central para o debate da mobilidade urbana. O transporte público precisa oferecer vantagens reais para as pessoas, pois só assim será usado efetivamente. “Não adianta” trabalhar pela conscientização se, na vida real, andar de ônibus é um inferno. E é.

O mesmo vale para a bicicleta. Eu, que ando de magrela há 15 anos para trabalhar e estudar, tenho me sentido cada vez mais inseguro nas ruas sem ciclovias e sem respeito algum por parte dos motoristas.

O preço da passagem do ônibus é um absurdo. Simplesmente não vale a pena. Só anda de ônibus quem não tem condições (financeira ou outra) para andar de carro. Sem falar do desconforto e da demora do transporte público. Recentemente, eu tive a oportunidade de escolher entre ir trabalhar de carro ou de ônibus, pois o local era longe da minha casa. Fiz as contas e o carro saiu mais barato. Mesmo que a passagem custasse a metade do preço, ainda assim seria muito cara para a população optar pelo ônibus.

Ou seja, é urgente que se pense em tornar o transporte coletivo vantajoso para a população. A conscientização deve caminhar junto, mas ela sozinha não resolve. Quando conseguirmos pegar o ônibus pertinho de casa, viajar confortavelmente, e chegarmos rapidamente e próximo ao destino, com baixo custo (ou nenhum custo, como na proposta do Movimento Passe Livre) aí sim iremos avançar nessa questão.

Esse texto é apenas uma pincelada sobre a questão do transporte, que envolve muito mais coisas, como o direito de ir e vir, o acesso à cultura, ao lazer. Não há, aqui, nenhuma pretensão em dar uma palavra final sobre a questão. Espero que o debate se estenda nos comentários e em postagens futuras (minha e dos colegas).

domingo, 25 de setembro de 2011

Polêmica na blogosfera

POR ET BARTHES

Ooopa! Estalou uma polêmica na blogosfera. Letícia Fernandez (ao que parece é um pseudônimo) lançou uma proposta a que podemos chamar ousada: ela quer a transar com 100 homens em um ano. E a experiência, que começou em fevereiro, é descrita no seu blog, apropriadamente chamado “Cem Homens” (http://cemhomens.com). A moça ganhou fama na mídia, mas despertou também algumas vozes menos simpáticas. Faz poucos dias surgiu um vídeo onde um personagem de humor (Vlog do Fernando) bate de frente com Letícia. Humor ou não, o fato é que o vídeo está entre os mais vistos no Youtube e com algumas peculiaridades: 5.500 pessoas gostam do discurso crítico do Fernando, enquanto apenas 166 dizem não gostar. O Chuva Ácida apenas traz o assunto para os seus leitores com uma forma de reflexão.


Tudo o que as entidades empresariais dizem vira uma “verdade absoluta"?

POR CHARLES HENRIQUE

Ao ver os textos de estréia dos colegas de blog, fiquei com a responsabilidade de “fechar” o primeiro ciclo de posts após o lançamento deste espaço no último dia 23. Tarefa árdua, visto a qualidade das discussões até aqui apresentadas.

Pensando em qual tema abordar, não hesitei ao escolher discorrer sobre os movimentos sociais de Joinville, mais especificamente as entidades empresariais, que juntas formam um poderoso arsenal de intervenções e articulações com o Estado, a mídia, e a população num geral. Esta, por sua vez, encara alguns fatos levantados pelos empresários como sendo “verdades absolutas”, sem ao menos discuti-las.

Isto se mostra presente na discussão sobre o aumento ou não do número de vereadores na cidade*. A alteração na Constituição que permitia uma cidade com mais de 450 mil habitantes (como o caso da nossa) foi promulgada em 23 de setembro de 2009, mas só agora estamos discutindo como se fosse a coisa mais importante da história da cidade.

Com a proximidade das eleições de 2012, as casas legislativas são forçadas a tomar uma decisão. Algumas cidades aumentaram o número de vereadores, e em outras, não, como no caso da vizinha Jaraguá do Sul, que teve um acompanhamento de perto das entidades empresariais de lá. Com campanhas em outdoors e articulações com a mídia, a discussão “morreu” numa dicotomia, sem ser ampliada e discutida com toda a sociedade. Quase que isto também ocorre em Joinville.

As entidades daqui foram na mesma linha e pressionaram para que não houvesse o aumento. Muitos vereadores se sentiram acuados (até porque grande parte das lideranças empresariais são fortes financiadoras de campanha) e as ouviram, como se elas fossem defensoras do dinheiro público e porta-vozes das vontades de todos nós. Só falta chamar um jornal da cidade, o qual defende abertamente a manutenção em 19 vereadores para dizer que “seja feita a vontade das entidades”. Não duvido muito que isto aconteceria! (sic!)

Deste modo, por que a cidade de Joinville é tão refém das opiniões destas entidades? Isto é reflexo de uma sociedade segregada, onde os que detêm o dinheiro são facilmente ouvidos (e influenciam o restante!). Os empresários são travestidos de um “interesse em prol da sociedade”, mas, só se intrometem em assuntos de seus interesses, gerando (articulados com a mídia) uma nebulosidade excessiva nas discussões que realmente importam, e que poderiam ser estendidas para toda a sociedade. Torçamos para que neste caso dos vereadores o debate chegue à maioria, e não se reproduzam através dos “donos da verdade”.

*Vale lembrar que este post não pretende abordar se devemos ficar com 19, 21 ou 25 legisladores, essa é uma discussão que faremos em outras oportunidades. Pretendemos, então, analisar como os legisladores, entidades empresariais, mídia e os munícipes estão encarando esta situação.

Argumentos a favor da legalização do aborto

POR JORDI CASTAN

O texto de Maria Elisa Máximo, aqui no Chuva Ácida, inicia um debate que deveria permanecer aberto para receber mais contribuições. Parece-meoportuno, para agregar outros pontos de vista, divulgar o trabalho e os estudosdo economista Steven Levitt da Universidade de Chicago, autor do livro Freakanomics. O autor apresenta dados consistentes mostrando a relação diretaque existe entre a legalização do aborto em 1970 nos Estados Unidos e a redução da criminalidade em 1990. É possívelverificar estatisticamente que os estados que legalizaram o aborto antes,reduziram os seus índices de criminalidade antes que os que o fizeram maistarde. Opositores a legalização do aborto podem questionar as conclusões edefensores podem utilizá-las como base de sustentação.

O importante é neste caso sair do achismo e buscar argumentosconsistentes que tirem o debate das mãos do radicalismo talibã de direita, prainserir-lo no seu contexto social atual, entender o seu impacto na saúde pública e dodireito a liberdade de escolha. Sem cair no erro de fazer da sua defesa umaalternativa tardia a contracepção.

sábado, 24 de setembro de 2011

E você? Vai encarar?

POR ET BARTHES

O Chuva Ácida não tem patrocinadores, mas abre espaço para as marcas que fazem coisas inteligentes. E este “biker prank” (chamemos assim) põe as pessoas à frente dos seus próprios medos e preconceitos. Imagine que você entra numa sala de cinema com a sua cara-metade e só há dois lugares. Os outros estão ocupados por 148 motoqueiros tatuados e mal-encarados.
Você entra ou sai? Mas fale a verdade...


Da necessidade de argumentar

POR FELIPE SILVEIRA

Neste texto de estreia, minha crítica não vai para governo, políticos, mídia, ideias, juiz, delegado, movimentos (sociais e anti-sociais) e essas coisas tão criticáveis. Minha primeira crítica, de cara, vai para vocês, leitores.

“Credo”, pensa você. “Quem esse cara pensa que é pra chegar assim com os dois pés?”

Tá bom, tá bom! A crítica não é exatamente para vocês, que são boa gente, inteligentes e sábios. Minha crítica é para um monte de gente por aí que não tem ideia do que é o debate, do que é a discussão saudável, mas que quer opinar sobre tudo e todos. Opinar, não. Dar a palavra final.

Se fosse a exceção, tudo bem. O problema é que o debate sem argumentos tem sido a regra. Não sei se é por causa do twitter, onde o argumento não cabe, mas parece que é por preguiça mesmo. Ou falta de preparo, sei lá...

Eu gosto de citar o exemplo da sentença judicial. Ela começa com a descrição do fato, segue com a decisão e passa para a fundamentação, que ocupa a maior parte do texto. Isso acontece porque o juiz simplesmente não pode decidir algo sem fundamentar a decisão à luz da lei. (E quando a questão não está prevista na lei, aí sim que ela precisa ser fundamentada, à luz da evolução da sociedade, do conhecimento, da reflexão etc.)

Claro, uma discussão no twitter, no blog, no boteco, não vai decidir sobre a vida de ninguém. Mas argumentar, pelo menos um pouquinho, é fundamental. É preocupante notar que as pessoas estão perdendo essa capacidade. As discussões têm sido monólogos falados ao mesmo tempo, onde ninguém ouve ninguém e todo mundo perde achando que venceu porque gritou mais alto. Sem contar o pessoal que faz ataque pessoal e acha que está num debate de idéias.

Enfim, um debate é feito de argumentos, à luz de idéias bem construídas. E uma ideia só pode ser bem construída se ela resistir às críticas. Ou seja, saber ouvir e pensar, ao invés de gritar dizendo que você está certo. Deixar de lado as preferências partidárias, o gosto musical e o time do coração é um desafio grande para adentrar ao debate.

Enfim, este texto é apenas uma provocação para que possamos iniciar o debate neste coletivo e fazer uma auto-crítica. Pois essa é a proposta do Chuva Ácida: promover um debate com argumento, sem plataforma politiqueira, sem xingamento, sem ataque pessoal. Vamos ver se a gente consegue.

Notas sobre a descriminalização do aborto

POR MARIA ELISA MÁXIMO

Enquanto pensava sobre o tema para meu post de estreia nesse coletivo, um desejo se atravessava a todas as ideias: o de escrever sobre algo que fosse relativo às mulheres. Não apenas por ser eu a única mulher entre os demais que aqui escrevem - até mesmo porque eu não acredito que apenas nós, mulheres, devemos pensar e escrever sobre assuntos que nos dizem respeito -, mas porque tenho percebido que, em Joinville, alguns temas têm sido relegados ao segundo plano pelos movimentos sociais e, sobretudo, pela esquerda (se é que hoje é possível, ainda, dividir o cenário político entre esquerda e direita).

Logo pensei em falar sobre o aborto, mais especificamente sobre a descriminalização do aborto, aproveitando que dia 28 de setembro, próxima quarta-feira, é o dia latino-americano pela descriminalização do aborto. Penso que este assunto revela várias de nossas mazelas, para além daquelas que sempre foram alvo das lutas feministas. Hoje, aqueles que um dia colocaram este tema nas pautas de lutas, muitas vezes se encolhem diante do assunto, sobretudo quando enfrentá-lo pode resultar em perda de eleitorado. Lembremos das últimas eleições presidenciais e da posição escorregadia que a Dilma precisou assumir diante daquilo que ela teria dito, outrora, sobre o aborto. Antes disso, aqui em Joinville, o então deputado Carlito Merss se viu obrigado a espalhar outdoors pela cidade afirmando ser "contra o aborto e a favor da vida".

O tema da descriminaliação do aborto transita nas pautas do movimento feminista e do Congresso Nacional desde os anos 70, 80. Nesta época, a discussão ficava entre a descriminalização total do aborto, a descriminalização regulamentada ou a ampliação dos permissivos legais do Código Penal (casos de risco de vida para a mãe e gravidez resultante de estupro). Segundo Leila Barsted, decidir entre estas três possibilidades representava, para as feministas, optar pela estratégia mais eficaz para que o Estado brasileiro aceitasse como comportamento lícito a interrupção voluntária da gravidez (BARSTED, 1997). Cada uma destas três propostas incluia a luta pela garantia do atendimento gratuito, na rede pública de saúde, dos casos já previstos em lei (inciso II, artigo 128, Cód. Penal).

No entanto, nos anos 90, este debate perdeu sua centralidade no âmbito dos movimentos feministas ou, como coloca Barsted, perdeu sua "radicalidade". Manteve-se o foco nas reivindicações pelo atendimento na rede pública de saúde aos casos de interrupção de gravidez já previstos por lei, enquanto que as demandas pela descriminalização e/ou pela ampliação dos permissivos legais foram relegadas ao segundo plano. E, segundo a autora, isso possivelmente se deve à postura conservadora do Estado brasileiro em relação ao tema, mesmo após a redemocratização consolidada na Constituição Federal de 1988. É aí que se manifesta, principalmente, a dificuldade de construirmos e consolidarmos um Estado verdadeiramente laico, sem a influência de grupos religiosos e fundamentalistas, que se volte à construção de uma sociedade realmente pluralista.

Além disso, Barsted nos fala da ressonância que há no Congresso Nacional dos movimentos conservadores na área do Direito, sobretudo a face repressora do direito penal, que colabora na construção de uma legislação cada vez mais repressiva, "sem criar mecanismos preventivos para a segurança do cidadão, sem buscar soluções alternativas à dramática ineficácia do sistema penitenciário e sem enfrentar as mais diversas causas geradoras da violência" (BARSTED, 1997, p. 2). Essa onda repressora que domina a dinâmica legislativa brasileira, respinga muitas vezes nos próprios movimentos sociais, que acabam defendendo medidas igualmente repressoras e criminalizantes em defesa dos direitos humanos. Neste ponto, a autora nos dá como exemplo as propostas de criminalização do assédio sexual, com o apoio de alguns setores dos movimentos sociais e feministas: o que antes se restringia ao exercício de poder que cerceia e constrange sexualmente a vítima das relações empregatícias, entre médico e paciente, entre professor e aluno, passou a caracterizar qualquer tipo de molestamento sexual, desde o mais grave (indicando estupro) até a mais simples "cantada" em uma mesa de bar (idem, p.3).
Essa descaracterização do assédio sexual leva à chacota, banalizando, junto à opinião pública, a verdadeira intenção do movimento de mulheres de denunciar e dar visibilidade às relações de poder revestidas de constrangimento sexual (BARSTED, 1997).
É possível traspormos esta crítica a várias frentes dos movimentos sociais que, atualmente, centram-se mais na defesa de propostas criminalizantes do que pela busca da liberdade e da garantia dos direitos fundamentais do ser humano. É preciso refletir sobre até que ponto não estamos, em alguns casos, nos deixando capturar pelas armadilhas ideológicas do movimento conservador no Direito.

Para tirar o aborto do rol dos crimes é preciso, portanto, aprofudar os argumentos éticos-jurídicos a partir de uma interlocução mais estreita com as frentes democráticas e críticas do Direito, fundadas principalmente numa proposta reformadora do direito penal que vise o esvaziamento de medidas criminalizantes e repressoras em termos gerais e, consequentemente, a aplicação de normas jurídicas de normas não-penais. Antes disso, ainda nos falta garantir a plena incorporação do "aborto legal" (nos casos previsto em lei) pelo SUS. Nem nesse ponto conseguimos avançar totalmente.

Na década de 80, o então Conselho Nacional dos Direitos da Mulher aliou-se ao movimento feminista na organização do Encontro Nacional de Saúde da Mulher (1989), onde se produziu a Carta da Mulheres em Defesa do seu Direito à Saúde. Nesta carta, o aborto era considerado um problema de sáude da mulher e, que por isso mesmo, deveria ser retirado do Código Penal. Já naquele momento, contestava-se o poder do Estado em legislar sobre a intimidade do indivíduo e reivindicava-se a liberdade reprodutiva. E é nesse ponto que eu gostaria de chegar, como forma de fomentar o debate. Antes de qualquer coisa, o aborto deve ser tratado como direito da mulher, acolhido pela lei e livre de argumentos moralizantes. Os movimentos sociais, não só os feministas, deveriam retomar este debate no âmbito das discussões acerca dos direitos humanos. É importante termos em mente que "o direito de nascer não necessariamente significa uma real garantia de vida" (Helena Máximo, 2006).

Finalmente, é crucial que se entenda, de uma vez por todas, que defender a descriminalização do aborto não significa "ser a favor do aborto" e, menos ainda, "ser contra a vida". Aliás, da vida de quem está se falando? As mulheres que já fizeram um aborto - ainda mais de forma clandestina, como criminosas, sob circunstâncias muitas vezes insalubres, são elas as primeiras a testemunharem o quão difícil e dolorosa é esta decisão, envolta sempre em tantos tabus, tendo que ser tomada em situações de insegurança e sofrimento.

Ref. Bibliográficas

BARSTED, Leila. O movimento feminista e a descriminalização do aborto. Revista de Estudos Feministas, v. 5, n. 2, Florianópolis, 1997. Disponível em: http://www.ieg.ufsc.br/revista_detalhe_volume.php?id=189. Acessado em: 24/09/2011.

MÁXIMO, Helena. O crime do Padre Amaro. Uivemos, 28/09/2006. Disponível em: http://uivemos.blogspot.com/2005/09/o-crime-do-padre-amaro.html. Acessado em 24/09/2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

What the Fuck!

POR ET BARTHES

Os terráqueos são muito loucos. Para garantir audiências de televisão, o maluco decidiu que tudo vale a pena quando a napa não é pequena. O que ele fez? Pediu a ninguém menos que o Mike Tyson para ficar parado de punho em riste. E saltou de cara. Foi um “autonocaute” que resultou numa fratura do nariz. E entre os convidados estavam outros dois caras também conhecidos por serem grandes malucos: Charlie Sheen e William Shatner.

Aliás, a expressão final de Shatner (que eu conheci numa das suas viagens estelares) define tudo:

- What the fuck!

Aprendendo com o passado recente

POR JORDI CASTAN

A corrida para a próxima eleição deu início com inusitada precocidade. Os pré-candidatos não perdem festinha de aniversário, lançamento de prédio, velório ou formatura. Propor hoje um cenário mais ou menos credível do que poderá acontecer faltando pouco mais de um ano é uma mistura de adivinhação, exercício de futurologia e previsão de economista. Para ajudar nesta empreitada, nada melhor que olhar para o passado e tirar conclusões da nossa história política e eleitoral recente.

O eleitor joinvilense vota querendo o melhor para sua cidade. O seu desejo é escolher o melhor candidato, apesar de que não poucas vezes tenha sido forçado a escolher entre o menos ruim. A eleição de 2012 tem tudo para ser uma destas ocasiões, em que a dúvida não será entre os dois melhores.

A primeira gestão do Prefeito Wittich Freitag foi marcada por uma administração sóbria, um perfil empresarial e uma priorização da economicidade e da profissionalização. A resposta a este perfil marcadamente empresarial e seco foi a eleição, contra todo prognóstico, do prefeito Luiz Gomes, pessoa afável e simpática, com um perfil de gestor público quase oposto ao seu antecessor. Na eleição seguinte o eleitor votou de novo no administrador que poria a casa em ordem, melhoraria as contas e faria as obras que Joinville sempre precisa. A idade e a saúde não permitiram que a segunda gestão do Prefeito Freitag superasse a primeira.

E a eleição de Luiz Henrique foi a escolha do eleitorado por um político de carreira, que chegava com uma aura de repercussão nacional, depois de ter sido ministro e presidente nacional do seu partido. A escolha foi por uma Joinville melhor inserida no contexto nacional. Sua gestão priorizou as grandes obras, representadas pelas fachadas suntuosas, e o joinvilense sentiu a falta da atenção e do capricho com os detalhes. A imagem do técnico trabalhador que acordava cedo e tocava as obras permitiu a eleição de Marco Tebaldi, que acabou a sua gestão desgastado e o eleitor votou na esperança, na novidade para eleger o prefeito Carlito.

Os níveis de desgaste e de rejeição que as pesquisas evidenciam, chegam a superar em alguns casos o número de votos que o elegeram. A gestão atual não tem conseguido atender as expectativas do eleitor, este ser volúvel que, entre erros e acertos, busca o melhor candidato para administrar a sua cidade e o seu destino pelos próximos quatro anos.
É provável que neste movimento pendular em que vive permanentemente o eleitor, no seu imaginário já esteja bem nítido o perfil do candidato que merecerá o seu voto. E tanto marqueteiros como partidos políticos se apressam a identificar candidatos com este perfil ou a construir, se for preciso, candidatos que atendam a este perfil desejado pelo eleitor.

Aumentou a rejeição aos maus administradores. Os que não tem experiência prática - e dificilmente teriam êxito em administrar uma pequena quitanda - devem evitar se postular.
Há espaço para candidatos com um perfil mais autoritário, o que não é bom. A rejeição a políticos profissionais é maior que em outras eleições e dificilmente terá sucesso um candidato que tenha uma imagem pouco ética. A impressão é que o eleitor esta cada vez menos tolerante com corruptos e mitômanos. Promessas que não possam ser cumpridas devem ser mais facilmente identificadas e expostas durante a campanha. Instrumentos como o "promessômetro" serão mais bem explorados e será mais fácil desmascarar as mentiras e os mentirosos. Finalmente o crescimento da internet e das mídias sociais fará que a próxima seja uma campanha muito diferente das anteriores.

Para concluir, a próxima deverá ser uma das campanhas mais escandalosamente caras que esta cidade já viu.

Carlito é carta fora do baralho?

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Há muita gente que dá como certa a derrota de Carlito Merss nas próximas eleições. Mas em política não há certezas, porque as coisas não funcionam em piloto automático. Aliás, é só lembrar que um ano antes de vencer as eleições de 2008, Carlito estava reticente quanto a concorrer. Os elevados índices de rejeição não favoreciam uma candidatura. Mas ele arriscou e ganhou.

Outro pequeno esforço de memória permitirá lembrar que em 2008, algumas semanas antes do segundo turno, a campanha de Darci deMatos ia de vento em popa e pouca gente duvidava da sua vitória. Mas numa questão de dias, uma sucessão de fatos - coisas que todos lembramos - mudou o rumo das eleições. Portanto, não há vitórias e nem derrotas antecipadas.

Se os adversários consideram Carlito Merss uma carta fora do baralho, é melhor tirarem os seus pôneis da chuva. Porque está tudo em aberto. É uma questão de lógica política. Aliás, a oposição cometeu erros de palmatória. Foi com muita sede ao pote. E rápido demais. Não havia decorrido sequer um ano do atual governo e os adversários já tinham despejado toda a sua artilharia pesada sobre a imagem do prefeito.

Foi um erro estratégico - se é que houve uma estratégia. Basta lembrar que, passados poucos meses da posse, um jornal da cidade ligado a um deputado já atribuía a Carlito o epíteto de “pior prefeito da história”. Ora, a partir daí nada do que pudessem tentar achacar à imagem de Carlito iria surpreender. Fica tudo redundante.

É claro que o prefeito cometeu erros táticos. Em primeiro lugar, porque não levou a sério a ideia de que governar também é trabalhar para a reeleição. E seria prudente ter planejado um terceiro ano de mandato com os olhos nas eleições. Ou seja, um período com mais investimentos em obras, de forma a criar uma imagem de realizador e conquistar o goodwill dos eleitores. Parece ser uma obviedade, mas não foi o que aconteceu.

Também houve problemas de comunicação. Não conseguiu falar para dentro e as greves dos servidores provam isso. E foi ineficaz ao falar para fora, porque a mensagem não chegou à população. Mas, de qualquer forma, não se iludam os adversários, porque ainda há muito carvão para queimar. E a máquina administrativa é uma poderosa máquina eleitoral.

Ok... imagino que esta análise possa causar algum muxoxo entre os leitores e leitoras, em especial na (incipiente) blogosfera joinvilense, onde predomina a ideia de que a candidatura de Carlito é um caso arrumado. Mas não se iludam. A opinião publicada nos blogs e microblogs não é a opinião pública. E o mais importante: a opinião pública pode ser influenciada por homens hábeis.

Afinal, quem morre na véspera é peru.

A chuva que traz uma nova energia

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Este é o primeiro post do Chuva Ácida. Uma missão que coube a mim por decisão do coletivo. Acho que a lógica do pessoal foi mais ou menos a seguinte: mandar o cara dispensável na frente, porque se a coisa correr mal não se perde grande coisa.

O Chuva Ácida surge com a pretensão de dar nova energia à blogosfera de Joinville. A proposta é a democratização efetiva da opinião e o foco será nos temas de expertise dos seus integrantes. O blog pretende ir ainda mais longe: apresentar visões diferentes que, por vezes, poderão ser antagônicas. O nome do jogo é democracia. E sem liberdade de expressão, no sentido mais amplo, não existe democracia.


De uma coisa temos certeza. Joinville nunca teve um espaço midiático digital com tamanha diversidade de pensamento. O leitor e a leitora vão encontrar aqui opiniões com as quais vão concordar e outras das quais vão discordar liminarmente. Perfeito. Porque esse é o objetivo. Afinal, as sociedades só avançam quando as diferenças de ideias são postas no plano do debate.


Mas como escreveu Freud, o novo sempre causa perplexidade e resistência. Não por acaso, o blog sequer tinha vindo à luz e já foi alvo de críticas nas redes sociais. Faz parte do processo. Não foi o primeiro e nem será o último episódio desse tipo. Mas deixamos claro o propósito. O blog rejeita os velhos esquemas de uma velha mídia onde a opinião é condicionada por interesses muitas vezes pouco transparentes.

Não temos dúvidas de que, por trazer um conceito novo, o Chuva Ácida terá que enfrentar as suas crises. Não apenas na relação com os leitores, mas também na relação entre os seus próprios integrantes. Mas tudo é um aprendizado. E é parte do jogo: a democracia é um caminho que só se faz ao caminhar.

O Chuva Ácida surge como um projeto inovador, que propõe mudanças de perspectiva sobre a mídia. E o maior risco é a entropia. Porque tudo o que é novo causa estranhamento. Afinal, todos sabemos que quando sopram os ventos da mudança, surgem dois tipos de reação: uns levantam muros, outros constroem moinhos.

E queremos que vocês, leitor e leitora, sejam do grupo que vem para levantar moinhos e produzir democracia. Porque os leitores são um vértice essencial deste blog. Queremos ouvir - e publicar - a sua concordância ou discordância. Todas as ideias, desde que respeitando as regras do jogo democrático, são bem-vindas.