sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Maior dançarino do século é homenageado em Santa Catarina

POR DOMINGOS MIRANDA
A gratidão é o sentimento mais nobre do ser humano.  Cícero, célebre político romano, disse: “Nenhum dever é mais importante do que a gratidão”. Portanto, foi com alegria que participei, no dia 1º de dezembro, em Joinville, da solenidade de entrega da Medalha do Mérito Governador Luiz Henrique da Silveira ao  dançarino e coreógrafo russo Vladimir Vasiliev. Esta honraria é oferecida pelo governo do Estado a pessoas que prestaram relevantes serviços a Santa Catarina. O Bolshoi Brasil existe por decisão de Vasiliev, quando era diretor geral do Ballet Bolshoi de Moscou.

A cultura é a maneira mais eficaz de estreitar relações entre os povos. Em 1999, o Bolshoi, a mais renomada escola de dança do planeta, fundada em 1776, fazia excursão pelo Brasil e, por esforços do então prefeito Luiz Henrique da Silveira, foi possível fazer uma apresentação em Joinville, com enorme sucesso de público, o que impressionou Vasiliev, que estava presente. Luiz Henrique, num gesto ousado fez a ele o convite para que instalasse em Joinville a única filial do Bolshoi fora da Rússia. As outras duas cidades que estavam no páreo eram Washington, nos EUA, e Tókio, no Japão.

Vladimir Vasiliev voltou à Rússia e convenceu a direção da escola de dança que a melhor opção seria o Brasil. Assim, em março de 2000 começaram as aulas da Escola do Teatro Bolshoi em Joinville, com a mesma qualidade de ensino da matriz. Tanto isto é verdade que inúmeros alunos do Bolshoi se destacam em inúmeras companhias do Brasil e no exterior, até mesmo em Moscou.

Nas décadas de 50 e 60, havia duas coisas que a então União Soviética era imbatível no mundo: a ciência e a dança. O primeiro satélite a entrar em órbita (Sputnik) e o primeiro cosmonauta e dar a volta na terra (Gagarin) foram soviéticos. E os três melhores bailarinos do século – Rudolf Nureyev, Mikhail Baryshnikov e Vladimir Vasiliev – eram da pátria do comunismo. Os dois primeiros ficaram mais conhecidos no ocidente porque deixaram o seu país natal. Vasiliev, conhecido como “o deus da dança”, não quis ir morar no exterior porque sempre valorizou a cultura russa e achava que tinha o dever de repassá-la a seus conterrâneos. Por isso ganhou o cobiçado Prêmio Lênin.

Com a introdução do socialismo na Rússia, os governantes, mesmo com todas as dificuldades, tais como a Guerra Civil e a invasão das tropas nazistas durante a segunda guerra mundial, nunca deixaram de lado a cultura para o povo. Se na época do czarismo, o ensino no Bolshoi estava reservado somente para a elite, no comunismo os filhos dos trabalhadores tinham a preferência. O pai de Vasiliev, por exemplo, era um motorista de caminhão.

Durante os anos de disputa entre a URSS e os EUA, na chamada Guerra Fria, os países ocidentais temiam os avanços soviéticos em todas as áreas. Em alguns casos este medo chegava a ser grotesco, sendo motivo de chacota, como aconteceu no Brasil, em 1976, em plena ditadura militar. A tevê Globo havia anunciado um documentário sobre os 200 anos do Balé Bolshoi, feito pela BBC, da Inglaterra. O ministro da Justiça de Geisel, Armando Falcão, proibiu a apresentação do filme e também não permitiu que a televisão anunciasse a censura. O argumento de Falcão era que os dançarinos soviéticos, que interpretavam a peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, iriam repassar mensagens comunistas.

Mas, se há uma coisa que não volta é a roda da história, às vezes ela derrapa, mas sempre segue em frente.  A ditadura caiu nove anos depois desta maluquice e 24 anos após a censura a Escola do Balé Bolshoi se instalou no Brasil.  Neste mesmo período a União Soviética desapareceu, o comunismo não está mais no poder mas a qualidade do Bolshoi permanece imutável. E, nós, brasileiros, podemos ter acesso a esta pérola da cultura russa.

E o que mais se destaca nisso tudo, é que os nossos bailarinos têm a cara do Brasil, de todas as cores, todas as raças e crenças. Há bolsa de estudo para todos. Um aluno, filho de um vaqueiro nordestino, tem a mesma chance de estudar que o filho de um industrial. Isso se chama igualdade de condições, tão carente em nossa terra. Obrigado Vasiliev por nos dar este presente.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

UFMG: a "esperança equilibrista" mais pareceu uma operação de guerra

POR CLÓVIS GRUNER
Repercutiu, ao longo do dia de ontem, a invasão da UFMG pela Polícia Federal. A operação, a exemplo do que já aconteceu antes em outros campi, notadamente na UFSC, foi espetacular, no pior sentido da palavra: foram mais de 80 agentes policiais, alguns uniformizados e fortemente armados. Uma operação de guerra.

Também ao longo do dia de ontem circularam hipóteses para a operação, arrogantemente batizada de “Esperança equilibrista”, apesar do pouco equilíbrio e da dose cavalar de desesperança e desespero que esse tipo de ação arrasta junto com ela.

Todas as suposições podem ser resumidas em uma, que me parece contemplar todas as outras: depois de colocar as universidades públicas de joelho ao longo do ano, estrangulando-as financeiramente, o governo ilegítimo de Michel Temer agora investe contra as universidades e seus profissionais transformando-nos todas e todos em criminosos potenciais.

Essa dupla desqualificação, silenciosa e material, ruidosa e simbólica, não é casual nem gratuita. Ela é parte de um projeto político de desmonte da educação pública, que não está restrito ao ensino superior, mas que o mira em um momento particularmente significativo.

Não se trata de coincidência que a precarização da universidade, seu desmonte e os esforços por desqualificá-la junto à chamada “opinião pública”, acontecem quando, mesmo que ainda timidamente, o acesso a ela tem sido ampliado de forma a democratizar uma instituição que, historicamente, atendeu principalmente as elites.

Vem daí também a urgência, a voracidade com que somos atacados. À medida que nos democratizamos, que a universidade se abre mais e mais à diversidade de classe, étnica e de gênero, que ela muda seu perfil socioeconômico e cultural, é preciso não apenas constrangê-la e humilhá-la, mas criminalizá-la.

A criminalização da Universidade, ironicamente obra de um governo notoriamente criminoso, não é apenas mais uma etapa de um processo político de desmonte da educação pública. Ela é também um projeto de classe, o de manutenção das desigualdades a qualquer custo. 

Joinville: uma cidade que dorme sem pensar no futuro


POR FAHYA KURY CASSINS
Acabo de ouvir de um funcionário público municipal: “Esse prefeito veio pra complicar a nossa vida, dos funcionários, e a dos cidadãos. E é por isso que a gente tem que se unir pra mostrar pra ele que somos mais fortes, que somos cidadãos e temos nossos direitos.”.
Admira-me que acusem as pessoas que criticam o que ocorre na cidade de alguma suposta antipatia pelo atual prefeito, ou divergências entre partidos, etc.. Certo está que não é somente o prefeito que deve ser responsabilizado por tudo, nem somente a atual administração – visto que os problemas surgem das atitudes dos cidadãos, assim como a cidade possui problemas que se arrastam há anos.

Porém, é necessário culpabilizá-lo pelo que lhe diz respeito, sim. A indiferença ao cidadão, os serviços públicos abandonados, a total ignorância nos setores de trânsito e obras, o descaso com a saúde, a propaganda na TV que nos chama de idiotas, a tudo isso e muito mais é dever nosso, como cidadãos unidos, apontar o dedo para o prefeito.

É dele, justamente, a culpa pela maldade no tratamento com os idosos desta cidade. Joinville é um fracasso no atendimento aos idosos. Na campanha o outro candidato prometeu um centro de convivência e atendimento no espaço ocioso da Arena. Cresce a olhos vistos a quantidade de casinhas que abrem as portas com a placa de “lar para idosos” - os famosos asilos, que só mudaram de nome. Joinville não escapa ao que acontece com o mundo: a sua população envelhece. E é abandonada.

Um problema social mais amplo do que a nossa pacata Colônia, é claro. Quando uma pessoa passa a depender dos outros, quando antes era quem provinha e ajudava, e não “serve” mais para nada – não trabalha, não contribui com a renda familiar (aposentadoria é pouca e gastos com remédios e etc. é maior), não pode mais cuidar dos filhos e netos, não pode mais lavar, passar e cozinhar – então ela é relegada ao limbo da espera pela morte. É isso o que acontece na maioria das famílias e nos “lares” onde ajuntam-se idosos aguardando o fim. Perdeu a serventia? Então pra que cuidar, dar conforto, fazê-los felizes e suprir-lhes as necessidades?

Este problema social e humano não é, ainda, suficientemente encarado de frente. Não basta o dia do idoso e seu estatuto. Falta-nos cidadania – e amor. Ninguém é acometido de graves doenças na velhice porque quer. Ninguém usa fralda porque quer. Ninguém é condenado a viver anos preso a uma cama porque quer. Ninguém perde a memória e o comando dos movimentos e necessidades mais básicos porque quer. E todos – sem exceção – são dignos de uma boa vida. Vale sempre lembrar: pode acontecer com todos nós.

Admira-me que o prefeito, sendo um idoso de 75 anos, seja a personificação da briga por tirar direitos constitucionais dos idosos joinvilenses. Novamente ele cria empecilhos para que idosos consigam, por exemplo, acesso à fraldas geriátricas. Não é a primeira vez, a cada golpe ele cria novas artimanhas para atrapalhar a vida de pessoas que estão em condições especiais e delicadas de saúde e de vida. Como espanta-se incredulamente minha mãe: como dorme alguém que faz isso?!

Famílias são orientadas a buscar a Justiça. Porém, sabemos que a muitos idosos e familiares não têm informação, tempo e condições de correr atrás de todos os seus direitos. Assim, a prefeitura sai ganhando: não é obrigada, pela Justiça, a fazer o que lhe compete. Infelizmente é esta a situação. Para quem não sabia, que fique claro: os idosos só conseguem seus direitos básicos recorrendo a outros meios. Estou no aguardo da defesa dos que dizem que nós só criticamos, por alguma infelicidade qualquer.

Ao mesmo tempo, a fiscalização ignora as condições dos muitos asilos que se espalham pela cidade. Faltam funcionários (é o principal problema) ou são contratados sem qualificação mínima, limitam horários de visita, a alimentação é precária (muito mesmo), donos e familiares dão a recomendação de não acionar os serviços de emergência quando necessário (como dorme alguém que faz isso?!), e tantos outros graves problemas. Além, é claro, das internações forçadas, que visam o dinheiro e os bens dos idosos internados – mais um indício, inclusive, da especulação imobiliária na cidade. Como dorme o prefeito que não quer dar fraldas a idosos? Como dorme um filho que interna a mãe num asilo porque quer sua polpuda aposentadoria e vender sua casa?

Como dormimos todos, sabendo de tudo isso – e do que nos espera no futuro?

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Pobre de direita? Só o Archie Bunker...

POR MÁRIO PAGANINI
Archie Bunker é o único pobre de direita que já curti na vida. Para quem não está familiarizado com o personagem, aí vai um pequeno resumo da série All in Family (“Tudo em Família”), um clássico dos anos 70 também exibido no Brasil. O personagem principal era Archie Bunker, um trabalhador blue collar que vivia com a mulher, a filha e o genro no bairro de Queens, em Nova Iorque.

Era um reacionário. Odiava tudo que cheirasse a liberdades individuais e infernizava a vida do genro, que considerava um “esquerdista” inútil. Machista, fazia da pobre e desajeitada Edith, a mulher, uma escrava. Não disfarçava o racismo na relação com os Jefferson, uma família negra que foi viver na casa ao lado. Xenófobo, era intolerante com os estrangeiros e já naquela época falava no que hoje conhecemos por “America first”.

A série nada devia ao politicamente correto e hoje não passaria pelo crivo dessa horda que vê problemas em tudo. E se o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, então podemos dizer que Archie Bunker é uma espécie de arquétipo do “insignificante burguês” brasileiro (nem chega a ser pequeno burguês). Ou, numa linguagem que qualquer pessoa reconhece, do pobre de direita.

Quem é o pobre de direita? O capitalista sem capital. O burguês sem meios de produção. O que está entre os 99% mais pobres e defende as ideias do 1% mais rico. Archie Bunker e os pobres de direita têm alguns pontos em comum. O mais reconhecível de todos é o fato de ambos serem uma paródia. Só que o trabalhador reaça dos subúrbios de Nova Iorque é um personagem de ficção e os pobres de direita existem na sociedade.

Continuando... quem é o pobre de direita? É o coxinha pobre. O cara é empregado, passa o dia trabalhando e vive de salário, mas repete o discurso do patrão. Paga impostos, mas não tem saúde e educação de qualidade. E ainda comemora o fim do SUS e de programas como o Prouni. Está sempre correndo atrás para cobrir o cartão de crédito, mas quando tem um tempinho vai para as redes sociais defender tretas neoliberais.

Perde boa parte da vida nos transportes ou preso no trânsito a bordo do carro popular. Fica irritado com os buracos nas ruas, mas nas eleições a seguir vota no mesmo prefeito. Nos dias em que tem tempo livre para descansar não tem lazer de qualidade disponível. Diz que não existe “apartheid social” e que isso é invenção de esquerdopatas. Aliás, não faz a menor ideia do significado de muitas das palavras que usa. Afinal, o nível de informação é rasteiro, baseado no Jornal Nacional.

Enfim, o pobre de direita só atrapalha a evolução das sociedades. Não tem a menor graça. Chato por chato, vou ficando com as reprises da série do Archie Bunker. Este pelo menos provoca riso do bom. Pobre de direita só provoca o riso amarelo da vergonha alheia.


Archie Bunker era interpretado pelo ator Carroll O'Connor

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Tacla Durán: a mídia não cobre. Encobre...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
É vergonhoso. Os dias passam e a velha imprensa continua em silêncio sobre o depoimento do advogado Rodrigo Tacla Durán. Isso surpreende? Não. O desdém pela democracia e pelo próprio jornalismo tem sido a regra para os títulos do costume. As denúncias, que lançam um manto de suspeita sobre a Lava Jato, têm indiscutível valor jornalístico. É preciso investigar. Esse é o papel da imprensa. Nem que seja para desmentir o advogado. Mas a mídia não cobre. Encobre.

Há um déficit de democracia nas redações. Para muitos títulos da velha mídia brasileira, o valor-notícia passou a ser definido de acordo com os próprios interesses corporativos. “Deontologia”, essa palavra tão apreciada nos regimes democráticos, porque define valores éticos, não entra no dicionário. Os escrúpulos foram mandados às urtigas e a infâmia tornou-se uma linha editorial. Essa mídia tem sido um poderoso vetor para a destruição dos valores éticos no país.

Há muito por esclarecer. Tacla Durán acusa o advogado Carlos Zucolotto, padrinho de casamento de Sérgio Moro, de ter oferecido redução de US$ 15 milhões para US$ 5 milhões numa multa que lhe seria imputada. E outros US$ 5 milhões deveriam ser pagos na forma de honorários. Ou seja, o famoso “por fora”. É grave. E no meio desse turbilhão surge uma sigla que já vai ficando famosa: DD, de Curitiba. Tentar adivinhar quem seria o tal DD virou uma das manias na internet. Seria Dower Doint?

A denúncia também explodiu no colo do casal Moro, uma vez que o nome de Rosângela Moro, mulher do juiz, apareceu no olho da tempestade. Há denúncias que envolvem dinheiro. Em sua defesa, ela postou que “o tempo esclarece tudo”. Esperemos. O escândalo não acaba aqui. Há ainda a denúncia de que procuradores da Lava Jato estariam a usar documentos de autenticidade duvidosa para legitimar a palavra de delatores. E mais: haveria uma intenção de direcionar essas delações para atingir alvos específicos. Quem seria? Pergunta retórica.

As acusações de Tacla Durán devem ser vistas com alguma cautela. Afinal, o homem não é um santo. Mas por que acreditar nele e não nos outros? Há pelo menos uma razão de peso. O advogado não está preso (nem será extraditado da Espanha, onde vive atualmente) e, por isso, não sofre do stress do encarceramento. Quem nunca ouviu acusações de que Curitiba é a “Nova Guantánamo”? Ou seja, um lugar onde o esgotamento psicológico é usado como técnica para quebrar os presos e obter delações.

Mas voltemos à mídia. É lídimo fazer projeções. Se fossem denúncias contra Lula, Dilma ou o Partido dos Trabalhadores, por exemplo, alguém duvida que haveria transmissão em direto pela televisão? Edições especiais? Ou até helicópteros? Mas o tema Tacla Durán foi relegado à não-existência pela velha mídia. E todos sabemos que se uma coisa não é vista no Jornal Nacional, então não existe. O lado bom é que o tema dominou as redes sociais. Mas o Brasil é um país de infoexcluídos e a internet ainda não consegue levar as notícias a todos os lados.

Eis o cerne da questão. A mídia hegemônica encobre, mente e distorce os fatos de acordo com os próprios interesses. E tem contribuído, com relevo, para a instalação desse clima de pouca-vergonha no país. É preciso mudar. As plataformas digitais são uma solução de futuro, porque ainda carecem de maior implantação. Mas sem a democratização da mídia não há democracia. Infelizmente, só resta esperar que o próximo presidente, seja quem for, tenha tomates para resolver essa questão. Pelo bem do país.

É a dança da chuva.




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Em Joinville, a decoração de Natal também serve para o Carnaval



POR JORDI CASTAN
É impossível não perceber a mudança de estilo e de mensagem da decoração natalina. Os enfeites de Natal,  tanto públicas quanto privados, vem mudando nos últimos anos e Joinville, como cidade ligada ao mundo, não poderia ficar de fora desta tendência. Sai toda a simbologia cristã ligada ao Natal e aos seus elementos de referência. Não há mais nem presépios, nem menino Deus, nem anjos, nem arcanjos, nem coros celestiais. Entram em troca efeitos luminosos que reúnem simultaneamente a cafonice, o excesso e o mau gosto. É uma mistura de barroco tecnológico, com falta completa de bom senso e bom gosto.

Neste sentido é difícil, no caso de Joinville, achar uma que possa tirar o primeiro prêmio do projeto luminotécnico da decoração da Prefeitura Municipal. Um bom amigo, engenheiro aposentado da Celesc, insiste que aquilo não é mesmo uma decoração mesma: é só o estoque a céu aberto de todos os enfeites que sobraram. E que, como não tiveram tempo nem local para colocar, acabaram ficando meio jogados, meio esquecidos no gramado da Beira Rio. Difícil discordar dele. Custa acreditar que aquele amontoado de luzes seja o resultado de um projeto e que alguém possa ser responsável por aquele exagerado desperdício de energia e gosto estético.

O mau gosto não é exclusividade da municipalidade. Há bons exemplos também na iniciativa privada. Trenós com renas à espera da primeira nevada dezembrina, Papais Noéis barrigudos e narigudos ou constelações de estrelas piscantes compõem a decoração, lado a lado com o mais absoluto nada. Longas fileiras de lâmpadas chinesas enfeitam árvores, palmeiras, fachadas, objetos, sacadas e qualquer tipo de objeto inanimado que, indefeso, sofre o ataque furibundo da brigada da cafonice, que se propaga com virulência e entusiasmo assustador.

A única certeza é que a do próximo ano será ainda pior, mais colorida, exagerada e carente de conteúdo e de mensagem. O resultado será uma cidade perdida no seu labirinto, sem saber o que é, nem para onde vai. O ponto mais positivo é que a mesma decoração pode ser mantida nas ruas até ao Carnaval, ao fim das contas ninguém sabe mesmo qual o objetivo deste festival de mau gosto. Vai que é para deixar as ruas mais iluminadas, as cidades mais iguais e o espírito natalino completamente ofuscado pelo excesso de iluminação e a falta de bom gosto.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Os convites ao prefeito: Joinville não é padrão Angeloni


POR FAHYA KURY CASSINS
O assunto de hoje era outro, mas resolvi continuar meu convite ao prefeito, do texto anterior. Eu convidaria o prefeito para ir ver o hospital São José. Talvez, quem sabe, todos os dias, uma meia hora para andar por ali e ver e ouvir a realidade – mas não tempo o suficiente para endurecer o coração. Porque Joinville não é o Angeloni da Ministro, com suas prateleiras arrumadas, chão limpo e produtos importados. Aliás, poucas coisas são tão fora da realidade joinvilense do que o Angeloni e seus preços careiros.

Convidaria o prefeito para fazer uma consulta no São José e ver que a área da Ortopedia agora também está lotada de “leitos” (as famosas macas utilizadas como camas para internados). Se ele fosse fazer uma consulta de urgência ali, certeza que passaria de três a quatro horas, então daria tempo de ver e ouvir muita coisa.

Aliás, caso ele precisasse de um raio – x, então, melhor ainda. Porque só há um (eu disse UM, 1, apenas) aparelho de raio – x para todo o hospital – que atende internados e emergência, todas as áreas como Ortopedia, Neurologia, etc.. A fila de espera para o raio – x é, em média, de uma hora. Isso num dia de semana, normal, uma quarta-feira tranquila. Mas quando você é, finalmente, chamado, qual a triste surpresa? A máquina é velha e a mesa está estragada, ela se mexe sozinha. Sabe o raio – x, que o técnico pede pra você ficar paradinha porque senão estraga o exame? Então, você fica lá paradinha e… torce pra mesa não se mexer. Mas, ela se mexe. E o exame terá que ser refeito. Talvez o prefeito tenha plano de saúde, ou conheça alguém que tem, sugiro visitar uma clínica dessas de Ortopedia da cidade, uma pequena qualquer, para conhecer o raio – x digital.

Mas a espera pode ser longa. Muito longa. E ele sentirá sede, por exemplo. Procure um bebedouro, prefeito. Não há bebedouro nem na recepção do hospital. Nem na enorme “sala” de despejo, digo, internação provisória. Há um lá do outro lado, caminho para a tomografia. Mas, claro, dependendo do seu problema de saúde, você não conseguirá chegar andando sozinho até lá. No outro andar, então, nem tem – não perca tempo procurando. E não peça um mísero copo de água às atendentes da refeição dos internados – elas negarão.

Fique ali, prefeito, lendo as placas de identificação. Pacientes de todas as áreas, de Oncologia, por exemplo, “internados” ali no despejo há sete dias. Sete, 7. Clínica geral, Ortopedia, Cirurgia Geral (sim, há pessoas aguardando cirurgia jogadas ali naquele salão quente, apinhado de gente e barulhento), Neurologia (somos destaque no tratamento do AVC, dizia a capa de um jornal meses atrás). Caminhe por ali ouvindo as histórias, perceba que é difícil, ao contrário do que a maioria apregoa, encontrar um único que não seja morador de Joinville – e fiel à sua cidade.

Veja a chefe da enfermaria passar correndo pra lá e pra cá porque está, todo dia, faltando enfermeiros e técnicos de enfermagem. Converse com ela, prefeito. Acredito que ouvirá coisas surpreendentes. Converse com a enfermeira de qualquer especialidade dali, ela dirá que é trabalho demais para uma só, que antes trabalhavam em duas, mas, sem explicação, tiraram a outra e ela agora está sozinha.
Aliás, espero que pelo tempo que o prefeito passará lá encontre algum lugar para sentar. Vá com um relógio e acompanhe quanto tempo os acidentados (que chegam de ambulância sem mexer a perna devido a acidente de moto, imobilizados porque caíram de escada trabalhando, etc.) ficam abandonados no corredor sem atendimento, esperando raio – x e a sua vez no médico.

Prefeito, vá lá. Conhecimento nunca é demais nessa vida. Vá lá ver o que nós conhecemos muito bem. O padrão ali não é Angeloni, nem Dona Helena com seu sistema de identificação desde a portaria, e máquinas de café e chocolate de graça. Eu não encontro palavras para descrever a confusão, a balbúrdia, o calor, a sede, o cansaço, a desesperança, a indignação, a raiva, a tristeza, a falta total de espaço, o desconforto para pacientes e acompanhantes, o barulho infernal, as informações erradas, os gritos. Eu só sei que o joinvilense é forte e os médicos, felizmente, fazem bem o seu trabalho (mesmo sob tais condições) – o mesmo já não podemos dizer dos nossos políticos. Nem, aliás, de alguns parentes e familiares, como bem frisou a enfermeira (mas isso é assunto pra outra hora).

(P.S.: agradeço a todos que participaram com suas sugestões no post anterior, parece que há muita Joinville para o prefeito – e alguns cidadãos – conhecer.)

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

MEC-Usaid, o avô da Escola Sem Partido

POR DOMINGOS MIRANDA
Há cerca de meio século houve uma mudança radical no nosso ensino, colocada em prática sob a orientação de técnicos norte-americanos. O principal objetivo do Acordo MEC-Usaid (United States Agency for International Development) era acabar com as ideologias nas escolas e faculdades e orientar os estudos para os interesses das grandes empresas multinacionais. É claro que houve muitos protestos, cujo auge foi em 1968 e que resultou no famigerado AI-5, que acabou com o que ainda restava de garantias democráticas.

O Acordo MEC-Usaid começou a ser gestado em 1964, logo depois do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart. O professor norte-americano Rudolph Atcon realizou estudo sobre o ensino superior brasileiro, a pedido do MEC (Ministério da Educação). Ele propunha que “a universidade deveria se libertar de todas as malhas do Estado, ter autonomia plena para se desenvolver enquanto empresa privada”.

Quando foi colocado em prática, uma de suas medidas foi a extinção das disciplinas de filosofia e latim e a introdução de outras, como Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política Brasileira). No XXVIII Fórum da UNE, os estudantes afirmaram que “o governo militar propõe para a universidade, uma universidade e um universitário inteiramente distantes e alienados dos problemas do seu país e do seu povo”.

Para a sua implantação, o governo utilizou de muita repressão. O temido Artigo 477 foi utilizado com frequência para a expulsão de professores e alunos considerados indesejáveis. Centenas de estudantes foram presos, torturados ou mortos. O último presidente da UNE antes de sua desarticulação, Honestino Guimarães, está desaparecido até os dias atuais. Em cada sala de aula sempre havia um informante do governo para relatar o posicionamento de professores e alunos.

Há um célebre ditado popular que ressalta que errar é humano, repetir o erro é burrice. Atualmente existe um movimento chamado Escola Sem Partido que, em linhas gerais, é a volta do Acordo MEC-Usaid. Seus defensores alegam que os professores estariam proibidos de abordar alguns assuntos considerados “doutrinas de esquerda”. Sem nenhuma criatividade, a direita tenta retomar uma prática adotada meio século atrás e que deixou sequelas por toda uma geração.

A burrice desses Torquemadas modernos chega a tal ponto que querem retirar o Paulo Freire como patrono da educação brasileira. Freire é um dos educadores mais respeitados em todo o mundo, mas em seu país alguns saudosistas da ditadura querem bani-lo mais uma vez das salas de aula. Aqui vale repetir uma frase do filósofo espanhol Baltazar Gracian: “A insensatez sempre se precipita à ação, pois todos os tolos são audazes”.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A posse de armas vai a votos. Sim ou não?

















POR ET BARTHES
Há no Senado brasileiro um movimento para revogar o Estatuto do Desarmamento, que foi criado em dezembro de 2003. Um relatório a favor da realização de um plebiscito - que deve ser realizado no ano que vem - foi apresentado na Comissão de Constituição e Justiça da Casa e teve o “ok” do relator, o senador Sérgio Petecão (PSD-AC).
Você concorda? Sim ou não. Hoje trazemos alguns filmes do Reino Unido e, claro, dos Estados Unidos (na maioria), onde o tema está sempre na agenda por causa dos sucessivos massacres. Os filmes estão todos língua inglesa, mas é fácil entender.
















terça-feira, 28 de novembro de 2017

Quer viver em Portugal? Então deixe de ser coxinha...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
Viver em Portugal. É um dos temas cada vez mais recorrentes nas redes sociais. Parece que o país está de novo na moda. Todos os dias chegam mais e mais imigrantes brasileiros aterrissam na terra de Camões. A história se repete e faz lembrar os tempos dos governos FHC, quando a crise interminável provocou uma debandada rumo a Portugal. Hoje é praticamente impossível passar um dia sem ouvir um sotaque brasileiro.

É uma espécie de refluxo. Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência, as coisas melhoraram e o Brasil voltou a ser opção para viver. Nessa época, muitos imigrantes brasileiros decidiram voltar para casa. Aliás, a imagem do Brasil era tão boa e as perspectivas tão animadoras que o país tornou-se um destino para os próprios europeus. Então veio o golpe e a coisa parece ter desandado.

Desta vez o fluxo migratório tem diferenças. O padrão sócio-econômico dos brasileiros que desembarcam em Portugal mudou muito. Entre os recém-chegados, há muitos daqueles que a sociedade se habituou a chamar “coxinhas”. Sim, os mesmos que apoiaram o golpe e repetiram o clichê “primeiro a gente tira a Dilma, depois...”. Eis os fatos: “primeiro a gente tira a Dilma, vê a cagada que fez e então emigra para a Europa”.

Seria triste se não fosse a ironia. Os caras procuram em Portugal aquilo que não queriam no Brasil. E isso faz adivinhar que a adaptação ao estilo de vida português pode ter alguns percalços. Mas como acho que todos devem ser bem recebidos, vou dar uma forcinha e fazer 10 recomendações que, entendo, podem ajudar na integração:

1. Os portugueses lutaram pela democracia e gostam muito dela. Não venham estragar. Viver em democracia é uma coisa legal, tenho a certeza de que quando entenderem o conceito certamente vão gostar. Tudo bem, acho que vão achar tudo meio “comunista”, mas acostumam com o tempo. Ah... trocando em miúdos: aqui a gente respeita a regra e ninguém pensa em derrubar um presidente ou um primeiro-ministro apenas “porque sim”.

2. Outra coisa. Se no Brasil o cara se acha o importantão, isso não funciona deste lado do Atlântico. As pessoas “cagam” (expressão popular lusitana) para essa importância. Aliás, quem tenta parecer melhor que os outros é até mal visto.

3. Mais uma chatice. Os seus pimpolhos vão estudar na escola pública, junto do filho da faxineira, e vão aprender que ricos e pobres podem ocupar os mesmos espaços sociais. Em tempo: são raras as famílias que têm empregadas domésticas. E é melhor nem dizer que no Brasil existe o tal elevador de serviço. Nenhum português entenderia.

4. As universidades são quase todas públicas e, por serem financiadas pelo dinheiro público, é natural que o acesso seja mais democratizado. Também há universidades privadas, algumas com elevada qualidade, mas você tem que desembolsar o seu rico dinheirinho. Uau! Escola pública para os pobres? Isso é muito diferente das “federais” no Brasil, que se tornaram verdadeiros feudos dos ricos.

5. Ah... e você pode ter plano de saúde privado. Mas no frigir dos ovos vai perceber que um sistema de saúde público universal, geral e tendencialmente gratuito dá um jeitão. É mais ou menos como aquele SUS que estava a ser implantado no Brasil e que o golpe pôs um fim.

6. Não se preocupe por ter que andar em transportes públicos, porque você consegue viver sem carro. Tem gente que reclama, claro, mas ainda assim está a milhas dos transportes no Brasil (comparar com uma cidade como Joinville, então, beira a anedota). Outro hábito brasileiro que não funciona por estes lados. Você pode até comprar um carrão, mas ninguém vai ligar a mínima. É sério. Mas se tiver um carrão, pode pisar no acelerador que as estradas até que são boas.

7. E a coisa dos poderes. É claro que tudo tem defeitos, mas na Europa os defeitos são a exceção e não a norma. É só olhar para o Judiciário. Os juízes não são justiceiros. Os nossos procuradores não acusam por “convicções”. As pessoas conhecem os seus lugares e você não veria um juiz a ser sempre fotografado ao lado de políticos (sempre do mesmo partido), como acontece lá para as bandas de Curitiba. E acreditem: os nossos partidos de direita seriam acusados de ser “comunistas” no Brasil.

8. E olha só que coisa legal para a formação do inconsciente coletivo. Em Portugal – e acredito no resto da Europa – a sociedade não deixa surgirem excrescências como o MBL. Ninguém dá ouvidos a um energúmeno como Olavo de Carvalho. Ah... e Bolsonaro não se elegia nem síndico.

9. E o fator que muitos consideram o mais importante. Os portugueses prezam muito as suas condições de segurança. O país tem baixos índices de criminalidade. As pessoas vivem seguras. E a polícia (que por vezes comete erros) tende a ser eficiente. Aliás, tem uns caras no Brasil que defendem o uso de armas. Esqueçam isso. Para os portugueses ter armas é uma coisa que não faz sentido.

10. Enfim, Portugal está rotinado para valorizar o bem comum. Ah... e não posso deixar de perguntar: vocês sabem que o governo é formado pelo Partido Socialista, com sustentação parlamentar do Partido Comunista e Bloco de Esquerda? Triste, né? E parece que vai ser assim por mais dois anos. Então, tem uma boa solução para se adaptar: é só deixar de ser coxinha.

É a dança da chuva.