sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Vai terminar a pior campanha eleitoral da democracia brasileira

POR CHARLES HENRIQUE VOOS

Independente da vitória de Dilma ou Aécio, nós, brasileiros, não temos o que comemorar. Convivemos nos últimos três meses com o pior extrato possível de nossa democracia, materializada na corrida presidencial. O que já estava ruim no primeiro turno descambou para o patético e mediocredade no segundo. A sétima eleição para presidente após a redemocratização só evidencia que ainda estamos longe de um debate democrático sensato, inclusivo e igualitário.

Em primeiro lugar, não tivemos uma campanha eleitoral justa. Partidos menores, por mais que alguns destes sejam fruto da incapacidade nacional na questão da reforma política, deveriam participar de forma igual aos demais, sem exclusão ou tratamento diferenciado. Não foi isso que vimos na mídia, a qual se deu ao luxo de criar regras estranhas e nada coerentes com o que se diz democrático, priorizando os três porquinhos que lideravam todas as pesquisas.

Pesquisas estas que, contudo, precisam imediatamente de novos preceitos metodológicos diante dos erros abissais cometidos. A regionalidade é um fator variável na hora de analisarmos o comportamento eleitoral do brasileiro, mas oa levantamentos feitos pareciam se esquecer disto. Não há como fazer pesquisa eleitoral sem essa premissa.

Presenciamos, também, o perigo que é o atual sistema de financiamento de campanhas. Conforme o que já é debatido há muito tempo, a democracia corre perigo pois ela é altamente dependente dos altos investimentos privados para a potencialização do sucesso eleitoral de um candidato. Sendo assim, as empresas que mais necessitam de ações governamentais são as que mais investem na esperança de obter favores políticos em licitações, concorrências públicas e políticas setoriais e de subsídios. Consequentemente, as campanhas mais poderosas são as que mais permeiam os debates e as rodas de conversas dos eleitores comuns.

No primeiro turno, medimos a qualidade da campanha eleitoral pela zoeira virtual. As propostas perderam lugar para as brincadeiras, comparações e o sarro tirado com os candidatos porque, estes, esqueceram dentro dos escritórios dos marqueteiros as propostas de melhoria do Brasil. Temas importantes como mobilidade urbana (estopim das manifestações de 2013), combate à desigualdade, saúde, saneamento e segurança pública quase não foram pautadas. O sistema de debates, engessado, arcaico e repetitivo foi o principal responsável, em conjunto ao horário eleitoral gratuito, o qual serviu mais como palco para piadas do Tiririca do que apresentação de idéias.

Sofremos com o aparelho excretor, com a homofobia, com o preconceito e o ódio. Nadamos contra o respeito pela opinião alheia, por mais que ela fosse contrária a nossa. Partimos para uma agressão social gratuita. Ataques pessoais entre amigos infestaram nossas relações sociais, como se fosse um crime pensar diferente. O conservadorismo da ditadura rondou o imaginário de muitos. O desconhecimento sobre comunismo, socialismo e os programas de transferência de renda também. Nossa capital virou Havana e nosso pior inimigo era o bolivarianismo. Esquecemos do que era melhor para o país em troca de uma cegueira combinada à ilusão. Deixamos Everaldos serem estrelas e Marinas marinarem em um espectro de comoção nacional. A ideologia deu lugar ao individualismo e "liberdade de expressão". Ao invés de debates, tínhamos massacres.

E no meio disso tudo um acidente aéreo que abalou todas as estruturas e fez a "nova política" ruir na incoerência retrógrada de sua nova líder. Eduardo Campos mal morreu e já foi esquecido como se sua trajetória política fosse transferida para um patamar de herói de BBB. O "não vamos desistir do Brasil" foi esquecido no segundo turno.

Tudo aquilo que circulava pela internet foi transferido aos ataques de Dilma e Aécio, que pareciam crianças que se xingam mutuamente só pra ver quem fica sem respostas. A miséria foi tamanha que o tribunal eleitoral foi obrigado a intervir.

Agora estamos perto da decisão. Todos querem ganhar mas nos esquecemos da vergonha alheia que foi todo o processo. Saímos derrotados, sem exceções. Enquanto essa oportunidade de discutirmos o que de fato queremos, maior a chance de não sabermos o que cobrarmos lá na frente e repetirmos o pastoreio de ovelhas de junho do ano passado.

Ainda bem que vai acabar e, no dia sefuinte, poderemos tomar consciência e construir um processo totalmente diferente ao presente, olhando para trás, sem repetir de erros, e um futuro construído organicamente pelas lutas nossas de cada dia.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Da utilidade dos retrovisores

POR CLÓVIS GRUNER

O tcheco Max Brod, biógrafo de Franz Kafka, perguntou um dia ao escritor e amigo se ele acreditava existir alguma esperança “fora desse mundo de aparências que conhecemos?”. A resposta foi kafkiana: “Há esperança suficiente, esperança infinita. Mas não para nós”. Lembro-me do diálogo a propósito do segundo turno das eleições presidenciais, que encerram domingo próximo. Está a se vender demasiada esperança em troca do voto, tanto Aécio como Dilma. Esta mais diretamente, aquele quase sempre por metáforas que acusam a candidata à reeleição e seus eleitores de “olhar sempre pelo retrovisor” quando, diz ele, é hora de olharmos para frente.

Pois diferente do que prega Aécio, decidi meu voto no segundo turno – no primeiro fui eleitor de Luciana Genro, do PSOL – principalmente porque cultivo o saudável hábito de olhar sempre pelos retrovisores. Se em uma eleição toda escolha implica certo grau de incerteza e risco, porque não há garantias sobre como o candidato, se eleito, se comportará ao longo do mandato, o recurso ao passado pode servir para orientar escolhas no presente, além de nos ajudar a compor aquilo que o historiador alemão Reinhart Koselleck denominou “horizonte de expectativas”, o mais próximo que nos é permitido vislumbrar do que chamamos de futuro.

OLHAR PARA TRÁS UMA VEZ – De um de meus retrovisores eu vejo um país que em 2011 atingiu o menor índice de desigualdade social da história, muito disso em função do Bolsa Família: em 10 anos, o programa tirou cerca de 36 milhões de pessoas da extrema pobreza e contribuiu para a redução da mortalidade infantil em 40%. Também na última década, o crescimento real da renda dos 10% mais pobres foi de 91,2%. As políticas sociais implementadas ou ampliadas pelos governos petistas – e que provocam um surto de esquizofrenia em muitos eleitores tucanos – contribuíram para que neste ano o Brasil, pela primeira vez desde que o instrumento foi criado, ficasse fora do Mapa Mundial da Fome, depois de reduzir em 82% a população em situação de subalimentação.

Em outra área que me afeta sensivelmente, a escolaridade média da população de 25 anos ou mais aumentou na década entre 2002 e 2012, passando de 6,1 para 7,6 anos de estudo completos. O incremento foi mais intenso no ensino fundamental e atingiu principalmente os “mais pobres”, graças a programas como o Viver Sem Limite e o Caminho da Escola, destinados respectivamente à crianças portadores de deficiência e moradoras de zonas rurais e ribeirinhas. No ensino superior, entre outras coisas, a política de cotas ajudou a triplicar o número de negros nas universidades; o programa Ciência Sem Fronteiras levou 60 mil universitários para estagiar e estudar em universidades estrangeiras; novas universidades foram construídas, ampliando o número de vagas em instituições públicas federais; e aumentou a oferta de bolsas para estudantes de graduação e pós-graduação.

(Você também pode dar uma olhada no retrovisor do Murilo Cleto, do blog Desafinado, com uma visão bem mais panorâmica que o meu.)

E OLHAR DE NOVO – No segundo retrovisor as imagens são menos agradáveis. Há a corrupção, mas sua presença nos últimos governos não me incomoda mais nem menos que nos anteriores, no que sou diferente de muitos eleitores, inclusive colegas deste blog, cuja indignação é bastante seletiva. Gostaria de ver todos os culpados presos, mas tucanos e aliados estão e provavelmente continuarão todos soltos. O discurso contra a corrupção, aliás, ajudou a alimentar uma indignação dispersa e sem conteúdo e a transformá-la em um ódio quase patológico dirigido principalmente contra o PT mas, não raro, generalizado e direcionado, indiscriminadamente, à esquerda. Na ausência de propostas, a oposição passou os últimos 12 anos batendo na mesma tecla, ciente de que se trata de um discurso de fácil adesão: ao menos em tese, afinal, mesmo o sujeito que estaciona em vaga proibida, pára o carro em cima da faixa de pedestres ou suborna um agente público, é contra a corrupção, não é mesmo?

Dos fragmentos de imagens que chegam do passado, me incomoda muito mais o viés conservador dos últimos governos, notadamente o último; as alianças comprometedoras, que acabaram por tornar figuras como a senadora Kátia Abreu parte da base de apoio de Dilma Rousseff, além de sua aliada nesta eleição; a ausência de uma política efetiva de garantia dos direitos humanos e das minorias, expressa na indiferença ou mesmo na truculência com que foram tratadas as demandas LGBTs e das comunidades indígenas, por exemplo; a subserviência aos grupos de comunicação, que impediu o governo de levar adiante o necessário e urgente marco regulatório, condição fundamental à uma efetiva democratização das mídias; a criminalização dos movimentos sociais e a repressão violenta, junto com os governos estaduais, das manifestações de 2013 e do #NãoVaiTerCopa, nesse ano; e, enfim, uma política de segurança pública equivocada, cujas escolhas nem de longe tocam no que é fundamental: a desmilitarização da polícia e uma nova política penitenciária.

O RISCO DO RETROCESSO – Na hora de decidir meu voto no segundo turno, isso pesou tanto ou mais que o conjunto de realizações sumariamente elencadas acima. Políticas de inclusão social são sempre muitíssimo bem vindas, mas cidadania não se constroi apenas pela inserção de novos consumidores no mercado, e nosso amadurecimento democrático implica, justamente, seguir avançando naqueles pontos onde os governos petistas – os dois de Lula inclusos – avançaram timidamente ou simplesmente não avançaram. A consciência disso ajuda a contabilizar os riscos de minha escolha e a ajustar minhas expectativas a elas: não acredito que iremos avançar muito mais nos próximos anos do que conseguimos nos últimos quatro.

Mas acredito, por outro lado, que as conquistas sociais elencadas acima, entre outras, são importantes demais para as colocarmos em risco com quatro anos de uma aliança historicamente pouco comprometida com elas. E que a candidatura do PT representa, hoje, se não a garantia mas a possibilidade de não retrocedermos ainda mais nas demais pautas, postas sob ameaça maior em um eventual governo tucano. É claro que, não importa quem seja o próximo partido a ocupar o governo, será preciso tensioná-lo para tentar garantir algumas mudanças que, principalmente os grupos e forças conservadores, temem e recusam, o que não será tarefa fácil. Não há certezas em uma eleição, mas olhar atentamente o retrovisor pode ajudar a evitar retrocessos e evita alimentar ilusões. Talvez não haja esperança suficiente para nós. Mas me satisfaz a ideia de que, no domingo, a memória pode vencer o ódio.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Uma visita inesperada bate à porta

POR FELIPE SILVEIRA

Domingo, 20 horas – Chove teses sobre o resultado das eleições no Facebook, no Twitter, nos jornais e em milhares de blogs Brasil (e mundo) afora. Para quem espera o fim da “chatice” nas redes sociais recomenda-se esperar mais um pouquinho. Eu, particularmente, espero que ela dure mais uns bons anos, pois, uma das poucas coisas boas deste processo eleitoral é que ele fez as pessoas tomarem partido.

Acredito que o pleito de 2014 tem sido muito mais claro do que os três recentes (à presidência) em relação a polarização entre dois projetos antagônicos de país, obrigando que os eleitores, de fato, escolham entre um e outro, mesmo que considerem um deles apenas “menos pior” ou que optem por um para “barrar” o outro.

É o meu caso. Militante filiado ao Psol, crítico ao modelo petista de desenvolvimento, opto pelo lado que, no contexto atual, não tem medo de dizer que está ao lado dos trabalhadores, enquanto o outro não se envergonha de ser o candidato dos patrões. Há, sem dúvida, dezenas ou centenas de motivos tanto para criticar quanto para defender a candidatura de Dilma. Mas não há um motivo sequer para defender a candidatura de Aécio Neves. Exceção feita aos especuladores e outros parasitas.

É justamente este acirramento ideológico, desenhado mais fortemente no segundo turno, que me interessa nos debates dos próximos anos. Com toda a direita ao redor de Aécio, coube à Dilma ser a candidata da esquerda, em que pese seus quatro anos de governo. Portanto, eu espero que essa configuração sirva, de fato, para empurrar Dilma e o PT novamente para a esquerda. Vamos ver, e cobrar, e lutar, diariamente. Como sempre repito por aqui, causa é o que não falta.

Se, nos anos 90, tentaram enterrar a História viva, ela tem sacudido a poeira em 2014, após ter levantado da tumba. Agora ela vai na casa de cada um pra dizer: “Chega de mimimi de que não existe direita e esquerda. Pega tuas armas, escolhe teu lado e vá à luta!”

terça-feira, 21 de outubro de 2014

De que lado você samba?

POR CAROLINA PETERS

Em julho do ano passado, um amigo que estava em Londres me envia a imagem ao lado por email. Uma campanha produzida pelo periódico The Economist e veiculada amplamente em espaços como estações de metrô.

Where do you stand? Em bom português: de que lado você samba? Com uma imagem angelical de Angela Merkel, a campanha visava frear o avanço das manifestações que aconteciam na Europa contra a intervenção da União Europeia, protagonizada pela Alemanha, nas economias locais. Vale comentar que, ao mesmo tempo em que essa campanha midiática tomava corpo, as primeiras análises sobre a recessão que rondava a Alemanha já começavam a surgir.

Lembrando disso, não me estranha o apoio do The Economist ao candidato Aécio Neves. Ou antes, a Armínio Fraga e sua trupe.

Me estranha menos ainda, diante da declaração recente do candidato noticiada pelo Valor Econômico: o Mercosul está ultrapassado, "anacrônico", e é necessário repensar em "áreas de livre comércio". Ora, quer coisa mais anacrônica e furada que a Alca?

A América Latina, por outro lado, compra metade de nossos manufaturados. O Mercosul é responsável por 30%. O BNDES financia diversas obras na região e é assim que aumenta seu lucro. O fortalecimento da economia brasileira, da nossa credibilidade (pra não falar do nosso peso político lá fora), têm muito a ver com o fortalecimento da integração regional. 
Vamos falar de economia?

Criou-se há tempos um mito em torno da política econômica -- e da política, de forma geral -- que afirma que tudo se resolve com gestão, impessoal e mecânica. Economia depende de escolhas, e quem entende e influencia nos rumos da economia mundia sabe bem: de que lado? Há possibilidades diversas de estabilizá-la e fazer crescer. Pode-se investir em produção ou especulação, criar empregos e fortalecer o mercado interno, ou adotar uma política cambial mais maleável. Concentrar os lucros ou distribuir renda. 

Em terra (ou tela?) de comentários truculentos, e acusações de desinformação, é pedir demais que aqueles que pagam de intelectuais repetindo comentários aleatórios sobre o PIB e a inflação alta (alta mesmo?) saibam do que estão falando? 

A economista Leda Paulani, professora da USP e uma intelectual que respeito muito, escreveu essa semana no blog da Boitempo Editorial sobre o Terrorismo Econômico, narrativa que mais uma vez ronda as presidenciais brasileiras. Recomendo profundamente a leitura, junto com o melhor debate deste segundo turno: Guido Mantega e Armínio Fraga no ringue de Mirian Leitão. O link na íntegra está aqui. Aliás, alguém concorda com Fraga que o dinheiro emprestado do FMI foi "barato"? (palavras dele).

A política econômica do governo Dilma está longe dos meus sonhos, mas Armínio Fraga é o bicho papão da minha infância. Eu voto pelo Mercosul.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A Arte da Mentira Política

POR JORDI CASTAN

Na reta final da campanha eleitoral, quando os ânimos estão exacerbados ao extremo e quando a eleição está polarizada entre dois candidatos que tem visões de país e valores diferentes, achei oportuno resgatar um texto publicado em julho de 2010 no jornal A Notícia.

Não lembro de uma campanha de mais baixo nível que a atual. É verdade que a candidata a reeleição ou o ventríloquo que a controla já avisaram que "fariam o diabo" confesso que não esperava tanto. E esse é um erro de avaliação grave, da minha parte, deveria ter imaginado, mas teria ficado curto.

O desespero dos que correm o risco de ser apeados do poder é evidente e os leva a radicalizar isso nunca é bom. Perder o poder é um castigo muito forte para quem durante 12 anos tem tido dificuldade em separar o público do privado. Voltar a ser cidadãos normais pode representar um duro golpe para algumas figuras que sempre têm vivido pendurados nas tetas do dinheiro público.

Igualmente é dura a situação dos que, faz já doze anos, não têm acesso ao Governo Federal. Os ânimos estão acirrados demais, ambos lados radicalizam e na reta final da campanha lembro da cena de um filme de Marx, os irmãos Marx, não o Karl que tantos admiradores tem neste blog. "Mais madeira que é a guerra" é o grito de ordem. Hora de colocar toda a lenha no fogo e de seguir fazendo o diabo.

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O Brasil já perdeu o resultado será um país rachado ao meio, entre nós e eles, entre norte e sul, entre ricos e pobres, entre vermelho e azul.

'As pessoas nunca mentem tanto quanto depois de uma caçada, durante uma guerra ou antes de uma eleição.' (Otto Von Bismarck)

A arte da Mentira Política


Recentes estudos comprovam o que todos já estamos carecas de saber. Todos mentimos, a diferencia reside na quantidade de vezes e no tamanho das mentiras. Mark Twain escreveu que “ Ninguém poderia viver com alguém que falasse sempre a verdade.” E é hoje que a sua afirmação se mostra profética.

Especialistas fazem questão de diferenciar as pequenas mentiras, aquelas chamadas caridosas, como por exemplo quando alguém próximo nos pergunta: você acha que engordei? Ou os contadores de historias, Quando todos sabemos que tudo não passa de um exagero ou de uma fabulação, neste grupo é fácil encontrar pescadores e namoradores. Que não podem ser colocadas no mesmo nível que aquelas proferidas pelos mitômanos profissionais, aqueles que tem como objetivo enganar, burlar e se aproveitar da boa fé dos outros.

Neste quesito ninguém consegue um refinamento maior que os nossos políticos. Inclusive já em 1600 o escritor britânico Jonathan Swift escreveu o seu tratado da Arte da Mentira Política, livro de leitura obrigatória em curso de graduação e doutorado, que mostra com todo luxo de detalhes a refinada técnica que deve ser desenvolvida para poder mentir com profissionalismo.

A arte da mentira, requer alem da teoria, a pratica. Só a pratica diária leva a perfeição. Entre as dicas que devem ser seguidas a risca pelos mitômanos profissionais, destacam a de não estabelecer prazos curtos para as promessas que façam, porque podem ser verificados pelos eleitores. Por isto não é recomendável dar datas exatas para inauguração de Parques, praças, PAs (Pronto Atendimentos), ou para asfaltamento de ruas e construção de binários. Sempre é necessário deixar a porta aberta para o imponderável, como desapropriações ou chuvas.

Outro tema que merece ampla discussão é se o povo, tem ou não direito a saber a verdade, a opinião geral é que o povo formado por gente ignara e pouco preparada, deve ser enganado sistematicamente, que não pode e não deve, pelo seu próprio bem, ser confrontado com a verdade.

É verdade, contudo, que frente as mentiras contumazes dos políticos profissionais, o povo responde com as suas. Numa ingênua forma de resposta e equiparação, comentando e fofocando, que fulano engordou no governo, que comprou casa na praia, ou que uma vizinha assegura que a mulher fez uma plástica, paga por um empreiteiro. Tem quem assegura que aquela ex-miss, teria sido a sua amante. Mentiras tolas, que o povo usa para, tentar se equiparar aos verdadeiros gênios do dissimulo e da truanice.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

16 de outubro: comemorar o fim da fome

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
16 de outubro de 2014. Antes de falar neste dia histórico, faço uma recomendação para você que está se lixando para temas como a pobreza, a fome e acha que no tempo dos outros senhores era bom: não leia este texto. Porque ele é escrito apenas para pessoas que se importam com essas questões. Quero dizer, pessoas solidárias que hoje, pela primeira vez na vida, vão poder comemorar o Dia Mundial da Alimentação com a fome estrutural tendo sido erradicada do Brasil.
A revolução é um tema complexo. Há conceitos realizáveis, outros utópicos. Mas no Brasil de décadas atrás havia uma revolução simples de realizar: fazer com que todos os brasileiros tivessem refeições à mesa diariamente. Muitos não lembram – ou sequer sabem – mas houve um tempo em que ler “Geografia de Fome”, de Josué de Castro, era uma obrigação acadêmica. A fome era uma vergonha nacional. De décadas.
Mas a revolução aconteceu. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apresentou, há algumas semanas, o seu mapa da fome. E o Brasil não está lá. Ou seja, está a vencer a guerra contra o anacronismo da fome estrutural. É um momento histórico. Mas por que não há grandes reportagens na imprensa? Por que os brasileiros não estão a celebrar? O silêncio é gritante (perdoem o trocadilho).
A notícia foi recebida com indiferença e quase não repercutiu. Talvez por causa da proximidade das eleições e dos interesses específicos. Uns consideram conveniente olhar para o lado e fingir que nada houve. Outros talvez não tenham sabido capitalizar uma notícia tão positiva. Aliás, vi o extremo ridículo: um “jornalista” a culpar o governo por, nos últimos 12 anos, ir “da erradicação da fome à epidemia de obesidade”. Hã!?!?
A notícia é boa, mas o combate à fome não deixa de ser uma prioridade. De acordo com o relatório da FAO, há 3,4 milhões de pessoas (1,7% da população) que ainda não se alimentam de maneira suficiente todos os dias. E saco vazio não para em pé. Mas a saída do Brasil da lista dos países incapazes de prover a segurança alimentar dos seus cidadãos é motivo de otimismo. Até porque permite projetar novas “revoluções”.

O Brasil vive um momento de transição. Vamos esperar pelo veredito das urnas e ver o rumo que o País vai tomar. Se vai investir nas políticas sociais ou se vai trilhar os caminhos neoliberais. De qualquer forma, a revolução do arroz e feijão já aconteceu e agora podemos avançar em direção ao vaticínio daqueles músicos titânicos: “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

É como diz o velho deitado: "A fome é má conselheira".

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Empresário vota no PT?

POR GUSTAVO ANDRÉ GUTZ


Recebi alguns questionamentos nos últimos dias. Um deles foi que era uma incongruência eu ser empresário e nessas eleições estar apoiando o PT. Resolvi elencar alguns dos motivos, sendo alguns ligados à área de Tecnologias da Informação.

1) Pequenas e médias empresas renovaram seu parque de informática utilizando-se da MP do Bem para Equipamentos de Informática (desoneração de impostos) e financiaram via Cartão BNDES em 24 vezes. Hoje tablets, computadores e smartphones são vendidos com isenção de PIS e COFINS.

2) Bancos públicos (Caixa e Banco do Brasil) emprestam dinheiro para compra de veículos e equipamentos, e trocam recebíveis (boletos e compras no cartão) com juros abaixo do mercado. Isso não significa que operam com prejuízo, mas sim que emprestam com juros menos escorchantes que os bancos privados.

3) A fábrica da BMW em Araquari só foi transformada numa realidade porque o Governo Federal editou o pacote INOVAR-AUTO, possibilitando a empresa também se beneficiar da redução de impostos na venda de seus carros.

4) Várias empresas da área de TI receberam aportes do BNDESPAR e puderam aumentar seu corpo local e ainda poder atuar no exterior.

Devido a essas políticas destinadas ao crescimento das micros, pequenas e médias empresas, vejo um futuro ainda melhor com a continuação do governo atual. No debate entre o atual ministro da Fazenda e o indicado por Aécio não vislumbrei nas palavras de Armínio Fraga que essas políticas serão continuadas caso o PSDB vença. Pelo contrário, ele sinalizou a redução da participação dos bancos públicos nos investimentos.

Fontes:
MP DO BEM: http://info.abril.com.br/noticias/mercado/governo-prorroga-mp-do-bem-ate-2014-16122009-42.shl
Cartão BNDES: http://conhecer.cartaobndes.gov.br/
Bancos Públicos: http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2012/07/selic-cai-para-8-ao-ano-e-bancos-publicos-reduzem-taxas-de-linha-de-credito
INOVAR AUTO: http://www.novidadesautomotivas.blog.br/2013/02/bmw-e-habilitada-no-inovar-auto-e.html
BNDESPAR: http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Sala_de_Imprensa/Noticias/2013/mercado_de_capitais/20130208_linx.html

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

As pirações políticas.


Violência, postes e cachorros

POR JORDI CASTAN

O Brasil é hoje um dos países mais violentos do mundo. Entre as 50 cidades mais violentas do mundo, quase duas dezenas são brasileiras. Aliás, praticamente todas se encontram no hemisfério sul e em países em desenvolvimento. Assusta o nível de violência a que a sociedade brasileira tem se habituado.

É difícil acreditar que este aumento da violência não tenha uma resposta firme da sociedade. Há uma insensibilidade e uma aceitação desta situação, que ganha corpo a ideia que a violência é irreversível e está fora de controle e por isso o Estado não tem condições ou meios de enfrentá-la.

Não há dia em que a imprensa não noticie algum homicídio, assalto, roubo ou a destruição de patrimônio público. Há uma banalização da violência e isso faz com que a sociedade deixe de reagir e acabe anestesiada frente à brutalidade quotidiana. Como resultado, deixamos de acreditar nas polícias e na Justiça e já nem denunciamos crimes menores Um fato que, entre outras coisas, distorce as estatísticas e falseia dados e indicadores, criando a ilusão de normalidade... até que alguém conhecido seja a próxima vítima.

O Brasil tem mais homicídios por arma de fogo que países como os Estados Unidos, aonde a venda e possessão de armas de fogo é livre. O Brasil tem mais mortos por violência que a maioria de países com conflitos armados declarados, incluindo estados em guerra aberta e isso em quanto o país enfrenta uma situação de declarada "normalidade". 

Saúde, educação e segurança deveriam ser pauta obrigatória em qualquer processo eleitoral. Mas no Brasil estes temas ficam fora de um debate sério. A corrupção, o mau uso do dinheiro público e os escândalos que envolvem figuras públicas, em todos os níveis da administração, fazem que o combate a insegurança e à violência deixem de ser prioridade. Pior ainda. Recentemente foi noticia o caso um aposentado preso por disparar para se proteger, dentro da sua residencia, da ação de um criminoso. Essa história é tão comum no Brasil quanto poste mijando no cachorro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

BRANCO

POR CHARLES HENRIQUE VOOS


No primeiro turno destas eleições, conforme manifesto feito aqui no Chuva Ácida, votei na candidata do PSOL. Os motivos estão todos expostos naquele texto e pretendo segui-los. Sendo assim, creio que seja o momento de dizer o porquê do meu voto em branco no próximo dia 26.

O voto em Luciana no primeiro turno foi também um voto de protesto contra os três grandes da eleição - Dilma, Marina e Aécio, os quais monopolizaram a maioria dos debates nos últimos meses. São, também, candidatos que não representam uma "nova política". Independente de quem chegasse ao segundo turno, daria no mesmo.

Com a ida de Dilma e Aécio para o segundo turno, chegou a hora de tomar uma posição coerente com tudo aquilo que defendo. É evidente que o voto no PSDB de Aécio representa um retrocesso, não somente pelas lembranças de Fernando Henrique Cardoso, mas também por tudo o que este partido vem fazendo na história recente do Brasil em São Paulo, Minas Gerais, no Congresso Nacional e em Joinville, principalmente. 

Votar no PSDB de Aécio é concordar com o mensalão mineiro, com a falta de água em SP, com o cartel do metrô, com a intransigência da polícia nas áreas de ocupações irregulares, e todo o conservadorismo que marca os parlamentares tucanos em Brasília. Não consigo concordar com isto e nem com a filosofia dos seus aliados: Bolsonaro, Malafaia, Marina, e tantos outros. Puxando para a questão urbana, tema no qual me dedico a anos, votar em Aécio representa aceitar todo o esquema montado pelas grandes empreiteiras em prol dos tucanos nos últimos anos. É sabido sim que, quanto mais uma empreiteira injeta dinheiro em campanhas e em diretórios partidários, mais as cidades são formatadas em prol de interesses empresariais. 

E em Joinville tivemos secretário da saúde do PSDB preso por corrupção.

Somado a tudo isto, não podemos esquecer os 27 motivos para não votar em Aécio, link que faz sucesso na internet. 

Sobre a Dilma, preciso reconhecer todos os seus avanços no combate à desigualdade, combate à fome e à miséria. O Brasil tem políticas públicas reconhecidas mundialmente pela ONU e por entidades reconhecidas no estudo da desigualdade, como a Oxfam. Seria burrice de qualquer cidadão brasileiro não reconhecer este avanço. Por outro lado, e voltando à questão urbana brasileira, o governo Dilma representa o mesmo retrocesso que o seu oponente tucano. 

Os recentes incentivos às indústrias automobilísticas rasgam todos os preceitos estabelecidos no Estatuto das Cidades, juntamente com o que mais moderno vem se fazendo nos países desenvolvidos: a abolição do automóvel e o incentivo aos modos coletivos e/ou aos modos não-motorizados. Para dar suporte ao projeto da Copa do Mundo, o governo petista se aliou às grandes empreiteiras, diretamente interessadas na construção de novos estádios e suas respectivas obras de apoio (avenidas, pontes, infraestrutura para o transporte coletivo, etc). Ao mesmo passo que isso acontecia, milhares de famílias foram despejadas de suas casas sem o devido tratamento (segundo a BBC Brasil, mais de 250 mil pessoas foram afetadas). 

Por manter uma linha de coerência, creio que o ideal para quem defende a questão urbana brasileira seja, sim, o voto em branco. Antes que o leitor mais desavisado possa pensar que esta posição caminha rumo a uma neutralidade, antecipo o engano: é um posicionamento claro de que nem Dilma e nem Aécio me representam. Creio, por fim, que os dois também não representem as verdadeiras necessidades da política urbana brasileira. Independente de quem ganhar, as cidades serão as principais prejudicadas e, em consequência, os seus moradores.