sexta-feira, 20 de abril de 2018

As Humanidades em disputa


POR CLÓVIS GRUNER
A manchete de segunda-feira (16), do caderno “Educação” da Folha de São Paulo, não deixa muita margem para dúvidas: “Filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática” soa como uma sentença, tamanha a certeza contida em uma única frase. O que vem depois tampouco ajuda. Trata-se de resultados parciais de uma investigação conduzida por dois pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Thais Waideman e Adolfo Sachsida, cujas conclusões finais ainda serão publicadas.

De acordo com o trabalho, a inclusão obrigatória das duas disciplinas no ensino médio, em 2009, prejudicou o desempenho dos estudantes em três outras – além de matemática, são citadas redação e linguagens, mas não se explica porque apenas a primeira virou manchete. Não é o único nem o maior problema da matéria. Ela omite, por exemplo, que um dos responsáveis pelo levantamento, Adolfo Sachsida, é conselheiro econômico de Jair Bolsonaro, o presidenciável que despreza não apenas as Humanidades, mas uma parcela da humanidade.

Os dados foram extraídos das notas do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio, mas o texto não diz, entre outras coisas, se a pesquisa levou em conta as mudanças implementadas no exame – a estrutura das provas foram modificadas e o uso do ENEM como critério de acesso à universidade foi gradativamente expandido desde sua criação, gerando entre outras coisas uma enorme ampliação no número de inscritos – foram cerca de 6,7 milhões no ano passado. Outras variáveis ficaram de fora, ao menos da reportagem, e elas são importantes em pesquisas dessa natureza.

Exemplos: as condições de ensino e das escolas eram adequadas? O número de professoras e professores suficiente e elas/es suficientemente preparadas/os? Quais métodos de ensino foram empregados? Havia a preocupação em integrar o ensino de matemática a outras disciplinas do currículo escolar? Fica a impressão de que os autores chegaram a conclusões que, se servem de argumento à guerra cultural, carecem de rigor analítico. Afinal – e isso se aprende em aulas de Sociologia –, correlações não implicam necessariamente em causalidade.

A ideologia como método – A pesquisa tem um viés clara e abertamente ideológico, e não me parece despropositado vê-la como mais uma peça arremetida contra o nosso campo. A ofensiva contra as Humanidades não é exatamente nova, mas recrudesceu nos últimos anos e escapou ao ambiente virtual, orientando e dando forma à políticas públicas na Educação, tais como a nova Base Nacional Curricular Comum e a Reforma do Ensino Médio. Ela se sustenta em basicamente duas premissas.

A primeira, a de que elas são um antro de “esquerdopatas”, doutrinadores que usam as salas de aula para macular ideologicamente jovens inocentes, sua “audiência cativa”. Brandido particularmente por trogloditas mentais para quem qualquer defesa dos Direitos Humanos ou das chamadas minorias é sintoma de “esquerdopatia” – como os anônimos comentaristas desse blog –, é o tipo de argumento que, de tão espúrio, não merece crédito, nem paciência. Mas há um segundo, ao menos aparentemente mais sofisticado, e que demanda alguma atenção: o de que não produzimos um “conhecimento prático”, e estamos em descompasso com as exigências do “mundo contemporâneo”.

A expressão, não raro, é empregada como eufemismo para “mercado”. Sob essa ótica, a produção e transmissão do conhecimento devem adequar-se, necessariamente, às exigências do “mundo prático” e estarem conectados ao “real”. Logo, disciplinas como Filosofia, Sociologia, História ou Geografia, além de consumirem, no ensino superior, recursos valiosos que poderiam ser investidos, por exemplo, em áreas como as engenharias, obrigam estudantes do ensino básico a aprenderem inutilidades ao invés de coisas realmente úteis, como matemática.

A tendência é objetar essa crítica argumentando que as matérias de Humanas produzem um “pensamento crítico”, objeção legítima, mas insuficiente. Primeiro, porque nem sempre fica claro o que se entende por “pensamento crítico”. Além disso, a existência por si só das disciplinas humanísticas não garante nada, porque é preciso levar em conta – assim como no caso da matemática – as condições de seu ensino. E nunca é demais lembrar, afinal, que Marco Antonio Villa é historiador.

Em defesa das Humanidades – Se estamos a dialogar com quem pensa em termos práticos e objetivos, é preciso tentar responder igualmente. Não se sustenta o argumento de que nós, das Humanas, impedimos o avanço da ciência no Brasil. Dados de 2016 indicam que apenas algo em torno de 10% das verbas de pesquisa foi investido, pelos órgãos de fomento como Capes e CNPq, na área, e é provável que, com os cortes do atual governo, esse número tenha sido ainda menor no ano passado.

Custamos muito pouco aos cofres públicos, afinal. E tampouco somos inúteis. Nas universidades são, principalmente, os cursos de Humanas os responsáveis pela formação de novos docentes e por atividades de extensão, considerada a “prima pobre” da pesquisa, mas a principal responsável pela inserção da academia nas comunidades externas a ela. O conhecimento produzido também está disponível aos poderes públicos e ao mercado, que nem sempre sabem, ou querem, fazer dele um bom uso.

Disciplinas como a sociologia, a antropologia e a história são fundamentais para o desenvolvimento e implantação de políticas públicas de saúde, segurança, cultura e, óbvio, educação, entre outras. A agricultura e o desenvolvimento urbano precisam da geografia. A implantação e multiplicação de círculos de leitura, bibliotecas e outros espaços e aparelhos culturais serão precárias sem os profissionais de letras e filosofia. A preservação da memória e do patrimônio histórico e cultural não depende apenas de arquitetos, mas igualmente de historiadores. E o mercado, perguntarão alguns?

Há quem diga que fazemos e vendemos miçanga como ninguém. Mas nosso âmbito de atuação é maior. Lemos pouco no Brasil, mas parte significativa do pouco que se lê é fruto da comunidade de leitores formada pelo trabalho de estudantes e profissionais de Humanas. Além disso, não é nada negligenciável nossa contribuição em áreas tão distintas como a organização de arquivos, públicos e privados; a produção e consultoria cultural e museológica; o mercado editorial; a comunicação (tanto o jornalismo como a publicidade); o turismo; o design; a moda; a produção audiovisual e o desenvolvimento de games, entre outros.

Sim, há equívocos e distorções a serem corrigidos nas Universidades, no ensino e na pesquisa, mas isso não é exclusivo às Humanas. Também é preciso repensar os meios pelos quais as disciplinas são ministradas no ciclo básico, e embora já exista muita gente se dedicando a isso, é possível fazer mais. Mas os problemas não se resolvem retrocedendo. Nem, tampouco, com pesquisas que mal disfarçam sua orientação ideológica.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Almoço


O joinvilense


POR FAHYA KURY CASSINS
O joinvilense é um tipo que habita os manguezais do entorno do rio Cachoeira. Ser característico da região, dubiamente faz loas ao germanismo numa cidade colonizada. Você pode facilmente encontrar o joinvilense, nos horários mais movimentados do trânsito, parado calmamente num cruzamento, trancando-o, e se você reclamar ouvirá “quando eu passei o sinaleiro estava aberto”. E ali ele permanecerá, mais adiante reclamando do engarrafamento. Não pergunte ao joinvilense o que são aquelas faixas amarelas pintadas entre ruas movimentadas, ele não saberá responder. Aliás, o joinvilense é este ser incrível que sabe intuitivamente onde e quais faixas e sinalizações existem nas ruas da cidade, porque elas deixam de existir em pouco tempo depois de pintadas, mas ele memorizou-as, portanto elas não fazem falta.

O joinvilense é dos seres mais acostumados com as enchentes. Desde pequenos aprendem a meter o pé na água da chuva. A chuva, inclusive, é parte inerente do joinvilense. Ele nem sabe se a ama ou odeia. O terminal alaga, o centro alaga, a rua de casa alaga, o bairrão alaga, tudo alaga. É esperado. Mas aí ele vê os estragos e no dia seguinte reclama. “Porque essa cidade sempre alaga, como é que pode isso” e tals. Olhe bem, repare mesmo, nos jardins desses reclamões. Repare no piso pelo quintal todo, repare na lona de plástico (esta é infalível!) debaixo da brita no jardim. É cimento e mais cimento, muita brita, tudo para evitar o mato, é claro. E o reclamão que chegou de madrugada em casa porque, “que merda essa prefeitura que não faz nada, o terminal do centro estava cheio d’água, atrasou tudo”, contempla feliz seu mísero canteiro de meio metro quadrado – o resto devidamente livre do mato.

Este ser que é tão inteligente e impermeabiliza o solo feito doido reclama, também, da falta de atrações da cidade. Não há lazer. E ainda quando inventaram de fazer falaram em “parque” e uma enorme praça cimentada (é claro) surgiu. E as praças arborizadas da cidade foram “revitalizadas” e muita árvore velha (é claro) foi cortada e hoje minguam arbustos. Além, é claro das praças abandonadas. O joinvilense é uma imitação daquela gente de cidade grande que vive nos shoppings – só que na cidade não há shoppings de verdade. O joinvilense não planta uma arvorezinha no seu terreno, mas se tivesse um parque (sem aspas) na cidade, certeza que iria até lá (de carro, é claro) toda semana aproveitar o ar puro.

O joinvilense também reclama que estão acabando com o que havia de belo na cidade, que destroem a sua história, sua memória. Mas o sonho do joinvilense médio é comprar um baita apartamento na região central da cidade, aqueles ali supervalorizados e construídos onde poderíamos ter a nossa “cidade histórica” com belas construções e museus e tals. É ele que visita Londres e Nova York e acha lindo os bairros artísticos que transformaram suas fábricas em galerias de arte e escritórios, mas quer sua salinha no edifício mais famosinho da cidade, com vista para a Serra do Mar, de preferência.
 
Como nem todos podem realizar seus sonhos, o que resta para o joinvilense comum é comprar um geminado (que fizeram sucesso no século passado em tantas cidades grandes, do país e mundo afora). E ele vive naquele sufoco de acordar com a cara na parede, a assistir ao jogo com o nariz na tela da TV. Desse sufoco ele escapa encontrando o pessoal da firma nas recreativas aos finais de semana, ou naquela rua que chamam de via gastronômica porque tem uma dúzia de restaurante. Ou, ainda, é claro, vai comer um pastel no pé da serra. Aliás, você comprovadamente é joinvilense se tem no seu círculo limitado de relacionamento alguém que já trabalhou, que trabalha ou trabalhará na Whirpool. Esta é infalível.

O joinvilense é de dar pena. São sonhos e mais sonhos afogados à beira do Cachoeira. É a jovem que veio de uma cidadezinha pra fazer faculdade, mas não conseguiu mais pagar o curso e vai trabalhar numa empresa qualquer. É o empresário que tenta inovar e seu negócio morre às moscas porque o joinvilense, vocês sabem, torce o nariz pro diferente. É o cara que tem qualificações, mas perde vagas porque não tem os contatos certos nas instituições mais conhecidas da cidade.
Dá muita pena mesmo. Porque para muito joinvilense talvez só lhe falte um espelho onde ele pudesse ver as próprias ações e a sua cidade como ela é, de verdade. Enquanto isso, ele ficará parado no cruzamento, com cara de bunda, porque, afinal, era seu direito passar no sinal verde.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Prisão de Lula é notícia em todo o mundo

POR ET BARTHES
A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido notícia constante na imprensa internacional. A maioria dos meios de comunicação, em especial nos países desenvolvidos, tem criticado a atuação da Justiça brasileira. Em pauta estão ações consideradas arbitrárias e desconectadas do estado de direito.




A força que o Brasil precisa...

POR ET BARTHES
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Agora é Aécio

POR ET BARTHES
No comments.


terça-feira, 17 de abril de 2018

Triplex



POR SANDRO SCHMIDT

MTST ocupa triplex. E o triplex não é nada disso...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
O marketing de guerrilha é uma eficiente arma de comunicação. Quando não há dinheiro para “comprar” espaços na mídia, a solução é produzir ações que, com baixo ou nenhum custo, consigam passar a mensagem que se pretende. Um exemplo de marketing de guerrilha muito oportuno aconteceu nesta segunda-feira, quando integrantes do MTST e a Frente Povo Sem Medo ocuparam o triplex “atribuído” ao ex-presidente Lula (“atribuído” agora é o jargão usado pela imprensa brasileira).

O lugar é simbólico. Foi por causa do apartamento no Guarujá que o ex-presidente acabou condenado a uma pena de prisão. A invasão de ontem durou apenas três horas, um tempo mais que suficiente para produzir efeitos midiáticos pretendidos, no Brasil mas especialmente no mundo. Pela relevância jornalística, a imprensa brasileira não tinha como fazer vistas grossas. E como a velha mídia tupiniquim já demonstrou ter lado, tem sido muito importante para os apoiadores de Lula conquistar a atenção do exterior.

E funcionou. Não é preciso fazer uma pesquisa extensiva para encontrar a notícia na imprensa europeia e norte-americana, por exemplo. The Guardian, NY Times, Jornal de Notícias, RFI e mesmo algumas agências internacionais, a garantia de que a notícia chega a todo o mundo. Na semana passada, escrevi aqui que a prisão de Lula abriria uma nova etapa no processo: a guerra simbólica. Ou seja, a estratégia de construir uma narrativa. É preciso conquistar a opinião pública, não apenas nacional mas também no exterior.

A estratégia do PT passa por focar a imprensa internacional. E os resultados têm sido favoráveis em termos de imposição da narrativa. O mundo sabe o que se passa no Brasil. Ou seja, sabe do golpe. Mas depois do “com o supremo com tudo” a justiça brasileira perdeu credibilidade. Nas democracias, é natural haver um respeito pelos sistemas judiciais e isso aconteceu em relação ao Brasil até bem pouco tempo. Mas hoje, depois de todas as evidências do julgamento político de Lula, não há defesa possível.

A CEREJA NO TOPO DO BOLO -  Mas a revelação mais irônica do episódio foi o filme feito pelo pessoal do MTST para mostrar o apartamento. E as imagens vieram abalizar as explicações do ex-presidente, quando revelou os motivos para não efetivar o negócio. O apartamento nada tem de luxuoso, ideia que a velha imprensa se esforçou por divulgar. E só os muito ingênuos (para não usar termos mais duros) podem acreditar que a OAS gastou U$ 1,2 milhão na reforma do lugar, como afirma a acusação de Sérgio Moro.

Enfim, só alguém com a visão toldada pelo ódio de classe pode achar que Lula iria trocar a sua história política por isso...

É a dança da chuva.




segunda-feira, 16 de abril de 2018

A Joinville de gente que não reclama, só resmunga

POR JORDI CASTAN
Joinville é uma cidade singular. Poucos lugares conseguiriam sobreviver a décadas de maus governos, sem planejamento e dirigidas por legiões de ineptos. Qualquer cidade que não fosse Joinville já teria sucumbido faz tempo. Mas Joinville não. Joinville insiste teimosamente em sobreviver, em crescer e em prosperar, mesmo neste ambiente hostil em que a mediocridade viceja. Aqui o compadrio toma conta de tudo e o poder público está contaminado pela inoperância, a preguiça e ausência de uma visão estratégica para a cidade.

É importante estabelecer uma linha clara entre a cidade e seus habitantes, que são as pessoas, empresas e organizações que aqui lutam para prosperar e fazer prosperar, e a cidade e sua administração, os seus administradores e toda esta corja de gente e organizações penduradas nos seus úberes, outrora fartos e inesgotáveis. São os mesmos que veem e tratam Joinville como sua propriedade privada e a utilizam exclusivamente para seu beneficio próprio e o dos seus apaniguados.

Só uma cidade como Joinville para sobreviver. É a resiliência o que faz desta cidade um modelo a ser estudado, vivissecado e analisado. Esta capacidade de, por um lado, aceitar a inépcia e, pelo outro, superá-la. Este jeito tão joinvilense de calar e acatar. Este povo ordeiro trabalhador que suporta por anos a fio gestões incompetentes. Obras que nunca terminam. Obras que nunca começam. Obras que custam muito mais que o orçado e seguem com péssima qualidade. Prédios públicos abandonados durante lustros e décadas no mesmo centro da cidade. Avanços sobre a Cota 40. Redução das áreas verdes. Instalação de estações elevatórias de esgoto em praças públicas sem que ninguém se manifeste.

É ainda mais interessante ver como o joinvilense não gosta e até resmunga quando alguém se atreve a pôr em duvida a capacidade do gestor de plantão ou a acuidade mental de quem planeja e executa as obras públicas. Esse resmungar, tão característico dos sambaquianos, não conhece paralelo em outras sociedades que optam por se manifestar abertamente e publicamente. Aqui, desde a época da colônia, assumo que essa época colonial pertence a um passado distante e não segue sendo atual, criticar é muito mal visto. A ordem é baixar a cabeça e trabalhar, não questionar, não pensar diferente do pensamento oficial. Se não estivéssemos no século XXI, poderíamos imaginar que estamos vivendo na Alemanha nazi da década de trinta, em que qualquer um que dissentisse do fuhrer corria o risco de ser apaleado.

Vamos a seguir baixando a cabeça e trabalhar duro, porque temos que pagar os impostos, taxas e contribuições para manter azeitada essa máquina pública que nos explora e nos oprime. Viva essa resiliência que nos permite ser fortes e resistir a esta pressão infernal e superá-la. Viva Joinville, viva seu povo ordeiro e sofredor que aguenta tudo em silêncio ou, no máximo, emitindo pequenos resmungos baixinhos para não correr o risco de interromper o plácido sono do gestor. Vai que ele acorda e fica brabo.