segunda-feira, 30 de abril de 2018

Os honestões e o segredo de construir uma imagem na TV

POR JORDI CASTAN
Eles apareceram. Chegou o tempo dos honestões. Não confundir com os honestos, porque esses deveriam se fazer presentes o ano todo, a cada minuto. Mas são tão escassos que há quem ache que foram extintos pela cobiça, a corrupção e o próprio sistema, que não tolera que convivam, no mesmo espaço e tempo, duas espécies tão opostas.

Os honestões são esses animais políticos que pipocam a cada dois anos em eventos, festas, encontros e principalmente nas televisões dos eleitores, amparados pelo modelo eleitoral que estabelece o horário eleitoral gratuito. Ainda que poucos saibam nada ter de gratuito.

Do dia para a noite. aparecem com soluções miraculosas para todos os problemas da sociedade. Se transformam em experts em saúde, segurança ou mobilidade. Dão aula de educação, de planejamento e, por aqui, até temos os que se apresentam como gestores de sucesso.

Na realidade, são encantadores de burros, vendedores de ar quente, promotores do engano e da trapaça. Têm nos iludidos seu público cativo, no eleitor desinformado e facilmente manipulável seus mais ferventes seguidores. Para facilitar sua identificação o blog coloca à disposição dos seus leitores este vídeo que mostra como identificar a alguns destes honestões.



sexta-feira, 27 de abril de 2018

Para que servem as redes sociais? Para xingar, mentir, ofender...

POR LEO VORTIS
A internet revolucionou a esfera pública. Pessoas que antes não tinham um meio de expressão, hoje podem ir para as redes sociais ofender, caluniar, xingar, difamar, odiar. Ok... não era essa a ideia original, mas é o que temos. Aliás, as redes sociais também servem para inventar ou reproduzir notícias falsas. É uma casa de loucos, um autêntico vale-tudo.

“Eu estou certo”...
Nas redes sociais, todos acreditam estar certos e ser portadores da verdade derradeira. Autênticos gênios. Até mesmo aqueles que se “informam” de forma preguiçosa e sem critério. Pergunto: você consegue passar um único dia nas redes sociais sem experimentar algum sentimento de vergonha alheia? Não, certo?

“Não tenho dúvida”.
As redes sociais são um lugar onde a dúvida não existe. As pessoas vivem com inabaláveis certezas, mesmo que sejam as coisas mais estapafúrdias. E ai de quem tentar questionar. Enfim, como anunciava Bertrand Russel, “aquilo que as pessoas de fato querem não é o conhecimento, mas a certeza”. Exato, sir.

“Você é burro”.
Já notaram como as pessoas mais tapadas são as primeiras a chamar as outras de “burros” ou ignorantes”. É só dar uma olhada nas caixas de comentários da imprensa ou blogs. O “argumentum ad hominem” (atacar a pessoa e não as ideias) é a lógica mais comum. Discutir com esse tipo de gente é jogar palavras ao vento. Afinal, dois monólogos não fazem um diálogo.

“É mentira, mas eu acredito”.
As “fake news”, as mentiras nas quais a pessoa quer acreditar, devem ser o que  há de pior nas redes sociais. Já notaram o tantão de mentiras que todos os dias circulam por aí? O problema é que as pessoas querem acreditar, porque aquilo justifica algum dos seus preconceitos. Mas tem uma boa notícia. True news. Jimmy Wales, um dos criadores da Wikipedia, está trabalhando numa plataforma que vai publicar notícias neutras e baseadas em fatos reais. “Fake news” não entram.

Aliás, deixo aqui alguns conselhos práticos para evitar as fake news. Não interessa para muitos, mas lá vai:
1 – Ver se o URL (o endereço da página) é de uma fonte credível.
2 – Verificar a data, porque há muitas notícias velhas que são requentadas.
3 – Pesquisar se alguma fonte jornalística credível (jornal, televisão, rádio) também está falando no tema.
4 – Pesquisar no Google – usando as palavras-chave certas – para ver se o tema é debatido em outros meios. Usar o mesmo procedimento para saber também os nomes das pessoas.
5 – Estar atento à qualidade gráfica dos posts. Na maioria das vezes, as imagens são mal feitas e o visual é ruim (tudo depende da educação visual do leitor).
6 – Tentar perceber se as imagens não são manipuladas ou falsificadas.
7 – Ver se há mais alguém a falar no mesmo assunto.

E agora, você, que achou isto tudo uma grande inutilidade, já pode ir até a caixa de comentários dizer o quanto eu sou fraquinho.

Por onde anda a nossa querrida prefeito?

POR BARON VON EHCSZTEIN
Guten Morgen, minha povo.
Eu esdou muita preocupado. Foceis virón a nossa querida prefeito? Xente, parrece que tomou uma chá de sumiço. Ninguém viu, ninguém ouve falar, ninguém sabe de nada. Se alquém sabe onde por onde anda, mande notícias. Serrá que o nossa citade vai ficar à derriva, sem a sua comandante? Entschuldigen! Desculpas. Quando falo em comandante, esdou falando da nossa querrida prefeita, a homem do leme. Nón vamos confundir com a vice-prefeita.

Aliás, por falar na inútil da vice, foceis virón a Scheiße um dia desses?  Que merda! A Hase publicou um notícia falsa nos redes sociais, na Tuíta e na Feicebuque, parra difamar a tal de Quilherme Bolos, que é candidata a pressidente de uma dessas partidos de xente pobre e com mais melanina. Dummheit tut weh! Burrice dói? Xente, acho que a nossa querrida prefeito tem a dedo podre, porque só escolhe vices emprestáfeis.

Fico aqui a pensar com as minhas botões. Talvez a nossa querrida prefeito esteja trabalhando em cassa. Combina. A teletrabalho é coisa de primeirra mundo. E tem o vantagem de não precissar pôr a carro nos ruas e estragar as pneus nas burracas. Xente, que burraqueira! Ou talvez seja uma descanso por tudo de bom que tem feito pelo citade. Nach getaner Arbeit ist gut ruhn. Trabalho feita, descansso merecida.

Gemein Gerücht ist selten erlogen. O que a povo diz à boca miúda sempre tem algo de verdade. Talvez a nossa querrida prefeito tenha desistido de ser a nossa querrida prefeito. Eu entendo. Deve ser uma saco acordar todo dia de madrugada para nón fasser nada. Es hat alles ein Ende, nur die Wurst hat zwei. Quer disser: tudo tem um fim, só o salsicha é que tem dois.

E antes de terminar, vou deixar uma recado para a Ivan Rocha, que publicou um texto aqui a disser que a nossa querrida prefeito é a “prefeito mais inútil do histórria”: Schlafende Hunde soll man nicht wecken. Nón é bom acordar a cão que está dormindo. Achtung.





quinta-feira, 26 de abril de 2018

Corrida de caiaque pelo rio Cachoeira: por que não?


POR FAHYA KURY CASSINS
Não é de hoje que Joinville ficou para trás. Após sucessivos governos pífios, como o atual, que não transformaram a cidade em um bom lugar para se viver nem num lugar desenvolvido e ancorada numa elite e poder econômico dominante que sufocam a cidade, a estagnação é completa.

Me surpreende tanto ouvir falar de eventos sobre empreendedorismo, de idéias e gestão pela cidade, todo ano. Pois as pessoas que vão a estes eventos não aprendem nada, não colocam nenhuma daquelas idéias em prática. E a cidade míngua e dá vexame diante de qualquer outra cidade de médio porte do país.

Gosto do exemplo de Itajaí. Perdemos feio para a nossa vizinha da porta do Vale. A cidade era feia, abandonada, sofria as características das cidades portuárias, amargava viver sob o brilho da sua vizinha mais famosa, a Capital catarinense do turismo. E soube se reinventar. Soube dar aos seus cidadãos uma cidade gostosa, atraente, com uma variedade de perfis e opções para todas as áreas e idades. É uma cidade que você vê o cidadão aproveitá-la. Soube se reinventar economicamente e na sua infraestrutura, procurando satisfazer as pessoas e os investidores.

Um baita exemplo é a Volvo Ocean Race, evento internacional que tem em Itajaí uma das suas paradas. As outras são Hong Kong, Auckland, Cape Town, Alicante, Lisboa, etc. na maratona náutica de mais de 40 anos de existência. Cobiçada por Salvador e Rio de Janeiro, a parada em Santa Catarina mostrou-se um sucesso. Muitos catarinenses de várias regiões, inclusive joinvilenses, foram prestigiar a Vila da Regata. Um lugar organizado, com atrações que não ofuscavam a garra das equipes, podendo acompanhar o trabalho de restauração, as atividades dentro do veleiro, as curiosidades da competição.

Um evento desses é um sonho para qualquer cidade, e Itajaí faz por merecer. Era de encher os olhos as milhares de pessoas vendo a largada, o desfile das equipes, andando a pé até o molhe e as praias para acompanhar os veleiros, torcendo, comentando, fotografando – programão de domingo. O evento primou pela segurança e pela organização, num pano de fundo que uniu a natureza belíssima e a infraestrutura que a enaltece.

Não ocorreu com Itajaí o que vimos com o Brasil ao sediar a Copa do Mundo de futebol, por exemplo. Itajaí primeiro investiu em si mesma, nas suas qualidades, no seu potencial, para aí, então, atrair interesse de qualidade na cidade. O Brasil fez justamente o contrário, produziu peça publicitária enganosa, levou na conversa os interessados, garantiu o evento e, a partir disso, resolveu que teria que virar-se para dar conta do recado de ser digno de um evento de tal porte. Assim é, aliás, como se faz pelo país afora. Mas não é assim que se conquistam a confiança e o sucesso.

Quando falamos em Joinville, percebemos que nem uma competição de caiaque no rio Cachoeira nós temos. Nem um torneio de pesca na Vigorelli. Nenhum evento na Arte ou na Cultura de âmbito nacional ou internacional, para além do Festival de Dança. Nenhuma, zero mesmo, representatividade no círculo acadêmico. Nada. A cidade não se projeta, não oferece qualidades, atrativos nem infraestrutura para tal. E é isso que movimenta a economia, que faz o cidadão feliz, que volta os olhos para si mesmo, que dá orgulho. Por tanto tempo tivemos que nos preocupar com os buracos nas ruas, com praças sendo cimentadas, com as enchentes de sempre que esquecemos de levantar a cabeça – e ver acima e adiante. Perdemos o bonde. Aliás, por falar em bonde, por aqui nunca nem falamos de trem de superfície, por exemplo.

O tempo passou e Joinville ficou para trás vítima dos interesses nefastos de alguns poucos e de administradores covardes e ineficientes. Não temos uma cidade projetada nacionalmente, nem no âmbito estadual, quiçá internacionalmente. Somos uma vila onde espera-se muito por nada. Dá orgulho falar das nossas vizinhas, dá orgulho visitá-las, e como eu ouvi de uma joinvilense que esteve na Vila da Regata: dá vontade de ficar por lá.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Coxinhas em Portugal: não estraguem a nossa cultura democrática

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
Hoje é feriado em Portugal. É o Dia da Liberdade, como se ensina às crianças nas escolas, ou da Revolução dos Cravos, como ficou mais conhecida em todo o mundo. Mas por que falar de um evento num lugar tão distante do Brasil? Há muitas razões de interesse. Portugal tem sido notícia porque muitos brasileiros de classe média – e são mesmo muitos – decidiram rumar para o outro lado do Atlântico à procura do que pensam ser um novo eldorado.

É um momento sociológico interessante. Ainda não notei pessoalmente, mas tenho lido que começam a surgir anticorpos na sociedade portuguesa em relação a muita dessa gente. Pelo que pude entender, acusam a coxinhada de ter um comportamento pouco condizente com uma sociedade mais igualitária. Eis o problema: no Brasil, essa classe média se considerava superior e agora procede da mesma maneira no novo país. É o jeito errado.

O que isso tem a ver com a Revolução dos Cravos? Não pretendo falar de história, mas de ironias. É importante informar aos coxinhas – que hoje, um belo dia de sol, certamente estão a desfrutar do feriado – que essa foi uma revolução das esquerdas (à qual a direita se juntou, à sua maneira) e na qual os socialistas e os comunistas tiveram papel determinante. Ah... não se estressem. Ser comunista ou socialista em Portugal não assusta.

E temos a grande ironia, em especial para aqueles que no Brasil vivem a pedir a volta dos militares. É que o movimento revolucionário português tinha, entre as suas lideranças,  militares com ideais de esquerda. O quê? Militares de esquerda? Não, não é ficção. Mas é claro que não estamos a falar de “generais de dez estrelas que ficam atrás da mesa com o cu na mão”, como no Brasil. Essa gente sempre disposta a defender privilégios, como as tais pensões para filhas de militares, por exemplo.

É bom viver num país onde ninguém pede a volta da ditadura. Se pedir é reconhecido como maluco. Nem ter que aturar os  “mourões” que por vezes saltam do pijama e vêm para a praça pública ameaçar com intervenções. Aliás, acabo de ouvir na televisão um líder do movimento de abril a pedir mais atenção para a pobreza que ainda persiste. “Onde não há pão não há democracia”, disse. Eis a diferença. Os militares do abril português são uma espécie de reserva moral da nação, enquanto no Brasil eles apenas zurzem ameaças.

É bom viver numa democracia. E deixo um conselho para a coxinhada. Em Roma sejam como os romanos. Tentem aprender a se comportar como quem vive numa numa sociedade com menos desigualdade. Mais do que isso, que se libertem do ideário de apartheid social que insistem em protagonizar no Brasil. E vão perceber que ter saúde, educação, transportes e segurança é bom, mas que é melhor quando é para todos.

Enfim, são todos bem-vindos, coxinhas ou não. Comunistas, socialistas, sociais democratas, verdes, democratas cristãos e outros estão prontos a recebê-los de braços abertos. Mas mudem o mindset. Não venham estragar uma cultura democrática que a Revolução dos Cravos permitiu construir ao longo dos últimos 44 anos.

É a dança da chuva.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Intenções


POR SANDRO SCHMIDT


O buraco da sorte e o prefeito mais inútil da história

POR IVAN ROCHA
Hoje fui premiado no "buraco da sorte" promovido pela Prefeitura de Joinville. Udo Dohler é o prefeito mais inútil que essa cidade já teve.

O cara que não foi capaz de fazer licitação do transporte coletivo, vencido há mais de quatro anos, não fez a licitação do estacionamento rotativo e teve o ex-vereador do mesmo partido preso por causa dessa licitação (aquele apresentador de TV), avacalhou com a iniciativa pública de apoio à cultura de várias formas, além de perseguir movimentos culturais alternativos.


Também é um grande mentiroso ao dizer que colocou as contas da Prefeitura em dia quando está aumentando a dívida com o IPREVILLE como nenhum outro prefeito havia feito. Isso só para citar as coisas mais graves.
 As grandes obras de reforma que diz ter feito foram em maioria de forma emergencial e por isso sem necessidade de licitação.

E o buraco? É só a ponta do iceberg. Para a maioria é a única coisa que aparece da Prefeitura, para quem está ligado na incompetência, é uma lembrança constante desse desastre de "gestón".

Dress for the Moment 3

ET BARTHES

Será que hoje passava pelo crivo do politicamente correto?

Dress for the moment 2

POR ET BARTHES

Dress for the moment 1

POR ET BARTHES


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Lula continua preso


POR JORDI CASTAN
Lula segue preso e isso é bom para o Brasil e para acabar com a impunidade. Que um condenado por crime comum, depois de ter recorrido até a segunda instância tenha que cumprir a pena é bom e deveria ser o normal, porque mostra que a lei pode ser que seja para todos. O que surpreende é que haja ainda gente que insista em que um político preso é um preso político. O que surpreende é que haja gente que acredite que Delcídio, Dirceu, Palocci, por citar alguns, mereçam seguir presos e que só eles devam cumprir a pena, sem que o chefe da organização criminosa que tomou o poder neste país tenha também que pagar por isso.

Há quem jure de pés juntos que Lula é uma ideia, há ainda quem acredite que ele é na realidade um ectoplasma e que por isso não possa ser encarcerado. Lula desperta paixões, tanto nos que mudaram de nome para homenageá-lo e incorporaram o Lula ao seu nome de batismo, como os que vem nele um ectoparasito que junto com sua quadrilha utilizou o poder para parasitar o país.

A prisão de Lula é um passo no caminho do combate à corrupção, um passo de gigante ao mostrar de forma clara que ninguém está acima da lei, mas quando há tantos outros soltos, livres para ir e vir e pior ainda, livres para se candidatar a um cargo eletivo no próximo outubro, a impressão final é que a corrupção no Brasil não tem data para terminar, que está fortemente enraizada na sociedade em todos os níveis e segmentos e que uma parte da população, não é corrupta por princípios e sim por falta de oportunidade.

Espanta a virulência e a agressividade com que os acólitos adoradores de Lula defendem com unhas e dentes seu corrupto de estimação. A participação da maioria dos deputados, governadores e senadores, na sua maioria do PT em atos públicos de apoio ao ex-presidente preso, tem sido ou serão pagos com recursos públicos, o que é uma ilegalidade e uma imoralidade. Ainda que falar de imoralidade entre gente de tão poucos e tão elásticos princípios seja uma autentica perda de tempo. A maioria não sabem o que sejam princípios e os poucos que sabem não os praticam.

É preocupante o nível de agressividade de lado e lado. Preocupante que haja no judiciário um núcleo duro empenhado em que Lula não cumpra a pena, a que tem sido condenado, preocupante que a desfaçatez seja a prática comum na hora de argumentar e que fascista seja o adjetivo mais usado para desacreditar ou atacar a quem pensa diferente. Não deveria ser necessário lembrar que os mais acusam aos outros de fascistas são os que mais demostram um comportamento fascista e autoritário. 

Em tempo dois comentários sobre o circo em que estão querendo converter a prisão de Lula. O primeiro que a legislação estabelece claramente quem pode e quando pode visitá-lo, quem não respeita a legislação esta só querendo chamar a atenção e buscando tumultuar. A segunda que governadores e senadores que mostraram tanta rapidez em conhecer as condições da sala em que o ex-presidente está preso não tem mostrado o mesmo interesse em conhecer as condições dos presídios dos seus estados o que deveria gerar uma reflexão dos eleitores e evidencia o caráter partidário e circense de estas visitas e movimentações.
Alias é bom lembrar que a sala que ocupa não é para que receba visitas e de entrevistas, presos devem seguir as regras do lugar em que estão encarcerados e receber amigos, dar entrevistas ou sair de passeio não são atividades permitidas para alguém que cumpre pena.

A cada dia que Lula passe preso, o mito se desfaz um pouco e fica mais evidente que era só um ídolo de barro. Como disse Vargas Llosa nesta semana passada, Lula não está preso pelas coisas boas que fez em quanto foi presidente, está preso pelas coisas erradas que fez.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

As Humanidades em disputa


POR CLÓVIS GRUNER
A manchete de segunda-feira (16), do caderno “Educação” da Folha de São Paulo, não deixa muita margem para dúvidas: “Filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática” soa como uma sentença, tamanha a certeza contida em uma única frase. O que vem depois tampouco ajuda. Trata-se de resultados parciais de uma investigação conduzida por dois pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Thais Waideman e Adolfo Sachsida, cujas conclusões finais ainda serão publicadas.

De acordo com o trabalho, a inclusão obrigatória das duas disciplinas no ensino médio, em 2009, prejudicou o desempenho dos estudantes em três outras – além de matemática, são citadas redação e linguagens, mas não se explica porque apenas a primeira virou manchete. Não é o único nem o maior problema da matéria. Ela omite, por exemplo, que um dos responsáveis pelo levantamento, Adolfo Sachsida, é conselheiro econômico de Jair Bolsonaro, o presidenciável que despreza não apenas as Humanidades, mas uma parcela da humanidade.

Os dados foram extraídos das notas do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio, mas o texto não diz, entre outras coisas, se a pesquisa levou em conta as mudanças implementadas no exame – a estrutura das provas foi modificada e o uso do ENEM como critério de acesso à universidade foi gradativamente expandido desde sua criação, gerando entre outras coisas uma enorme ampliação no número de inscritos – foram cerca de 6,7 milhões no ano passado. Outras variáveis ficaram de fora, ao menos da reportagem, e elas são importantes em pesquisas dessa natureza.

Exemplos: as condições de ensino e das escolas eram adequadas? O número de professoras e professores suficiente e elas/es suficientemente preparadas/os? Quais métodos de ensino foram empregados? Havia a preocupação em integrar o ensino de matemática a outras disciplinas do currículo escolar? Fica a impressão de que os autores chegaram a conclusões que, se servem de argumento à guerra cultural, carecem de rigor analítico. Afinal – e isso se aprende em aulas de Sociologia –, correlações não implicam necessariamente em causalidade.

A ideologia como método – A pesquisa tem um viés clara e abertamente ideológico, e não me parece despropositado vê-la como mais uma peça arremetida contra o nosso campo. A ofensiva contra as Humanidades não é exatamente nova, mas recrudesceu nos últimos anos e escapou ao ambiente virtual, orientando e dando forma à políticas públicas na Educação, tais como a nova Base Nacional Curricular Comum e a Reforma do Ensino Médio. Ela se sustenta em basicamente duas premissas.

A primeira, a de que elas são um antro de “esquerdopatas”, doutrinadores que usam as salas de aula para macular ideologicamente jovens inocentes, sua “audiência cativa”. Brandido particularmente por trogloditas mentais para quem qualquer defesa dos Direitos Humanos ou das chamadas minorias é sintoma de “esquerdopatia” – como os anônimos comentaristas desse blog –, é o tipo de argumento que, de tão espúrio, não merece crédito, nem paciência. Mas há um segundo, ao menos aparentemente mais sofisticado, e que demanda alguma atenção: o de que não produzimos um “conhecimento prático”, e estamos em descompasso com as exigências do “mundo contemporâneo”.

A expressão, não raro, é empregada como eufemismo para “mercado”. Sob essa ótica, a produção e transmissão do conhecimento devem adequar-se, necessariamente, às exigências do “mundo prático” e estarem conectados ao “real”. Logo, disciplinas como Filosofia, Sociologia, História ou Geografia, além de consumirem, no ensino superior, recursos valiosos que poderiam ser investidos, por exemplo, em áreas como as engenharias, obrigam estudantes do ensino básico a aprenderem inutilidades ao invés de coisas realmente úteis, como matemática.

A tendência é objetar essa crítica argumentando que as matérias de Humanas produzem um “pensamento crítico”, objeção legítima, mas insuficiente. Primeiro, porque nem sempre fica claro o que se entende por “pensamento crítico”. Além disso, a existência por si só das disciplinas humanísticas não garante nada, porque é preciso levar em conta – assim como no caso da matemática – as condições de seu ensino. E nunca é demais lembrar, afinal, que Marco Antonio Villa é historiador.

Em defesa das Humanidades – Se estamos a dialogar com quem pensa em termos práticos e objetivos, é preciso tentar responder igualmente. Não se sustenta o argumento de que nós, das Humanas, impedimos o avanço da ciência no Brasil. Dados de 2016 indicam que apenas algo em torno de 10% das verbas de pesquisa foi investido, pelos órgãos de fomento como Capes e CNPq, na área, e é provável que, com os cortes do atual governo, esse número tenha sido ainda menor no ano passado.

Custamos muito pouco aos cofres públicos, afinal. E tampouco somos inúteis. Nas universidades, são principalmente os cursos de Humanas os responsáveis pela formação de novos docentes e por atividades de extensão, considerada a “prima pobre” da pesquisa, mas responsável pela integração e inserção da academia nas comunidades externas a ela. O conhecimento produzido também está disponível aos poderes públicos e ao mercado, que nem sempre sabem, ou querem, fazer dele um bom uso.

Disciplinas como a sociologia, a antropologia e a história são fundamentais para o desenvolvimento e implantação de políticas públicas de saúde, segurança, cultura e, óbvio, educação, entre outras. A agricultura e o desenvolvimento urbano precisam da geografia. A implantação e multiplicação de círculos de leitura, bibliotecas e outros espaços e aparelhos culturais serão precárias sem os profissionais de letras e filosofia. A preservação da memória e do patrimônio histórico e cultural não depende apenas de arquitetos, mas igualmente de historiadores. E o mercado, perguntarão alguns?

Há quem diga que fazemos e vendemos miçanga como ninguém. Mas nosso âmbito de atuação é maior. Lemos pouco no Brasil, mas parte significativa do pouco que se lê é fruto da comunidade de leitores formada pelo trabalho de estudantes e profissionais de Humanas. Além disso, não é nada negligenciável nossa contribuição em áreas tão distintas como a organização de arquivos, públicos e privados; a produção e consultoria cultural e museológica; o mercado editorial; a comunicação (tanto o jornalismo como a publicidade); o turismo; o design; a moda; a produção audiovisual e o desenvolvimento de games, entre outros.

Sim, há equívocos e distorções a serem corrigidos nas Universidades, no ensino e na pesquisa, mas isso não é exclusivo às Humanas. Também é preciso repensar os meios pelos quais as disciplinas são ministradas no ciclo básico, e embora já exista muita gente se dedicando a isso, é possível fazer mais. Mas os problemas não se resolvem retrocedendo. Nem, tampouco, com pesquisas que mal disfarçam sua orientação ideológica.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Almoço


POR SANDRO SCHMIDT

O joinvilense


POR FAHYA KURY CASSINS
O joinvilense é um tipo que habita os manguezais do entorno do rio Cachoeira. Ser característico da região, dubiamente faz loas ao germanismo numa cidade colonizada. Você pode facilmente encontrar o joinvilense, nos horários mais movimentados do trânsito, parado calmamente num cruzamento, trancando-o, e se você reclamar ouvirá “quando eu passei o sinaleiro estava aberto”. E ali ele permanecerá, mais adiante reclamando do engarrafamento. Não pergunte ao joinvilense o que são aquelas faixas amarelas pintadas entre ruas movimentadas, ele não saberá responder. Aliás, o joinvilense é este ser incrível que sabe intuitivamente onde e quais faixas e sinalizações existem nas ruas da cidade, porque elas deixam de existir em pouco tempo depois de pintadas, mas ele memorizou-as, portanto elas não fazem falta.

O joinvilense é dos seres mais acostumados com as enchentes. Desde pequenos aprendem a meter o pé na água da chuva. A chuva, inclusive, é parte inerente do joinvilense. Ele nem sabe se a ama ou odeia. O terminal alaga, o centro alaga, a rua de casa alaga, o bairrão alaga, tudo alaga. É esperado. Mas aí ele vê os estragos e no dia seguinte reclama. “Porque essa cidade sempre alaga, como é que pode isso” e tals. Olhe bem, repare mesmo, nos jardins desses reclamões. Repare no piso pelo quintal todo, repare na lona de plástico (esta é infalível!) debaixo da brita no jardim. É cimento e mais cimento, muita brita, tudo para evitar o mato, é claro. E o reclamão que chegou de madrugada em casa porque, “que merda essa prefeitura que não faz nada, o terminal do centro estava cheio d’água, atrasou tudo”, contempla feliz seu mísero canteiro de meio metro quadrado – o resto devidamente livre do mato.

Este ser que é tão inteligente e impermeabiliza o solo feito doido reclama, também, da falta de atrações da cidade. Não há lazer. E ainda quando inventaram de fazer falaram em “parque” e uma enorme praça cimentada (é claro) surgiu. E as praças arborizadas da cidade foram “revitalizadas” e muita árvore velha (é claro) foi cortada e hoje minguam arbustos. Além, é claro das praças abandonadas. O joinvilense é uma imitação daquela gente de cidade grande que vive nos shoppings – só que na cidade não há shoppings de verdade. O joinvilense não planta uma arvorezinha no seu terreno, mas se tivesse um parque (sem aspas) na cidade, certeza que iria até lá (de carro, é claro) toda semana aproveitar o ar puro.

O joinvilense também reclama que estão acabando com o que havia de belo na cidade, que destroem a sua história, sua memória. Mas o sonho do joinvilense médio é comprar um baita apartamento na região central da cidade, aqueles ali supervalorizados e construídos onde poderíamos ter a nossa “cidade histórica” com belas construções e museus e tals. É ele que visita Londres e Nova York e acha lindo os bairros artísticos que transformaram suas fábricas em galerias de arte e escritórios, mas quer sua salinha no edifício mais famosinho da cidade, com vista para a Serra do Mar, de preferência.
 
Como nem todos podem realizar seus sonhos, o que resta para o joinvilense comum é comprar um geminado (que fizeram sucesso no século passado em tantas cidades grandes, do país e mundo afora). E ele vive naquele sufoco de acordar com a cara na parede, a assistir ao jogo com o nariz na tela da TV. Desse sufoco ele escapa encontrando o pessoal da firma nas recreativas aos finais de semana, ou naquela rua que chamam de via gastronômica porque tem uma dúzia de restaurante. Ou, ainda, é claro, vai comer um pastel no pé da serra. Aliás, você comprovadamente é joinvilense se tem no seu círculo limitado de relacionamento alguém que já trabalhou, que trabalha ou trabalhará na Whirpool. Esta é infalível.

O joinvilense é de dar pena. São sonhos e mais sonhos afogados à beira do Cachoeira. É a jovem que veio de uma cidadezinha pra fazer faculdade, mas não conseguiu mais pagar o curso e vai trabalhar numa empresa qualquer. É o empresário que tenta inovar e seu negócio morre às moscas porque o joinvilense, vocês sabem, torce o nariz pro diferente. É o cara que tem qualificações, mas perde vagas porque não tem os contatos certos nas instituições mais conhecidas da cidade.
Dá muita pena mesmo. Porque para muito joinvilense talvez só lhe falte um espelho onde ele pudesse ver as próprias ações e a sua cidade como ela é, de verdade. Enquanto isso, ele ficará parado no cruzamento, com cara de bunda, porque, afinal, era seu direito passar no sinal verde.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Prisão de Lula é notícia em todo o mundo

POR ET BARTHES
A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido notícia constante na imprensa internacional. A maioria dos meios de comunicação, em especial nos países desenvolvidos, tem criticado a atuação da Justiça brasileira. Em pauta estão ações consideradas arbitrárias e desconectadas do estado de direito.




A força que o Brasil precisa...

POR ET BARTHES
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Agora é Aécio

POR ET BARTHES
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terça-feira, 17 de abril de 2018

Triplex



POR SANDRO SCHMIDT

MTST ocupa triplex. E o triplex não é nada disso...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
O marketing de guerrilha é uma eficiente arma de comunicação. Quando não há dinheiro para “comprar” espaços na mídia, a solução é produzir ações que, com baixo ou nenhum custo, consigam passar a mensagem que se pretende. Um exemplo de marketing de guerrilha muito oportuno aconteceu nesta segunda-feira, quando integrantes do MTST e a Frente Povo Sem Medo ocuparam o triplex “atribuído” ao ex-presidente Lula (“atribuído” agora é o jargão usado pela imprensa brasileira).

O lugar é simbólico. Foi por causa do apartamento no Guarujá que o ex-presidente acabou condenado a uma pena de prisão. A invasão de ontem durou apenas três horas, um tempo mais que suficiente para produzir efeitos midiáticos pretendidos, no Brasil mas especialmente no mundo. Pela relevância jornalística, a imprensa brasileira não tinha como fazer vistas grossas. E como a velha mídia tupiniquim já demonstrou ter lado, tem sido muito importante para os apoiadores de Lula conquistar a atenção do exterior.

E funcionou. Não é preciso fazer uma pesquisa extensiva para encontrar a notícia na imprensa europeia e norte-americana, por exemplo. The Guardian, NY Times, Jornal de Notícias, RFI e mesmo algumas agências internacionais, a garantia de que a notícia chega a todo o mundo. Na semana passada, escrevi aqui que a prisão de Lula abriria uma nova etapa no processo: a guerra simbólica. Ou seja, a estratégia de construir uma narrativa. É preciso conquistar a opinião pública, não apenas nacional mas também no exterior.

A estratégia do PT passa por focar a imprensa internacional. E os resultados têm sido favoráveis em termos de imposição da narrativa. O mundo sabe o que se passa no Brasil. Ou seja, sabe do golpe. Mas depois do “com o supremo com tudo” a justiça brasileira perdeu credibilidade. Nas democracias, é natural haver um respeito pelos sistemas judiciais e isso aconteceu em relação ao Brasil até bem pouco tempo. Mas hoje, depois de todas as evidências do julgamento político de Lula, não há defesa possível.

A CEREJA NO TOPO DO BOLO -  Mas a revelação mais irônica do episódio foi o filme feito pelo pessoal do MTST para mostrar o apartamento. E as imagens vieram abalizar as explicações do ex-presidente, quando revelou os motivos para não efetivar o negócio. O apartamento nada tem de luxuoso, ideia que a velha imprensa se esforçou por divulgar. E só os muito ingênuos (para não usar termos mais duros) podem acreditar que a OAS gastou U$ 1,2 milhão na reforma do lugar, como afirma a acusação de Sérgio Moro.

Logo abaixo, o triplex como a imprensa mostrou e como é na realidade. Enfim, só alguém com a visão toldada pelo ódio de classe pode achar que Lula iria trocar a sua história política por isso.

É a dança da chuva.






segunda-feira, 16 de abril de 2018

A Joinville de gente que não reclama, só resmunga

POR JORDI CASTAN
Joinville é uma cidade singular. Poucos lugares conseguiriam sobreviver a décadas de maus governos, sem planejamento e dirigidas por legiões de ineptos. Qualquer cidade que não fosse Joinville já teria sucumbido faz tempo. Mas Joinville não. Joinville insiste teimosamente em sobreviver, em crescer e em prosperar, mesmo neste ambiente hostil em que a mediocridade viceja. Aqui o compadrio toma conta de tudo e o poder público está contaminado pela inoperância, a preguiça e ausência de uma visão estratégica para a cidade.

É importante estabelecer uma linha clara entre a cidade e seus habitantes, que são as pessoas, empresas e organizações que aqui lutam para prosperar e fazer prosperar, e a cidade e sua administração, os seus administradores e toda esta corja de gente e organizações penduradas nos seus úberes, outrora fartos e inesgotáveis. São os mesmos que veem e tratam Joinville como sua propriedade privada e a utilizam exclusivamente para seu beneficio próprio e o dos seus apaniguados.

Só uma cidade como Joinville para sobreviver. É a resiliência o que faz desta cidade um modelo a ser estudado, vivissecado e analisado. Esta capacidade de, por um lado, aceitar a inépcia e, pelo outro, superá-la. Este jeito tão joinvilense de calar e acatar. Este povo ordeiro trabalhador que suporta por anos a fio gestões incompetentes. Obras que nunca terminam. Obras que nunca começam. Obras que custam muito mais que o orçado e seguem com péssima qualidade. Prédios públicos abandonados durante lustros e décadas no mesmo centro da cidade. Avanços sobre a Cota 40. Redução das áreas verdes. Instalação de estações elevatórias de esgoto em praças públicas sem que ninguém se manifeste.

É ainda mais interessante ver como o joinvilense não gosta e até resmunga quando alguém se atreve a pôr em duvida a capacidade do gestor de plantão ou a acuidade mental de quem planeja e executa as obras públicas. Esse resmungar, tão característico dos sambaquianos, não conhece paralelo em outras sociedades que optam por se manifestar abertamente e publicamente. Aqui, desde a época da colônia, assumo que essa época colonial pertence a um passado distante e não segue sendo atual, criticar é muito mal visto. A ordem é baixar a cabeça e trabalhar, não questionar, não pensar diferente do pensamento oficial. Se não estivéssemos no século XXI, poderíamos imaginar que estamos vivendo na Alemanha nazi da década de trinta, em que qualquer um que dissentisse do fuhrer corria o risco de ser apaleado.

Vamos a seguir baixando a cabeça e trabalhar duro, porque temos que pagar os impostos, taxas e contribuições para manter azeitada essa máquina pública que nos explora e nos oprime. Viva essa resiliência que nos permite ser fortes e resistir a esta pressão infernal e superá-la. Viva Joinville, viva seu povo ordeiro e sofredor que aguenta tudo em silêncio ou, no máximo, emitindo pequenos resmungos baixinhos para não correr o risco de interromper o plácido sono do gestor. Vai que ele acorda e fica brabo.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

As charges do Sandro Schmidt...

POR SANDRO SCHMIDT


MBL, MIT, USP. É mentira, mas eu quero acreditar...

POR LEO VORTIS
Há algum tempo circula, nas redes sociais, um post afirmando que o MBL – Movimento Brasil Livre é o maior produtor de fake news do Brasil. A afirmação teria como base o estudo de uma Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), realizado a partir de critérios de um grupo de estudo da USP - Universidade de São Paulo (USP). Como o movimento não tem muita intimidade com a verdade, ficou fácil acreditar.

A fama de mentir assenta bem no MBL. Eis um exemplo recente. Há poucos dias, Arthur do Val, militante do movimento e conhecido como “Mamãe, Falei”, acusou o pré-candidato à presidência Ciro Gomes de agressão. Mas quem se deu ao trabalho de olhar para as imagens percebeu a falcatrua. Tudo fake. O rapaz, que parece ter os neurônios operando com capacidade ociosa, tentou criar um fato onde não havia fato.

Não há limites para a tal “pós-verdade” (mentira). Um dia destes o MBL publicou uma nota a acusar a velha imprensa de perseguição. E aponta o dedo a “uma perseguição implacável por parte de veículos viciados da grande imprensa como o ‘Globo’, ‘Veja’ e ‘Exame’. O objetivo desses grupos é o mesmo: silenciar o movimento que traz a contraversão da narrativa mentirosa que suas redações de esquerda tentam enfiar goela abaixo no país”.

Todos sabemos que integrantes do movimento não lidam bem com a verdade. Mas daí a acusarem essas três publicações de serem de esquerda é esticar demais a corda. Porque até a mentira tem limite. Não... pensando melhor, não tem. Porque há quem acredite. É como aquelas pessoas que defendem, de forma convicta, que o PSDB é de esquerda. Enfim, é mentira, mas elas querem acreditar e isso é o que importa nestes tempos confusos.

Faz algumas semanas, a imprensa divulgou os resultados de um estudo do respeitado MIT - Massachusetts Institute of Technology, que revelou uma realidade sombria: a verdade não tem como competir com as notícias falsas e os boatos. As falsidades tendem a se espalhar mais rápido, mais fundo e de forma mais intensa nas redes sociais do que a verdade. Foi o maior estudo já realizado nessa área, com a análise de cerca de 126 mil histórias, que envolveram três milhões de pessoas, durante 10 anos (a base foi o Twitter).

A pesquisa evidenciou o fato de que um certo prazer pela mentira tem muito a ver com a natureza humana. E deita por terra a teoria de que são os “robôs” os responsáveis por as versões falsificadas. “Parece ser bastante claro que informações falsas superam as informações verdadeiras. E isso não é só por causa dos bots. Pode ter algo a ver com a natureza humana”, analisou Soroush Vosoughi, o cientista do MIT que liderou o estudo desde 2013.

É mais ou menos a lei da oferta e da procura em ação. As fake news são um produto destes tempos, mas só existem porque há quem as consuma. É que para muita gente, em especial os conservadores, vale o slogan: “as fakes news são a minha verdade”. Ou seja, é mentira mas eu quero acreditar. A overload information (sobrecarga de informação) é a doença dos nossos tempos. As pessoas recebem muita informação, mas não sabem o que fazer com ela.

Ah... e sobre o MBL. Parece que o tal estudo da USP não existe. Mas quem se importa. Afinal, como diz o ditado, o MBL fez a fama e deitou na cama.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Se chove, nos danamos


POR FAHYA KURY CASSINS
Semana passada, sob este calor excessivo estranho a um Outono, vimos dias de tempestades. Final do ano passado algumas famílias joinvilenses passaram o Natal com os pés na água da enchente. No Verão choveu bastante e alguns alagamentos, aqueles de sempre, marcaram presença. Em pleno abril houve uma tempestade forte, mas que nem por isso deveria ter causado o que testemunhamos.

Porque quando começa, final da tarde, já noite, uma tempestade dessas, o joinvilense sabe o que vai acontecer. E o que mais queremos é ir logo pra casa, pra não ficarmos presos entre ruas alagadas e caminhos intransitáveis. Quem teve sorte, conseguiu chegar ao seu destino em segurança. Mas muitos ficaram reféns esperando por horas a água baixar. Isso que nem tivemos problema com a maré, foi uma breve chuva forte, que não durou uma hora.

Sabe que cansa falar sempre dos mesmos problemas. Mas não existe conformismo capaz de justificar o fato de Joinville ainda (e sempre) sofrer com inundações e alagamentos e absolutamente nada ser feito – além de ouvirmos um “acontece”. A rua da minha casa fica intransitável porque uma transversal enche. Por quê? Porque nela não há bueiro até a outra quadra, assim a água de lá, quando enche vem toda para a nossa rua. No ano de uma das piores enchentes que já sofremos eu solicitei (porque a empresa que tem nesta rua que enche subiu seu pátio e não se incomoda com mais nada) que abrissem um bueiro lá. Estou aguardando até hoje (a solicitação foi feita na Era Carlito).

E as obras do Rio Mathias? Estão lá, claro, pois todos podem ver que a praça (que era a mais bonita da cidade) está abandonada, a buraqueira ao lado do monumento da Barca, as ruas do entorno afundando. As propagandas ninguém mais viu. O prazo para conclusão foi esquecido. E então? O que eu acho mais curioso é que depois desse tempo todo, não vimos nenhuma evidência, nada nadinha, de que a obra esteja surtindo efeito. Porque, pensando bem, se ela está há tanto tempo sendo feito, é de se imaginar que alguma coisa já tenha avançado, já esteja pronta. Uma obra dessas não fica pronta na sua totalidade só de um dia para o outro. E então? Por que não vemos nenhum efeito dela nas chuvas? E por que ela nunca termina? Será mesmo que dará certo?

Joinville não tem nem uma régua para acompanhar o nível do rio. Não tem alertas sonoros, nada. Ah, a gente sabe que enche, é só ver se chover. O joinvilense é o melhor meteorologista, técnico da defesa civil, vidente com quem a cidade pode contar. Porque é isso mesmo, só podemos contar conosco. Qualquer chuvinha nos deixará diante de uma situação caótica e aí xingaremos os prefeitos, as malditas obras que não servem pra nada, a impermeabilização do solo da qual somos culpados, os bueiros entupidos, os rios sem manutenção. Com sorte estaremos vivos para a próxima tempestade.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Lula preso: epílogo ou um novo capítulo?


POR CLÓVIS GRUNER
O assunto é incontornável: a prisão de Lula, decretada pelo juiz Sérgio Moro na quinta (05) e efetivada no sábado (07), quando o ex-presidente se entregou à Polícia Federal, mobilizou o país. Apesar das muitas paixões despertadas, de um lado e de outro, não se trata ainda de um desfecho, mas de mais um capítulo de uma narrativa cujo fim, me parece, não está próximo nem, tampouco, é previsível.

Das inúmeras imagens produzidas a partir do evento, duas são emblemáticas. Uma delas, a de Lula sendo conduzido por uma multidão na sua saída da sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo. Outra, a do empresário e cafetão Oscar Maroni, simulando o estupro em uma “performance” com uma prostituta, em frente ao Bahamas Hotel Club, um bordel de luxo na capital paulista, sob o olhar grave de dois juízes, Carmem Lúcia e o próprio Moro, cujos retratos adornavam a comemoração.

Como quase tudo que envolve o nome de Lula, elas são carregadas de um forte caráter simbólico, seja ele o reconhecimento pelos feitos dos governos Lula (em seu ex-blog, “Desafinado”, o historiador Murilo Cleto publicou, em 2014, um dos mais completos balanços das duas primeiras gestões petistas), ou os desejos perversos de subjugação violenta alimentados pela elite brasileira e parte da classe média – além, óbvio, dos milicianos do MBL –, que pensa e age como se fosse parte dela.

Mas é também interessante que, por caminhos opostos, ambas reforçam o caráter algo mítico de Lula em relação ao seu partido, em grande medida reafirmado a partir dos acontecimentos que culminaram com sua prisão. Principalmente depois que a Lava Jato e o juiz Moro decidiram sacrificar, abertamente, mesmo a mais pálida imagem de isenção, surfando na onda do antipetismo e ampliando seu apoio e base social, uma das linhas de defesa do PT e de Lula tem sido reforçar o caráter parcial e seletivo da operação.

O argumento é que a operação mira, mais que o próprio partido, sua principal liderança, o “sonho de consumo” de Moro. Há alguma razão nisso. Desde março de 2016, quando vazou a conversa telefônica entre Lula e Dilma, interferindo diretamente nos rumos da vida política do país, o juiz curitibano deixou de agir apenas como magistrado, confundindo o papel de julgador que se pretende imparcial com o de inquisidor – e sua sentença é uma clara demonstração disso.

Além disso, desde o impeachment, em agosto do mesmo ano, todos os indícios evidenciam que está a se cumprir a profecia de Jucá, a do aparelhamento da Lava Jato em um “grande acordo com o STF com tudo” para “estancar a sangria” e salvar quem realmente importa da cadeia. Nada estranhamente, práticas que foram condenadas e provocaram escândalo em governos petistas, mereceram o silêncio e a indiferença, inclusive da PF e da justiça, quando praticadas por Temer, ele próprio blindado de duas denúncias em troca de alguns bilhões distribuídos aos deputados da base aliada.

Sem crítica, nem projeto – Mas se o quadro geral justifica o discurso de Lula e do PT, ele serviu também como pretexto para que ambos não fizessem, nem uma autocrítica, nem tampouco um igualmente necessário mea culpa, seja pelo desastre que foram a gestão e meia de Dilma Rousseff – incluindo o estelionato eleitoral de 2014 –, ou pelos deslizes cometidos durante os 12 anos de governos petistas, aí incluídas as denúncias de corrupção.

Na narrativa do golpe, que ganhou força e impulso à medida que o verdadeiro desastre ético e político do governo Temer ficou mais claro, os muitos erros das gestões petistas foram obliterados na figura cada vez mais mítica, e na devoção quase religiosa, criada em torno à imagem e ao nome de Lula. A sua prisão reiterou esse caráter personalista, e em ambos os espectros que orbitam passionalmente ao seu redor, com prejuízos políticos a ambos, ao menos no médio prazo, e ainda que com resultados distintos.

À direita, a prisão de Lula pode diminuir a força do discurso antipetista, que tem sido a tônica desde as manifestações de 2015. Com Dilma deposta e Lula preso, os partidos de direita conseguiram atingir sua meta mais imediata, a retomada das instituições e a redistribuição de poder no interior delas, blindando a quadrilha que tomou de assalto o governo depois do impeachment.

Mas o empenho em estancar a sangria, mobilizando recursos na criação e demonização de um inimigo único e fonte de todo o mal, dificultou o surgimento de um nome e projeto alternativos. Dito de outra forma, se o problema começava e terminava em Lula, e com ele fora do páreo, o que sobra para a direita? O carisma de Geraldo Alckmin? Ou os delírios autoritários de Bolsonaro, disposto a transformar o Brasil em uma versão reacionária da Venezuela ou em um Irã tropical?

A situação não é mais confortável para a esquerda. É verdade que a prisão de Lula unificou parte dela, levando para o mesmo palanque Guilherme Boulos e Manuela D'Ávila. Mas seria melhor se essa unidade fosse construída também em torno a um projeto ou um programa mínimo – a auto proclamada “Frente Antifascista” não existe de fato –, o que a esquerda tampouco tem, porque nos últimos dois anos salvar Lula se tornou o único projeto que realmente importa.

A imagem da multidão a conduzi-lo em São Bernardo e a reação apaixonada de militantes dentro e fora das redes virtuais, parecem deixar claro que, se as forças e grupos de esquerda viviam um impasse e um vazio programáticos, seu encarceramento não os resolveu mas, antes, os aprofundam e estendem sua solução talvez indefinidamente. E em um ano eleitoral isso pode ser um problema a mais a ser contornado. Mas isso é tema para outro artigo.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Ocupação


Odiar Lula. E odiar, odiar, odiar...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
- “Leva e não e traz nunca mais”.
- “Manda este lixo janela abaixo aí”.
De férias, fui despertado por uma mensagem de alguém a perguntar se eu sabia da veracidade do áudio com essas frases. Elas teriam sido proferidas por pessoas envolvidas no voo que transportava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Curitiba. Tudo indica que são verdadeiras, mas nem precisariam ser. Os desejos de morte do ex-presidente são mais do que reais. É só dar uma olhada nas redes sociais.

É apenas fruto da escalada de ódio (de classe, mas não só) que tomou conta do Brasil. A cultura do ódio fez perder todas as referências, ao ponto de tornar irrelevante o valor da vida humana. É a rejeição da civilização. É a invalidação do imperativo categórico de Kant, aquele que fala em só querer para os outros o que queremos para nós (a vida é um bem universal). Enfim, é a negação do contrato social.

O episódio, somado a tantos outros que têm acontecido ao longo dos últimos tempos, revela o estado de putrefação a que chegou um certo inconsciente social. O ódio fez perder as referências da vida em sociedade. A decência, a tolerância e o respeito pelo ser humano – e pela vida – tornaram-se moeda podre. A corrosão do caráter dos indivíduos é o caminho para o fracasso da democracia. E parece não haver volta.

Sigmund Freud escreveu que o ódio é um processo do ego que projeta a destruição do ser odiado. O alvo dessa projeção? É todo aquele que se mostra irredutível à minha própria imagem. Ou seja, se o outro é diferente e não se converte à minha imagem, é inevitável odiá-lo. E surge a negação desse outro e, em situações mais extremas, o desejo de destruição (a pulsão de morte). Lula é alvo de todo esse ódio.

Há quem rejeite a expressão “ódio de classe” (os odiadores são os primeiros), mas ela é uma evidência no Brasil. O discurso do ódio ocupa o dia a dia dos conservadores. E é sempre oportuno lembrar Bernard Shaw, quando ele diz que o ódio é a vingança do covarde. Quem tem olhado para a caixa de comentários deste blog sabe do que estou a falar.

É a dança da chuva.

Danilo Gentili, por exemplo, sugere a morte de Lula.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Hoje tem Reinaldo Azevedo...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
De férias, deixo o Reinaldo Azevedo ocupar o meu lugar no blog (e vejam que não sou nadinha fã do Rola Bosta). É uma fala com alguns dias, mas dado os acontecimentos dos últimos dias parece ter interesse histórico.


Lula esta preso. E agora?

POR JORDI CASTAN
Prefiro manter o foco nos assuntos paroquiais, no quotidiano da vida da vila. Esse quotidiano que nos últimos anos tem sido dominado pela inação da inépcia. Mas hoje o tema não poderia ser outro que a prisão de um condenado em segunda instância.

Depois do espetáculo vergonhoso e lamentável promovido per unas centenas de fanáticos que colocaram acima da lei, finalmente o ex-presidente Lula foi preso por crime comum. O primeiro ex-presidente brasileiro preso por crime comum. Seus seguidores insistirão em que se trata de um julgamento político, alguns até insistem em dizer que Lula é hoje um preso politico. Lula, e é bom não confundir, é um politico preso. É oportuno lembrar que esta condenação em segunda instancia é pelo primeiro processo que corre na justiça contra ele, há ainda outros e, se for condenado, como tem grandes possibilidades de acontecer sua pena será aumentada.

Lula e seus seguidores vivem num mundo fantasioso, um mundo em que acreditam que podem construir a sua realidade. Se consideram cidadãos acima do bem e do mal, membros de uma casta superior que tem direitos que não são os mesmos dos cidadãos comuns. Preocupa esta incapacidade de ver a realidade como ela é. No mundo fantástico em que acreditam que podem decidir quando, onde e como se entregar para cumprir a ordem de prisão. Acreditam ainda que podem, com truculência e bravatas, impor a "sua verdade" sobre o cumprimento da lei. É oportuno lembrar que neste episódio a imagem da justiça, da lei e da própria Policia Federal saíram arranhadas. Verdade que tanto o juiz Moro como a Policia Federal agiram com o bom senso que faltou aos organizadores do espetáculo circense em que tudo se converteu.

É bom para a imagem do Brasil ver finalmente um condenado preso. Muitos chegamos a duvidar que isso algum dia acontecesse. Ilude-se quem acredita que Lula possa ficar preso por muito tempo. Ele sabe demais e pelos seus antecedentes no passado, não seria nenhuma surpresa se, depois de uns dias em prisão, ele decidisse contar um pouco do muito que sabe. Lula não tem perfil de herói. Tal vez por isso haja tantos interessados em que ele não fique muito tempo preso.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Lula, Moro e o momento da guerra simbólica

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
Sérgio Moro foi com muita sede ao pote. O timing para a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva é mau e só pode ter sido fruto de pouca reflexão. Ou pela obsessão de ver o ex-presidente atrás das grades. Lula da Silva já veio a público dizer que considera a prisão um “sonho de consumo” do juiz. Faz sentido. A ordem de prisão foi a mais rápida entre os réus soltos da Lava Jato. É vapt-vupt. 

A história não tem fim à vista. Lula pode ser preso num dia e solto no outro. O imbróglio jurídico ainda não acabou e não se sabe o que vai acontecer. Nem quando. O fato é que o julgamento tem sido político e, neste momento, retiradas a Lula as hipóteses de recorrer em liberdade, a questão passa a ser eminentemente política. A política é a praia do ex-presidente e isso recomenda um olhar atento para as decisões deste dia.

Há muito mais em jogo do que simplesmente trancafiar um ex-presidente. Hoje será o dia D de uma batalha simbólica capaz de marcar os acontecimentos dos próximos tempos. Mais do que a prisão, hoje estarão em jogo as palavras, as ações e, principalmente, as imagens. O país tem um encontro consigo mesmo. O futuro do vai ser influenciado pelos símbolos que este dia venha a produzir.

Não é por respeito que Sérgio Moro proíbe o uso de algemas. É uma estratégia. Retirar as algemas da narrativa deste dia é apenas uma artimanha campônia. O juiz sabe que a imagem de Lula algemado pode criar uma semântica muito poderosa, capaz de fugir ao controle do golpe. Diz o velho adágio que uma imagem vale por mil palavras, mas neste é muito mais do que isto.

Outra patranha do juiz é a de que Lula deve se entregar por moto próprio. É claro que isso facilitaria em muito a vida de Sérgio Moro. Ele sabe que o ex-presidente vai estar cercado de seguidores e que abrir caminho entre a multidão poderia ser o estopim para a exacerbação dos ânimos. O risco de que a situação se inflame é muito elevado nestes tempos de polarização política.

Resistir ou se entregar? Lula pode fazer o jogo do juiz e agir de forma republicana. Ou seja, fazer o que Sérgio Moro determinou. O problema é que ser republicano não tem funcionado. E isso implicaria perder a batalha simbólica. Se o julgamento tem sido político – com o objetivo último de afastar Lula da corrida presidencial –, o ex-presidente pode assumir uma ação política e partir para a resistência pacífica.

O que isso quer dizer? Ora, Lula pode simplesmente ficar onde está e esperar pela ordem de prisão. É preciso ter em atenção que, nos dias que correm, a percepção torna-se muito mais importante que a realidade. As batalhas políticas são, antes de tudo, batalhas simbólicas. A semântica que ficará para a posteridade será construída pelas imagens, ações e movimentos das próximas horas.

É previsível que surjam pelo menos duas narrativas, uma no plano interno, com a velha imprensa no papel de partido de oposição, e outra no plano externo, muito mais favorável a Lula. A estratégia do PT de focar os seus esforços na imprensa internacional tem funcionado. O mundo sabe o que se passa no Brasil. E sabe que o objetivo é evitar que o ex-presidente volte ao Planalto.

A narrativa está contra o golpe. Há uma sucessão de fatos que mostram o apodrecimento das instituições no Brasil, incluindo a velha imprensa antipetista. A morte de Marielle. Os tiros na caravana de Lula. A ameaça de quartelada. E agora a prisão de Lula pode ser o corolário de uma imagética que põe o golpe em xeque. É esperar para ver. Minuto a minuto, até às 5 da tarde.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Só a caserna ouvirá o povo?


POR FAHYA KURY CASSINS

Foi no final do Jornal Nacional de terça-feira que nossos piores medos tremularam novamente. O pessoal da caserna, agora munidos de uma conta de rede social onde adolescentes falam sobre seus contatinhos e adultos que não cresceram muito divagam suas incertezas da vida, veio nos acalmar dizendo que, se precisarmos deles, poderão intervir. Fomos dormir mais intranquilos, cogitando se na manhã seguinte, no caminho ao trabalho, encontraríamos tanques nas ruas.
Porque sabemos que há um contingente muito grande de rapazes em quartéis espalhados pelo país, a maioria em situações de “prontidão” (aquela guerra que não vem) e em espaços obsoletos. Dizem alguns que nossa soberania depende de termos, enfim, um exército. Mas, talvez, nossa democracia novinha e trôpega não dependa em nada desta força de guerra. Será tão difícil entender? Do que, afinal, querem nos proteger? De nós mesmos?
Fato é que eles têm um trunfo: estão propondo fazer o que uma parte do povo clama. Temerosa verdade, mas, sem dúvida, uma verdade. Desde as inúmeras manifestações e passeatas onde se viam faixas pedindo intervenção militar, até as pequenas e pacatas cidades, como Joinville, onde um idoso fica, por vezes, em frente ao batalhão balançando uma faixa que pede o mesmo, temos um povo que vê a farda no fim do túnel.
As características autoritárias e violentas de um poder militar parecem esquecidas. Talvez nem o próprio meio pelo qual o coronel se expressou tenhamos mais, sob intervenção. Guris que se consideram rebeldes por não gostar da escola são parte do público entusiasmado da defesa das fardas, guris que não aguentariam nem uns dias sob a rigidez pela qual o exército é reconhecido. É a ideologia da violência sendo propagada por pais, filhos, declarações, pelas ruas, por partidos, por movimentos e candidatos. Pregamos violência enquanto queremos defender a Democracia – como boa novinha, vítima fácil dos estupradores.
Neste país subdesenvolvido – aviso aos navegantes: nunca deixamos de ser – em convulsão não há tempo para refletir ou temer nada. A cada novo personagem, novo escândalo, novo bafafá, já nos deparamos com novo choque e absurdo. Neste momento, na TV aqui da sala os ministros do STF estão votando o Habeas Corpus. Nós, povo, assistimos à derrocada de camarote.
Gilmar Mendes adere ao coro contra a imprensa. Nos diz claramente que o povo e a opinião pública não devem ser ouvidos. Como a Dilma que não fez absolutamente nada para dialogar com as ruas – entupidas de milhões de pessoas (quando ainda não haviam sido cooptados por movimentos nem nada). Como os políticos, de todos os lados e centros, que se negam a ouvir o povo e reiteram suas balelas e más práticas. A Justiça e a Política se abstêm de ouvir o povo. O que nos resta?
Resta uma meia dúzia de milicos com sentimentos duvidosos a verem (eles também) seu momento de brilhar. E eles vieram dizer: nós ouvimos o povo. Não há nenhuma surpresa em saber que a única coisa que o povo quer é ser ouvido. O resto tomou o país para si e diz que nós não podemos opinar, que nós não sabemos de nada, que o nosso querer é inútil. Receita pronta para o pior.
Gilmar Mendes citou o “volksgeist” e como o nazismo foi chancelado pelo povo, para justificar que dane-se a opinião pública, a chantagem da imprensa e a vontade do povo. Além da canalhice do argumento (invariavelmente todos o são, quando citam fascismos), devemos lembrar que o povo era quem sofria de fome e desemprego na Alemanha entre guerras. O desespero de um povo quer, sim, soluções. E, na onda, pode alicerçar suas escolhas em promessas duvidosas. Um povo em desespero só quer ser ouvido, o primeiro que ouvi-lo será seu líder e terá apoio irrestrito. A quem, então, cabem nossas críticas?

(Deixo aqui uma cena de um importante filme de Bertold Brecht, produzido na Alemanha pré-nazismo; vale o filme inteiro, mas a cena nos retrata muito bem Kuhle Wampe)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Lula, uma candidatura encurralada


Há algumas conclusões possíveis a serem tiradas do jejum com orações que o procurador Deltan Dallagnol (o juiz carioca Marcelo Bretas, cuja carne talvez seja mais fraca, irá acompanhá-lo apenas nas orações) pretende fazer hoje, durante o julgamento do habeas corpus de Lula pelo STF, espalhafatosamente anunciados em sua conta pessoal no Twitter. A primeira: se se preocupassem efetivamente com o bem estar do país, presente e futuro, Dallagnol e Bretas fariam melhor se, ao invés de orações e jejum, renunciassem ao auxílio-moradia.

Além disso, porque sua fé parece funcionar com base em algum algoritmo semelhante ao das redes sociais, Dallagnol não achou que a Lava Jato estivesse sob ameaça quando, por exemplo, o Congresso barrou, por duas vezes, as denúncias oferecidas contra Temer – flagrado em conversas nada republicanas, conspirando com criminosos para garantir, comprando, o silêncio de Eduardo Cunha – pela Procuradoria Geral. Ou mesmo quando Romero Jucá deixou claro que o impeachment tinha como principal propósito, justamente, enfraquecer a Lava Jato, essa que Dallagnol diz defender com jejum e orações.

Sejamos sinceros: a preocupação do Procurador da republiqueta curitibana com a corrupção e os corruptos tem a mesma extensão e sofisticação da maioria dos comentários anônimos que emergem do esgoto, dia sim outro também, aqui nesse blog, por exemplo. O fundamental, no entanto, Dallagnol não diz – e não diz porque seus dotes intelectuais e de analista político estão na proporção inversa às suas convicções religiosas.

Independente do resultado do julgamento de hoje, Lula é um político encurralado, e o futuro de sua candidatura – no momento em que escrevo, ainda incerto – é, para dizer o mínimo, nebuloso. Quer dizer, se o todo poderoso ouvir as preces do Procurador, Lula deixa de ser candidato e vira presidiário, para gáudio de muitos. Mas se os ministros decidirem contrariar a vontade dele (supondo que ele concorde com Dallagnol) e manter Lula solto, nem por isso sua candidatura se tornará, necessariamente, viável. Explico.

A essas alturas, em um ambiente político onde se trata um atentado a bala como se normal fosse, sugerindo tratar-se de uma encenação com fins políticos; ou se justifica o assassinato de uma vereadora negra e de esquerda, um crime que parece caminhar para o esquecimento, é pouco, pouquíssimo provável, que se consiga sustentar por muito mais tempo a farsa de que nossas instituições democráticas seguem “funcionando normalmente”.

Um horizonte nebuloso – Nesse sentido, são gravíssimas as declarações de dois generais do Exército, um deles de reserva, outro ninguém mais que o seu próprio comandante, que a pretexto de defender a Constituição e a democracia, deixam no ar a possibilidade da instituição fazer uso da força para atentar contra elas. Pode ser uma bravata, mas quando proferida por oficiais de alta patente, uma bravata pode ser mais que simples fanfarronice de mau gosto, e especialmente em um momento onde abundam afetos autoritários e o baixo apoio que tem, entre nós, a democracia mesmo a mais formal, é recomendável que os militares permanecem nos quarteis, de onde aliás, nunca deveriam ter saído. 

Mas mesmo que eliminemos o fantasma de um golpe militar, as alternativas nem por isso são alvissareiras. Um dos caminhos prováveis é de uma polarização ainda maior, com uma onda de indignação semelhante a de 2015 que, agora como lá, sirva de pretexto aos grupos e partidos de direita em sua nova tentativa de inviabilizar a candidatura lulista, caso a estratégia da condenação não funcione. Se deu certo uma vez, não há razões para não se tentar de novo, e nunca é tarde para tirar o pó da camisa verde e amarela da seleção e ensaiar de novo os movimentos ritmados daquelas velhas coreografias.

Se sobreviver politicamente e ganhar – dos cenários possíveis, a meu ver, o mais duvidoso –, Lula e o PT estarão frente a tarefa de governar um país em frangalhos, com uma economia ainda em crise e uma democracia em profunda recessão (a expressão “recessão democrática” é do sociólogo Celso Rocha, em texto publicado na Piauí). Não estamos mais em 2002 quando Lula e o PT subiram a rampa do Planalto surfando em uma onda de popularidade e esperança. A partir de 2019, com quem e com quais meios ambos, Lula e seu partido, pretendem responder a um quadro de instabilidade generalizada e estrutural?

A pergunta é pertinente porque, a rigor, Lula está isolado. O partido carece de um projeto para o país e de um programa mínimo de governo, porque salvar Lula se tornou o único projeto que realmente importa. A festejada “Frente antifascista” não existe ou, mais precisamente, não é exatamente uma frente, mas uma articulação de três partidos de esquerda e suas candidaturas. Se a intenção é formar uma frente, a ela deveriam ser incorporados partidos e candidaturas de centro esquerda, como o PDT de Ciro e a Rede de Marina Silva, e movimentos sociais não alinhados aos partidos, além de grupos e lideranças liberais que não se identificam com os discursos raivosos e reacionários da direita conservadora.

Sobra o apoio popular, traduzido nas intenções de voto que ainda, e apesar de tudo, continuam a manter Lula líder inconteste em todas as pesquisas. Mas não está claro como o PT pretende, se pretende, transformar essa devoção quase religiosa em algo com o qual governar. A experiência de 12 anos de governos petistas serviu para mostrar o contrário. Para manter a governabilidade, o partido optou pelos velhos, cômodos e corruptos esquemas e alianças eufemisticamente chamados de “coalizão”. Mas se a fatura foi alta em épocas de estabilidade, é justo supor que quem quer que se disponha a apoiar um hipotético futuro governo petista, não cobrará barato.