quinta-feira, 6 de junho de 2013

Adeus, Mayerle Boonekamp!

POR CHARLES HENRIQUE VOOS

Falar sobre a memória requer muito cuidado. É um composto de simbologias, interpretações e situacionismo cronológico que varia de pessoa para pessoa e que levam à construção da identidade. Cada ser humano tem a sua vida, a sua história, e os seus princípios. Logo, cada um tem a sua memória. Aquilo que é importante para mim, pode não ser importante para você, leitor, ou ainda: lembramos das mesmas coisas mas de formas muito diferentes. Entretanto, quando um elemento da cidade é lembrado da mesma maneira por um quantidade significativa de pessoas, as quais constroem laços afetivos ou funcionais em comum, ele é importante para a manutenção, antes de tudo, de quem nós somos. E deve ser preservado.

Em Joinville (pra variar), o poder econômico e a especulação imobiliária passam por cima disto. O crime da vez foi cometido com a derrubada total do prédio centenário da fábrica de bebidas Mayerle Boonekamp, como mostra a foto abaixo, por uma empreiteira (a qual, por pura coincidência de fatos, é ligada à ACIJ), para dar lugar a uma grande rede de supermercados.


Pode ser que o prédio era velho e sem utilidade. Pode ser que ele precisasse dar lugar ao "moderno", pois era ultrapassado. Pode ser que já não condizia mais com o entorno "desenvolvido". Pode ser que tivesse sido de um empresário já falecido. Pode ser que fosse um lugar "sem vida", com mendigos e traficantes. Pode ser que, nos últimos anos, ele tenha sido um espaço que juntasse todas estas características.

Para empresários do ramo da construção civil de Joinville, o prédio é um empecilho para o lucro.

Está ocupando um espaço em que será construído um grande supermercado. Está ocupando um espaço de grande valor comercial. Está ocupando um espaço com uma possibilidade de uso totalmente diferente do que foi no passado.

Para as pessoas que vivem a cidade e percebem os seus traços e as suas histórias, a derrubada do prédio da Mayerle Bonnekamp foi um crime. Foi uma espoliação de parte de suas identidades. Foi uma privação da capacidade de ver e lembrar não somente a cidade (em um comparativo de como era e como é), mas suas próprias vidades. Foi cambiar o cheiro daquela deliciosa bebida amarga, que reunia amigos em botecos na cidade inteira, por pó e concreto desabados. Foi sentir o dinheiro esmagando a necessidade de se olhar para trás, para se entender o presente. Foi ver a Joinville que não queremos. Foi ver uma Joinville sem controle e sem dono. Foi ver uma Joinville morrer.



Aquilo não servia para o bolso de alguns, mas servia para a coletividade. Seria como, em escala maior, arrancar as palmeiras da Alameda Bruestlein. Seria como se, ao invés de humanos portadores de sentimentos, percepções e heranças, fôssemos robôs programados apenas para o dual casa-trabalho. Frios. Secos. Com um serial number.

Seria como beber uma dose de Mayerle Boonekamp e não se sentir bem.

27 comentários:

  1. Ouvi dizer que será construído um supermercado no local, não sei ao certo. Pode ser que o que vou dizer seja uma grande besteira para muitos, para mim não é e para a cidade talvez também não.
    Poderiam ter preservado a fachada do prédio e também num espaço reservado, contar a história da fábrica. Numa sala, manter objetos pertinentes à fabricação das bebidas, um pequeno stand com garrafas, fotos... enfim, preservar a memória da fábrica que foi referência na cidade. Poderia ser interessante para o comércio que ali irá se instalar, pois teria anexo ao complexo, um pequeno museu.
    A cidade perdeu novamente, playboy! Para muitos, preservar é coisa de velhos.
    Joseph Cookie

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  2. E que tal, aproveitarmos o ensejo e começarmos uma campanha para que os imóveis que não forem tombados pelo patrimônio histórico, porém estiverem na lista de interesse, ao serem autorizados para demolição, como foi o caso, depois de análise do conselho municipal pertinente (este é o rito hoje) fossem obrigados a preservar, pelo menos, a fachada do imóvel?!

    Fica a dica para quem está perto do poder, tentar sensibilizar seus superiores, ou afinal preservar a nossa história, também, não é uma forma de fazer "políticas para a juventude?"

    ;-)


    NelsonJoi@bol.com.br

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  3. A nova estrutura deveria manter a fachada. Enfim, dou gargalhadas com as frases de efeito dos esquerdistas de boutique, como a que está na cópia do facebook, “templo do consumismo”.

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  4. Ué Artur, um hipermercado com várias lojas em órbita, é o que? É templo de consumismo mesmo. Aliás, aqui em Joinville, deve ser mais que isto, é uma Meca do consumismo, pois são nestes locais que a população infelizmente tem que passar até seus momentos de lazer, mesmo que a maioria não tenha acesso a este consumo.
    Em relação à Comissão de Patrimonio, muito me estranha que ao menos a fachada do prédio não tenha sido obrigada à preservar. Talvez sinal dos tempos, os critérios devem estar mudando...

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    1. Poizé,

      E eu que havia me "apaixonado" pelo estilo Udo de fazer política dos primeiros dias do mandato, agora sou sé decepção....

      O homem afrouxou com os servidores, feriado de quinta passada, os servidores não trabalharam na sexta;

      Asfaltaram a estação do trem que é tombada elo patrimônio histórico;

      Estão cobrando dívidas de IPTU que já foram pagas e humilhando as pessoas a voltar para casa para pegar um carne de R$ 22,00 que a prefeitura não deu baixa na época;

      O governo federal DEU milhões para construção de duas nova UPAs (Unidades de pronto atendimento de saúde) e o prefeito deu a declaração de que no momento não seria necessário;

      Burocracia, burocracia e mais burocracia que não tem fim em todos os órgão públicos, sem previsão de melhora;

      E agora, essa comissão de patrimônio, que nem a fachada pediu para manterem.

      Na verdade além de péssimo administrador, o seu Udo está se mostrando que escolheu péssimos comissionados também.

      NelsonJoi@bol.com.br

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    2. Concordo contigo sobre as poucas áreas de lazer e necessidades de ocupar esses “templos de consumo”, sobretudo nos dias chuvosos. A minha critica mira o modo desdenhado que os esquerdistas se referem aos estabelecimentos que empregam, pagam impostos, vendem artigos de necessidade (ou não) e promovem algum lazer (no caso de shoppings). Os esquerdistas de boutique batem o pé, resmungam, citam Marx, usam frases de efeito, mas são os primeiros na lojinha da Apple para atualizar a capinha de suas celulares.

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    3. mas só me digam uma coisa, vcs esperavam que um supermercado fosse templo de quê, reflexão?
      e daqui a 100 anos vão estar querendo preservar exatamente esse templos de perdição, esses infernos na terra que nos facilitam tanto a vida

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  5. Manter a fachada? Aquilo é um horror em decadência! Se fosse preservação de todo um espaço, seus equipamentos e talvez até manter uma produção de bebida mesmo que pequena, aí sim seria preservar a história,mas manter uma fachada feia, sem sentido está longe de preservar a história da cidade.
    Só não entendo a necessidade de citar sempre a Acij.

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  6. Sei que não vai servir pra nada, que é puro romantismo, etc.

    Mas, assim como já faço com outros lugares da cidade, nunca pisarei nesse supermercado.

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    1. Nunca diga: "dessa água não beberei".
      Muitos dos militantes contrários à construção do shopping Iguatemi ("o usurpador do manguezal") em Fpolis estão saindo, felizes da vida, com óculos 3D das salas do Cinemark. Se esse supermercado der um descontinho legal na Pepsi de 2L, aposto que tu vai dar uma passadinha lá.

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    2. Alexandre, apoio integralmente esta sua postura. Eu também tenho esta mesma convicção, empreendimento que não respeita o bolso do cliente, e o patrimonio histórico ou natural, deveria ser alvo de protesto dos consumidores. Eu não piso naquele supermercado da casa amarela, e são pouquíssimos restaurantes, p. ex, da via gastronomica e arredores que eu vou em função da extorsão que praticam e pelo péssimo atendimento prestado. Esta é a força que consumidores e cidadãos em geral infelizmente esquecem de praticar.

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    3. 2 membros, eu preservo -> pic.twitter.com/imfES3nIPp

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  7. Aprecio todos os argumentos à preservação de prédios históricos .... mas querer manter história as custas do patrimônio dos outros é fácil.
    Então, que se faça um levantamento criterioso do que deva ser preservado e que a cidade adquira o local, indenize reforme se for o caso e depois o mantenha. Aí sim estaremos preservando a NOSSA história.

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  8. Aprecio todos os argumentos à preservação de prédios históricos .... mas querer manter história as custas do patrimônio dos outros é fácil.
    Então, que se faça um levantamento criterioso do que deva ser preservado e que a cidade adquira o local, indenize reforme se for o caso e depois o mantenha. Aí sim estaremos preservando a NOSSA história.

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  9. O pior é saber que, com o zoneamento atual isso já acontece, imagine com A NOVA LOT, com as FAIXAS VIÁRIAS, as Áreas Rurais de Transição, os lotes de 240 m² com 10 m de frente. Joinville precisa acordar, caso contrário teremos muito mais que chorar num futuro não muito distante. Mas, até lá, "os de sempre" terão ganho MUITO DINHEIRO.

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  10. Sergio, me desculpe, mas patrimonio histórico, assim como meio ambiente, são direitos difusos da população, qualquer um tem direito ao mesmo. Não interessa que fulano preservou e os outros não. Aliás é prá isto que serve a nova legislação municipal, desonera as obrigações de quem não tem renda para preservar (facilitando através do SIMDEC), e permite as outorgas e permissões de uso para quem pode bancar a restauração. O que está se discutindo é que um prédio com a tradição do Mayerle Boonekamp nem a fachada foi solicitada para preservação, que dirá o resto. E outra, a fachada deve equivaler a 1% da área total do empreendimento.

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    1. Eu entendi, caro anonimo. O que me incomoda é que só botam o cadeado depois que o roubo foi feito.
      Os responsaveis e interessados pela preservação histórica devem .... antecipadamente ... relacionar minuciosamente tudo o que for considerado patrimônio. E zelar pela sua manutenção. Pô! O cabra morre, deixa um monte de herdeiros ... ninguém cuida do espolio ... e um belo dia "a casa cai" - ou a especulação lhe alcança os olhos. E aí? Quem vai pagar a conta?
      Eu ganhei um fusca 1961 do meu avô. Morava no Rio. Tive que alugar uma garagem. Não saia com aquela raridade pra lugar nenhum. Todo mundo elogiava .... mas ninguém queria comprar. Até que veio um colecionador de Brasilia (DF) e levou o bichinho por uma bagatela (muito pra ele a pouco pra mim) Putz! E era só um fusca. Imagina se eu recebesse o maracanã e resolvesse transformar aquilo em estacionamento.
      ** guardadas as devidas proporções

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    2. a lei municipal prevendo incentivos e estímulos à preservação demorou 20 anos e só saiu agora, tem mais de 1000 imóveis para serem inventariados, etc, etc, tudo é muito moroso e complicado, mas o que deve ficar dito é que sempre o poder econômico e político vai prevalecer, assim como foi neste caso.

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  11. Creio que você exagera quando conduz o leitor a crer que a ACIJ controla Joinville. Ela tem influência, são muito bem organizados e muito bem relacionados, mas não é por isso que todo e qualquer movimento que vise lucro tenha a bênção da Associação. Lembre-se que não é necessário ter uma associação intermediária para negociar votos em permissões para construção.

    Eu compreendo a tua indagação, mas tu sugeres que a antiga fábrica deveria ficar exatamente como estava? Digo, abandonada, sendo refúgio para o consumo de drogas e tráfico?!

    Gostaria de saber qual seria a tua sugestão para o uso apropriado do antigo patrimônio.

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  12. E se derrubassemos tudo que é antigo? Até o saudosismo? Seria melhor?

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  13. Prédio sem potencial turístico e visualmente feio. Foi tarde. Vida que segue. Mané!

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  14. Os tolos só conseguem ver o que é visível. Não conseguem ver além.

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  15. E adeus, Charles Henrique também...

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  16. Não foi vendido para o Giassi. As pessoas falam coisas que nem sabem ao certo.

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