quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Não tem graça


Michele e os filhos: Gentili não suporta a felicidade deles
POR CLÓVIS GRUNER

Michele Rafaela Maximino mora em Quipapá, uma pequena cidade do interior de Pernambuco, na zona da mata. Auxiliar de enfermagem e mãe de dois filhos, por uma dessas idiossincrasias da natureza ela consegue produzir cerca de dois litros de leite diariamente. Graças a isso, nos últimos meses Michele foi responsável por até 90% de todo o leite materno do banco de leite do Hospital e Maternidade Jesus Nazareno; somente em setembro, foram 39 litros doados. Um detalhe: Caruaru, onde fica a Jesus Nazareno, é distante 80 quilômetros de Quipapá. Assim, depois de ordenhado e mantido congelado em potes esterilizados, para doar o leite Michele e o marido percorrem e custeiam do bolso as despesas do translado semanal entre sua cidade e Caruaru.

Só uma mulher sabe, efetivamente, as dificuldades de amamentar. Mas não é preciso ser uma para ter consciência dos benefícios da amamentação. Maternidades mantem bancos de leite para garantir principalmente a saúde e, em certos casos, mesmo a sobrevivência de recém-nascidos prematuros. Muitas mães optam pelo aleitamento materno exclusivo até o sexto mês, como recomenda a Organização Mundial de Saúde, e algumas – nem todas, infelizmente – contam com o apoio dos pais, dispostos a fazer o necessário ao seu alcance para garantir o máximo de conforto e condições para a amamentação. Um gesto, diga-se, que demanda além da atenção dispensada ao bebê durante o ato, esforço físico e necessárias horas de repouso. Amamentar pode ser um ato de amor, mas quem já passou por isso, mesmo que na condição de pai, sabe que há pouco de idílico.

Em um país onde o índice de amamentação está muitíssimo abaixo do aconselhado pela OMS – pouco mais de 40% dos bebês brasileiros menores de seis meses recebem exclusivamente o leite materno, quando o percentual ideal é de no mínimo 90% –, Michele deveria ser “mamãe propaganda” de uma campanha que reforçasse a importância do aleitamento. Não foi o caso. No começo deste mês, Michele entrou na mira do comediante Danilo Gentili, e não é novidade a ninguém o que isto significa: Gentili faz parte de uma geração de humoristas especializada em um humor baixo e preconceituoso. Em nome do politicamente incorreto, seu histórico de humilhação contra principalmente mulheres, gays e negros é amplamente conhecido.

Neste caso em específico, entre outras coisas o apresentador do “Agora é tarde” chegou a comparar Michele com um ator pornô, e a amamentação com a masturbação: “Em termos de doação de leite, ela está quase alcançando o Kid Bengala”, afirmou, um pouco antes de exibir, sem autorização, a imagem de Michele e prosseguir o linchamento moral disfarçado de humor. Tudo muito hilário.

UM RISO REACIONÁRIO – Por tentador que seja fazer um exercício de psicologia de botequim para tentar identificar as razões que explicam o medo doentio que alguns homens tem de seios femininos, e do ódio que nutrem pelas mulheres de um modo geral, não vou ceder a tentação. Meu argumento é outro. Historicamente, o riso tem servido para expor o poder e os poderosos. Desde as origens do carnaval, ainda no medievo, ou nos charivari, comuns nas cidades francesas dos séculos XVII e XVIII, o riso e o escárnio foram sempre um instrumento de subversão e crítica de que se valeram os menos poderosos para ridicularizar aqueles que, sob seu ponto de vista, eram tidos como dominadores – o clero, a nobreza, seus patrões, etc...

Esta tendência subversiva e libertária, é possível reencontrá-la no humor mais contemporâneo. Em Buster Keaton ou nos irmãos Marx, no cinema americano, por exemplo; em Oscarito e em praticamente toda a chanchada, ou em Mazzaropi, no caso brasileiro. Mesmo a comédia stand up que, supostamente, inspirou Gentili, segue esta tendência, o que é notório no humor entre o cinismo e o sarcasmo de seus principais expoentes, tais como Woody Allen, Jerry Seinfeld ou Chris Rock. E estou a falar apenas do humor a que assistimos no cinema ou na televisão, mas se deslocarmos para outras linguagens e mídias, exemplos não faltam; e o cartunista Laerte, cuja tirinha ilustra esse texto, é um desses casos.

No Brasil, salvo raras e honrosas exceções, o humor seguiu o caminho inverso. A ridicularizar os poderosos, preferiu adulá-los. A expor as mazelas, as contradições, o grotesco enfim, do chamado “senso comum” e seus muitos preconceitos, tem servido para reforçá-los, multiplicá-los e legitimá-los. Nosso riso é conservador e nossa história, atravessada pelas muitas formas de violência contra as chamadas minorias, explica em parte esta tendência: somos servis, e o ressentimento gerado por nossa sujeição e impotência tem servido de esteio ao ódio dirigido contra aqueles mais frágeis socialmente. O fenômeno vago e ambíguo do “politicamente incorreto” reforçou esta tendência; sua penetração midiática deu a ela uma roupagem moderna e descolada.

O argumento de que o humor não deve ter limites é débil e tem pelo menos dois precedentes a contradizê-lo. O próprio Danilo Gentili desculpou-se com a comunidade judia de Higienópolis depois de sua piada, no mínimo ofensiva, sobre os trens de Auschwitz. Seu colega Rafinha Bastos também se retratou com a cantora Wanessa Camargo - mas, mesmo assim, perdeu a vaga no CQC, um punhado de contratos publicitários e hoje amarga um relativo ostracismo. Nenhum deles, claro, fez o mesmo com os negros, chamados pelo primeiro de “macacos”, ou com as mulheres, depois da apologia ao estupro feita pelo segundo.

No ano passado uma artista afirmou em entrevista que deixou de amamentar depois que levou uma mordida do seu filho. Danilo Gentili e sua trupe nada disseram: afinal, uma mulher loira e linda – além de rica e famosa – não serve para piada porque, entre outras coisas, não terá de agradecer ao estuprador o favor de tê-la estuprado. Já Michele, que amamenta os seus filhos e os filhos de outras mulheres, sofreu a humilhação de ser exposta ao ridículo pelos epígonos do humor politicamente incorreto. Não há outra conclusão possível. O politicamente incorreto não é apenas preconceituoso e autoritário, mas covarde.

25 comentários:

  1. Eu ainda acredito que você vive numa bolha ou trancafiado no seu escritório repleto de livros. Logo, o prisioneiro é você.

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    1. Ops, acho que a carapuça serviu direitinho na cabeça de alguém.

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    2. Acho que o anônimo tem um amor platônico pelo Clóvis e está louco para conhecer o escritório dele. #anonimoestranho kkkkk

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    3. Pode ser, Carlinha. Não é a primeira vez que ele insinua que eu vivo preso entre livros.

      O que me intriga e merecia uma resposta: por que o #anonimoestranho acha que ter e ler livros é tão ruim?

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    4. Uhm..acho na verdade que tudo isso não passa de um fetiche dele!

      #anonimoestranho

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    5. seus lindoes <3

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  2. Muito bom texto, Clóvis. Infelizmente essa geração de humoristas sem talento e sem cultura está deformando toda uma geração de jovens influenciados por essa falta de empatia crônica com as pessoas que vivem uma realidade diferente da delas. Gente incapaz de se colocar no lugar da Michele, que a chama de interesseira e que parece se compadecer com a penalidade que o Gentili vai sofrer, se houver justiça neste país. Ontem publicamos um texto sobre esse assunto e os comentários são pra acabar com a esperança da gente. O engraçado é que os comentaristas defendem a liberdade de expressão, desde que você não discorde deles. Você vê, o Ministério da Saúde deveria intervir, porque esse humor está causando danos aos neurônios dos jovens.

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    1. Obrigado, Cecília.

      Particularmente, acho que comentaristas e humoristas não defendem a liberdade de expressão. Liberdade de expressão é o Danilo Gentili contar piada preconceituosa, algum imbecil achar graça e eu dizer que não gostei.

      O resto é só a boa e velha truculência politicamente incorreta.

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  3. Um milhão de reais quer a Michele Rafaela Maximino. Bastante né?

    Parece-me muito pudor para quem pleiteou publicamente o ingresso no Livro dos Recordes Mundial.

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  4. "No ano passado uma artista afirmou em entrevista que deixou de amamentar depois que levou uma mordida do seu filho. Danilo Gentili e sua trupe nada disseram: afinal, uma mulher loira e linda – além de rica e famosa – não serve para piada porque, entre outras coisas, não terá de agradecer ao estuprador o favor de tê-la estuprado. Já Michele, que amamenta os seus filhos e os filhos de outras mulheres, sofreu a humilhação de ser exposta ao ridículo pelos epígonos do humor politicamente incorreto. Não há outra conclusão possível. O politicamente incorreto não é apenas preconceituoso e autoritário, mas covarde."

    Discordo da posição. Eu vejo regularmente o programa e Danilo faz piada sobre tudo e sobre todos.

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    1. Não é uma posição, é uma constatação. A única vez que Gentili fez piada com um grupo que não algum "minoritário', correu pedir desculpas, e públicas. Sintomático não?

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    2. Até poderia ser uma constatação se você assistisse o programa. Acho que não é o caso não é mesmo?

      Você tem muita arrogância para um só ser humano.

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  5. Vamos nos ater a nosso quintal. Para quê piadas mais nojentas que as tiras do Sandro Cão?

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    1. Pois é. Bem lembrado. Eu gosto das piadas do Sandro e gosto das piadas do Danilo.

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    2. Sandro Cão- O nojento31 de outubro de 2013 14:42

      Falar nisso,Anônimo 09:59,conheces o Xunda,primo do Mário,irmão do Abreu?Então...

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    3. Sandro, foi com isso que vc. conseguiu me agredir??? Sua criatividade, além da boca suja só deu pra isso... ah tá...vai dizer que foi s´´o isso que mereci.... tá bom...

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  6. Essa nova geração de "humoristas" tão transformando bullying em comédia, e só quem nunca foi vitima acha isso engraçado.

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  7. é, novamente os "humoristas" brasileiros se perdem no velho discurso do "é só uma piada". O humor pode muito, mas não pode tudo. Lá nos anos 70 o Professor Italiano Gianni Rodari escreveu: "é preciso estar atento a um aspecto particular do "riso de superioridade". Se o perdermos de vista, ele pode assumir uma função conservadora, aliar-se ao conformismo mais enjoado e enviesado. Aí está a origem de um certo 'cômico' reacionário, aquele que ri de novo, do insólito, do homem que quer voar como passarinho, das mulheres que queram fazer política, dos que que não pensam como os outros, não falam como os outros, dentro das tradições e dos regulamentos... Para que o riso tenha função positiva, é preciso que sua flecha golpeie as ideias velhas, o medo de mudar, a beatice das normas". Gianni Rodari in: Gramática da fantasia. Ed. Summus. 1973, p. 108. O problema dos Gentilis da vida, e de seus seguidores é que eles não tem noção mínima do que seja discurso e do que seja o poder do discurso.

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  8. http://www.youtube.com/watch?v=dYt3NCsYLes

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  9. http://www.youtube.com/watch?v=_zlllVMvXN0

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  10. Muito bom seu texto. O pior é que essa geração de humoristas, para se mostrar culta, diz que suas influências são Woody Allen, Seinfeld, Monty Python ... Ridículo. Foram educados pelo humor do "Sai de Baixo" e "American Pie". E também achei muito pouco 1 milhão de reais, já que dinheiro é a única linguagem que esses reacionários entendem.

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  11. O Crônicas Marcianas aterroriza o pessoal por aqui. Pior que o Cão e que Gentili. O Robleno esculacha pra valer, sem dó.

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  12. Muito legal o texto. Uma análise bem detalhada desse humor vergonhosamente reacionário que tem assolado o Brasil. Gostaria de saber se houve alguma atualização sobre o caso. A Michele foi tão desrespeitada, tomara que ela receba uma compensação logo. Se realmente houvesse justiça sempre, esses "humoristas" iriam parar com essa palhaçada.

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