terça-feira, 21 de junho de 2016

Bang! Bang! Como matar a civilização a tiros...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Orlando, 12 de junho, perto das 3 horas da madrugada. Um homem armado entra na boate Pulse, frequentada por um público LGBT, e dispara de forma indiscriminada contra os frequentadores. Os números da tragédia apontam para a morte de 50 pessoas, com outras tantas feridas. Ainda persistem alguns contornos nebulosos, mas o massacre serviu para trazer de volta a velha discussão sobre a insanidade da posse de armas nos EUA.

Os brasileiros têm o hábito atávico da pagar pau para gringo. De lá para cá é apenas um saltinho. A discussão chegou ao Brasil e abriu as portas para um chorrilho de besteiras que não tem hora para acabar. E como sói acontecer nesses casos, a sensatez é sempre a primeira vítima no bang-bang dos argumentos. O lamentável – mas não inesperado – é que os defensores das armas abusam das falácias e da mistificação.

Um dia destes topei com um “argumento” de fazer subir a mostarda ao nariz. Dizia o seguinte: “Você acredita que os criminosos irão obedecer leis de desarmamento? Você deve ser um tipo especial de idiota, não?!”. A frase trazia uma imagem do ator Clint Eastwood, um conhecido defensor da indústria do armamento (e arquétipo do “macho” para os pouco abonados de cérebro). Aliás, a autoria da fala é atribuída ao ator Sam Elliot e não a Eastwood. Mas quem se importa com pequenos falseamentos?

Os armamentistas apostam na má-fé e no logro. Nenhum crítico das armas espera que os criminosos obedeçam a lei. Caramba! É uma lapalissada: se os caras seguissem a lei não seriam bandidos. É evidente que os defensores das armas têm dificuldade em operar com neurônios, o que torna assustadora a perspectiva de vê-los com armas nas mãos. Nada de bom pode vir daí. Se o cara advoga soluções violentas – e não venham dizer que são de paz – como vai agir quando estiver na posse de uma arma? Perigo.

Ninguém tem dúvidas de que a questão da segurança é o problema mais sério no Brasil. Mas é com mais armas a circular que se resolve o problema? Pelo contrário. Que tal ver o exemplo do Japão, onde não há armas e os homicídios praticamente inexistem. O processo civilizacional pede uma sociedade cada vez mais desarmada, o que implica tirar as armas das mãos dos que não respeitam a lei. Essa é uma das funções dos aparelhos repressivos do Estado.

Eis o nó górdio. O problema da violência nunca vai ser ultrapassado sem uma mudança cultural. E as armas apontam no sentido contrário. Tomemos a Europa ocidental como exemplo. A ideia de possuir uma arma não faz parte do mindset de um europeu. Há um grau civilizacional que torna difícil falar em liberar as armas. Isso fica refletido no baixos índices de crimes contra a vida... e até na própria língua. Em Portugal, por exemplo, poucos conhecem a palavra latrocínio. Não se mata para roubar.

Ah... e antes de terminar, é provável que os defensores das armas não percebam, mas estão na mira da poderosa indústria do armamento. As indústrias vivem da venda dos seus produtos e o mercado interno brasileiro é bastante apetecível. Não são apenas as armas, é o capitalismo. Aliás, em que outro país as pessoas aceitariam como natural uma esdruxularia chamada Bancada da Bala, com deputados financiados pela indústria do armamento?


É a dança da chuva.


24 comentários:

  1. Baço também já pensei que o problema fosse o acesso às armas, mas de um tempo pra cá, vi uma pesquisa de um jovem americano que foi à Islândia tentar entender porque aqueles nórdicos tinham tantas armas, mas não tinham assassinatos em massa e nem altos índices de homicídios.
    A partir daí comecei a questionar duas coisas, educação e desigualdade social. EUA e Brasil são dois países com grande desigualdade e altos números de mortes por armas de fogo. Em comparação Suíça e Finlândia são baises com baixa desigualdade e baixos indices de mortes por armas de fogo. Logo creio que o problema não é o acesso em si o problema é que tipo de sociedade abriga esse cidadão armado.
    E pra concluir, com o nível de desigualdade de falta de educação que domina o Brasil eu prefiro que o porte, venda e aquisição de armas de fogo continue restrito.

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    1. Não estou a dizer que é o problema. A questão é o caminho... mais armas não resolve... a solução passa por impor uma mentalidade no sentido contrário. É um trabalho muito grande, mas que deve ser fundador de uma nova mentalidade.

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    2. mas custa dar uma olhada nos dados prá não ficar falando besteira?

      http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/mapaViolencia2015.pdf

      páginas 87 a 90, ranking mundial de mortes por arma de fogo. Os EUA ocupam a 17a colocação e tem níveis não epidêmicos, segundo os conceitos da OMS.
      E notem q 62% das mortes por armas de fogo nos EUA são SUÍCIDIO.

      A venezuela do baço lidera o ranking, o Brasil é o décimo

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    3. O cara da Venezuela voltou...

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    4. Ué, a culpa das mortes por armas não é do capitalismo? explica aí a venezuela socialista estar no primeiro lugar do ranking.

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    5. Não tenho que explicar porra alguma, seu retardado. Sabes que eu vivo na Europa, certo? Não entendo essa tua fixação pela Venezuela, que eu nunca citei nos meus textos. Ah... sim. Citei numa das minhas teses de mestrado, mas era sobre comunicação. Se quiseres podes ir ao repositório para ler.

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  2. Temos uma Pulse todos os dias, só na “cidade olímpica” brasileira. Mesmo com as facilidades burocráticas para se possuir armas nos EUA, o índice de assassinatos de lá é muito inferior ao de cá, sabe por quê? Por que lá as instituições de justiça funcionam e o assassino tem a certeza que será pego e responderá por seus atos. Aqui, se o meliante nascer na favela, for negro, “matar por amor” e tiver a sorte de ter cometido o crime com menos de 18 anos, talvez consiga até uma pauta no “Esquenta” (programa da Regina Casé) para abrandar o frenesi das fãs, dentre elas a deputada Maria do Rosário.

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    1. Segundo as estatísticas, bater na Maria do Rosário é um esporte nacional...

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    2. que bom que eu preciso gastar teclado.

      Parabéns Antônio.

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    3. ????

      Maria do Rosário é uma hipócrita, Baço.

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    4. É uma opinião, Antônio Carlos. Não a conheço o suficiente para dizer isso. Aliás, nunca convivi com ela...

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    5. Parabéns Antônio Carlos. A Rosário é s greludinha do Lula.

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  3. mas nobre redator, essa é a sua opinião pessoal e particular ... e sempre haverá divergências nesse assunto pois o brasil é um país ainda emergente e recentemente colonizado por etnias e culturas do mundo todo, completamente diferente dos exemplos citados em seu texto.
    Quem sabe os governantes desse país diminuírem as diferenças sociais , não precisemos ser tão "brutos" ... quem sabe , mas e até lá ?

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    1. É claro que é uma opinião pessoal, como é óbvio. E é bom que haja divergências. Mas a fundação de uma nova "cultura" não pode passar por mais armas, porque aí seria uma cultura das armas e, por consequência, de uma visão violenta da sociedade.

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  4. Com bom senso, ninguém acorda com vontade de fazer quimioterapia. Vc faz porque é obrigado a usar dessa violência com o seu próprio corpo para combater um mal maior, que ameaça a sua vida.
    Parece que no Japão e na Noruega a justiça é mais eficiente e dá suporte à polícia para que seja mais "persuasiva" no combate ao desvio social .... isso permite que o cidadão prescinda de qualquer instrumento de defesa: arma, muro, alarme, luta marcial, segurança privada, cerca, carro blindado, ...... Espero que um dia, tenhamos a devida elevação social para dispensar esses e outros instrumentos de proteção individual.
    Até lá, gostaria de ter o direito de escolher, desde que devidamente habilitado e treinado, da mesma forma que com a habilitação para dirigir (carro na mão de um inconsequente, também mata)

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    1. Desculpa discordar da sua primeira sentença. "Bom senso" não existe. É algo totalmente idiossincrático.
      Aquilo que é bom pra mim, eu chamarei de bom senso. Se não for bom pra mim e sim pra você, não será bom senso pra mim.

      Nada agradará a todos. Já diria Nelson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra".

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    2. "Com bom senso, ninguém acorda com vontade de fazer quimioterapia"
      Pois é ..... alguns acordam com vontade de fazer quimioterapia

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    3. Legal Sergio! Gostei do que você escreveu.

      Também não queria sentir a necessidade de ter uma arma.

      Acho louvável ver vários estarem dispostos a abrirem mão de eventualmente usarem este instrumento de defesa e morrerem em prol de uma mudança cultural e/ou social.

      Infelizmente ou não, não tenho esta capacidade e prefiro ter uma arma em casa e, se eu achar que for o caso, usá-la para defesa pessoal.

      Morando no Brasil e na atual conjuntura, prefiro ter uma arma e ampliar as chances de ser um egoísta vivo do que um herói social altruísta morto.

      Se eu achar que não devo fazer uso da arma em momento extremo, não faço... se achar que devo, faço.

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    4. A cultura do medo também é uma arma...

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    5. EM TEMPO.
      "O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade". Albert Einstein

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  5. No Japão e na Noruega, entre outros países, não só a justiça é mais eficiente (e o que é eficiência? Temos a terceira maior população carcerária do mundo, e contando...): a sociedade e os governos também são, entre outras coisas, promovendo políticas eficazes de redução da desigualdade social e de acesso a bens públicos, medidas necessárias e de comprovada eficiência na redução da violência.

    Mas disso quase ninguém fala por aqui, e quem fala, é tachado de "esquerdopata".

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  6. Além do fácil acesso a armas, acrescento outro fator importante como causa das matanças indiscriminadas e desprovidas de qualquer motivação racional, nos EUA: o culto e a banalização da violência que permeia a sociedade norte-americana. Para grande parte da população dos EUA o uso da força bruta e de armas mortíferas na defesa dos direitos individuais é uma lógica inquestionável. Matar alguém para defender seus direitos ou interesses não suscita dúvidas à maioria dos norte-americanos. Esse espírito de violência intrínseco à cultura do povo americano, somado à facilidade de acesso à armas de guerra, acaba por motivar desiquilibrados mentais a resolver seus conflitos imaginários com o restante da sociedade com que convivem, matando seus "desafetos" ou "inimigos" imaginários, já que a morte de pessoas é um detalhe banalizado. Ou seja, a mesma facilidade com que muitos norte-americanos fazem guerras no mundo inteiro, ou com que são capazes de explodir bombas atômicas sobre populações civis de países inimigos e ainda festejar a "vitória", faz com que pessoas desiquilibradas de seu próprio povo pratiquem essa mesma violência contra inocentes que absolutamente nada fizeram para prejudicá-los, pois matar "inimigos" é culturalmente normal. Portanto, apenas dificultar o acesso a armas nos EUA não vai resolver totalmente o problema, no máximo vai reduzir um pouco a matança imotivada por malucos.

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  7. Muitas vezes o ideal e o necessário estão distantes. O ideal seria um mundo sem armas, com polícia e justiça eficientes, mas qual é a nossa realidade?

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