quarta-feira, 28 de junho de 2017

Ecoturismo em Joinville: as oportunidades perdidas

POR RAQUEL MIGLIORINI
Desde os anos 80 vemos que o aumento do turismo no Brasil e no mundo está associado à preocupação também crescente com a preservação do Meio Ambiente. A Educação Ambiental tem mostrado que as pessoas cuidam mais e melhor dos espaços que conhecem.

Encontramos diversas definições para o Ecoturismo na literatura, entre elas  “provocar e satisfazer o desejo que temos de estar em contato com a natureza, de explorar o potencial turístico visando à conservação e ao desenvolvimento e, ao mesmo tempo, evitar o impacto negativo sobre a ecologia, a cultura e a estética dos lugares (Lindberg & Hawking 2002)” e “o ecoturismo é um meio de desencorajar atividades mais predatórias, em favor de um turismo mais leve e seletivo, com ênfase na natureza mais preservada e/ou pouco alterada (Rodrigues, 1999)”.

A ideia principal é evitar impactos negativos, ambiental e culturalmente falando, trazendo benefícios socioeconômicos para a população local, aliando desenvolvimento e preservação ambiental. O planejamento das ações, da ocupação do solo e da gestão desses locais é vital para o sucesso da atividade.

Em Joinville temos algumas Unidades de Conservação Municipais que podem ser exploradas com fins  ecoturísticos:
- Área de Preservação Ambiental(APA) da Serra Dona Francisca, entre a região do  Quiriri e do Piraí, abrangendo o Parque Ecológico Prefeito Rolf Colin;
- Parque Natural Municipal da Caieira, no Ademar Garcia;
- Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) do Morro da Boa Vista, abrangendo o Parque Municipal Zoobotânico;
- Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) do Iririú, abrangendo o  Parque Natural Morro do Finder;
- Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Ilha do Morro do Amaral, na zona Sul.

Das Unidades de Conservação listadas, apenas o Parque Ecológico Prefeito Rolf Colin restringe a visitação, sendo utilizado para pesquisas.

A melhor maneira de utilização desses espaços deve  constar no Plano de Manejo, instrumento técnico de gerenciamento das UCs (Unidades de Conservação). Infelizmente, não há interesse público em levar adiante os estudos necessários para se fazer o Plano de Manejo das áreas que ainda não possuem nem tampouco a atualização dos já existentes. Sem esse instrumento, não temos como saber o que e como preservar.

Infra-estrutura inadequada, má gestão, falta de fiscalização para ocupações irregulares e caça ilegal, ausência de monitores treinados, entre outros, fazem o ecoturismo ser predatório. O que era para gerar conhecimento e sensibilização acaba por levar à destruição do meio. A destruição de espaços causados por padrões inadequados de uso para o turismo compromete o local nos aspectos naturais e sociais.

Ao observarmos a  diversidade ambiental nas Unidades de Conservação do município ficamos encantados com a beleza dos cenários. No Parque Morro do Finder sentimos todas as sensações do interior da Mata ao passarmos por suas trilhas, espalhadas nos 500 mil m2 remanescentes da Mata Atlântica. Já no Parque Natural Municipal da Caieira, com quase 1.300 km2 de área, observamos sítios arqueológicos de Sambaquis em meio a restingas e manguezais.

Aliás, o Parque da Caieira é um exemplo de como o poder público deixa abandonado um local que era para ser motivo de orgulho para os moradores do bairro e da cidade. Um local que sofreu ação de vândalos há alguns anos e que não foi recuperado nem colocado vigilância para evitar novos estragos. O mirante que oferecia uma vista deslumbrante para a Lagoa do Saguaçu, interditado desde sua construção, nunca foi recuperado.

O que me motivou a escrever sobre o turismo nas Unidades de Conservação de Joinville foi o novo Mirante da Boa Vista e seu acesso. A quantidade de turistas e moradores que tem usado aqueles 1900 metros de acesso, seja para atividade física, seja para simples visitação, nos dá a certeza da importância de locais como esse. Poderíamos seguir os demais países e até exemplos nacionais e cobrarmos ingressos. No Mirante tem uma luneta para observação gratuita. Confesso que foi a primeira vez que vi um equipamento desse gratuito. Os ingressos, de pequeno valor, ajudariam na conservação do local e dos equipamentos, no pagamento de seguranças.

O  poder público pode oferecer essas oportunidades de lazer e turismo, porém não deveria ser obrigação dele manter o espaço com recursos de impostos. Sei que é um tema polêmico, mas parece que o restante do mundo pensa dessa forma e pagamos quando usamos o serviço em outros lugares. Santa Catarina tem um exemplo do que falo nos Cânions de Aparado da Serra, em Praia Grande ( Unidade de Conservação Federal).

Creio que precisamos discutir o uso das Unidades de Conservação, a possibilidade de cobrança de ingressos, a cobrança do Poder Público com relação aos Planos de Manejo e o turismo sustentável.

Nosso município tem belezas que merecem ser contempladas de forma ordenada e responsável. Pensarmos em crescimento econômico só com fábricas não é mais possível. O turismo gera empregos tanto quanto as fábricas, com a diferença que os impostos gerados ficam no município de forma direta e não vão para o Estado para depois voltar. O Projeto Join.Valle, lançado recentemente pela prefeitura, não cita o turismo como fonte de renda. Perde-se uma excelente oportunidade.

5 comentários:

  1. O Parque da Bacia do Cachoeira é muito maior, sustentável, gratuito, sem vigilância, e apresenta uma fauna com cerca de 80 espécies livres, sem tratadores. Só falta uma sinalização de "Proibido Pescar" que o Parque se implanta sozinho.

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    1. O desprezo pelo Cachoeira está longe de acabar. Uma pena, pois poucas cidades tem um rio tão belo, com nascente e foz no mesmo município.

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  2. Certamente escreveu tudo, o turismo alavanca e alcança muitos outros recursos, certamente que deveria ser pago sim com certeza, para dar ainda mais valor, pra auto sustentar sem tem que tirar recurso público para manutenção, esta corretíssima, sua afirmação polemica gera quando pessoas sem informação acha que tudo tem que ser de graça, mais infelizmente nosso magníssimo gestor das costas, toda essa beleza, e vamos apreciando esta lindas paisagens que ainda sobrevivem !!

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    1. Não sabemos por quanto tempo!!! Sobreviram!!!

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