domingo, 24 de março de 2013

Uma cidade machista


POR FERNANDA M. POMPERMAIER
Existem pessoas que realmente acreditam que machismo não existe. 

A verdade é que essas pessoas não percebem as sutis atitudes machistas presentes no nosso dia-a-dia. 


Falta de informação, de percepção e um mínimo de empatia são alguns dos motivos.

Tem quem não veja o tratamento diferenciado que dedicam ao filho homem e à filha mulher; a estúpida idéia de que existe mulher para casar e mulher para sei-lá-o-que; o pensamento ultrapassado de que a mulher é que deve ser responsável pelos filhos e pela casa; que mulher tem que ser magra e bonita para mostrar para aos amigos; que mulher deve "se comportar, ser feminina" ou seja, não protestar, ficar quieta e aceitar; que mulher não tem o direito de se irritar ou reclamar que "já está de tpm" ou é "mal amada" (ninguém fala isso de um homem, não é?!); que vivemos numa cultura que legitimiza o estupro em "certas ocasiões" e até culpabiliza a mulher citando a roupa que estava usando ou o lugar onde estava na hora do crime.  Para ficar claro, isso não existe. Estupro é sempre um crime e se a mulher disse Não! apenas uma vez, é motivo suficiente para o parceiro párar tudo. 

Esses julgamentos ignorantes e machistas dão suporte para homens ciumentos e possessivos agredirem suas parceiras todos os dias no Brasil, essa semana, infelizmente, em Joinville. 


Uma mulher de 28 anos, que deixa 2 filhos, assassinada pelo marido, por ciúme, alimentado pelo machismo. 


E o mais revoltante, desculpa a família enlutada, é saber que a tragédia foi anunciada e as pessoas não reagiram. Sabe por que? Porque em briga de marido e mulher não se mete a colher.  Mete sim! Principalmente quando você vê sua filha, cunhada, irmã, sobrinha ou vizinha levando empurrões e pontapés do marido. ISSO NÃO É ACEITÁVEL! Em nenhum tipo de relacionamento. Nunca. Quem cala é conivente. 

Ele era um homem bom e perdeu a cabeça? Me poupe. Ele sempre foi um doce de marido respeitador e amável mas de repente solta o braço na mulher? Como assim?
Alguns trechos da reportagem do Anotícia do dia 20/03:

"Andreza morreu na madrugada de terça. Ela havia sido vítima de agressões do marido na tarde de segunda-feira. Como o casal estava na casa do pai dela, João Cardoso Amaral, 63 anos, a cena foi presenciada por outras pessoas da família. (...)

 Em depoimento, Luís confessou que agrediu a mulher, porém sem a intenção de matá-la. Ele contou que tinha bom relacionamento com a esposa, mas que perdeu a cabeça depois de descobrir uma traição." 

Na frente da família! Na casa do pai! E o cara nunca demonstrou nenhum comportamento de ciúmes, possessividade e agressividade? Ele era super bonzinho e de repente, do nada, ele chuta a mulher.


"À polícia, Luís Carlos Mellies admitiu que chegou a agredir Andreza, mas que teria agido apenas para controlar a mulher, supostamente agitada. Conforme o delegado Wanderson, o marido reconheceu que as discussões começaram por causa de mensagens trocadas pela mulher com outras pessoas na internet. (...) Investigadores levaram Luís Carlos até a casa dele na manhã de terça-feira para recolher o computador e vistoriar a suposta cena do crime. Andreza deixa dois filhos. O pai de Andreza, João Carlos Amaral, diz ter se surpreendido com o desfecho da briga porque considerava o genro um segundo filho. — Era um homem bom. Não pude mais ver o que aconteceu depois da briga na minha casa, mas acredito que ele tenha perdido a cabeça —, lamenta."


Ou seja, o pai da vitima sente compaixão pelo cara, que, coitado, deve ter perdido a cabeça. O comportamento do genro não foi reprimido pelo sogro, que deve ter pensado: Quem nunca, né.?! Quem nunca bateu na mulher? Eu lembro muito bem da polêmica quando o Bruno (ex goleiro do flamengo, lembra?) fez uma declaração apoiando o amigo Adriano que tinha batido na mulher, dizendo o famoso mantra dos machistas extremos:"quem nunca, né". Deu no que deu. 


O machismo mata!


E ele começa a plantar seus fundamentos dentro das nossas casas, quando reprimimos as meninas e mandamos os meninos às casas de mulheres (famosas Marlennes) para ele aprender direitinho que mulher é objeto pra gente usar. Que algumas merecem respeito e outras não, e a distância entre essas duas podem ser algumas mensagens na internet. 


Reportagem: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/noticia/2013/03/marido-que-agrediu-companheira-e-indiciado-por-homicidio-em-joinville-4080470.html


Foto: http://juntos.org.br/2012/11/25-de-novembro-dia-internacional-de-combate-a-violencia-contra-a-mulher/combate-violencia-domestica/

9 comentários:

  1. Esse tipo de crime é incentivado, basta olhar a pena aplicada a homens que matam suas esposas, são radicalmente pequenas. Sem falar que as vítimas são assassinadas novamente nos julgamentos dos seus algozes já que são desqualificadas ao ponto de que se diz: elas mereceram.

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  2. Fernanda, compartilho da sua indignação. A sociedade não pode mais aceitar a violência contra a mulher e a mídia não pode de forma alguma relativizar os crimes contra a mulher. As estatísticas são alarmantes e as causas, como você aponta, estão presentes no dia-a-dia, em atitudes sexistas extremamente naturalizadas.

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  3. A lei mudou, mas a cultura e o 'habitus' machistas não necessariamente. Eventos como este, que fiquei a saber lendo o 'post' e o matéria do link, demonstram que apesar da mudança no Código Penal, para muitos homens "defender a honra" ainda é justificativa para a violência e o assassinato.

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  4. Apesar de não gostar de seus ideais no que se refere a sua replicante e absurda defesa do aborto, sou obrigado a concordar que seu post é composto por uma redação muito feliz e que aponta os fatos incontestáveis da aberração humana na terra. Independente de ser ou não um crime composto de dose de machismo, é antes de mais nada um crime que a sociedade deve repugnar. E cabe a justiça, mesmo que mininada por leis arcaícas e repleta de redação machista, levar o caso a uma condenação justa e com uma pena longa e duradoura. Mas em partes a culpa de crimes como estes é nossa. Digo isso no sentido de acharmos que é problema dos outros estas mazelas da sociedade. Porque acharmos que é normal um brinquedo de um parque infantil cair sobre uma criança que perde a vida? Digo normal porque como sociedade organizada não cobramos a culpabilidade daqueles que foram omissos sobre sua responsabilidade. Porque o secretário de educação da época não está na cadeia? Sim a culpa é dele. Ele não garantiu as condições mínimas para evitar tal situação. O que falar do caso da criança que morreu afogada em uma pia batismal? Porque o bispo da igreja não foi responsabilizado? Sim é culpa dele não garantir um espaço seguro para aqueles que nutrem a fé por aquela religião. E o que tem em comum os casos? A sociedade se calou diante do desfecho juridico simplório, e que não aponta culpados, ou melhor que não fazem os verdadeiros culpados pagarem por seus erros. E quantos outros casos que ficam impunes. Essa pobre mulher certamente apenas fará parte de uma triste e cruel estatística. Assim como tantos outros casos, que em comum tem a interrupção brutal na vida de pessoas que nada tem a ver com a situação. No caso em questão, como ficarão as duas crianças que estão afetadas pela ignorância de um ser humano que não está preparado para fazer parte de uma sociedade? E como fica sua conduta de pai? Não podemos como sociedade achar que o que está acontecendo é normal em uma cidade grande. Não podemos aceitar que uma criança de 15 anos tire a vida de um senhor de 76 anos por alguns trocados. Não podemos aceitar que um bêbado diriga irresponsavelmente e mate uma mãe que está indo para seu trabalho. Existe coisas acontecendo em nossa cidade que não podem ser aceitas por nós. Precisamos entender que o problema não é dos outros, o problema é nosso! E a solução é simples, mas dolorosa, e custa caro. Trata-se de lutar para que o poder público garanta uma educação transformadora e inclusiva. E que as famílias voltem a educar seus filhos.

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  5. Vcs tem razão. E eu fico impressionada com a quantidade de homens jovens (e mulheres infelizmente) que repetem esses preconceitos. As mentes mais jovens não deveriam ser as que mais questionam esse padrão?

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  6. Bota sociedade machista nisso, eu sou migrante e já vi alguns absurdoos

    - nas redes sociais tem as usuárias " de coleira " tipo, elas usam seu nome e o do parceiro "fulana do fulano" ou fulana e fulano ( nunca vejo o sentido inverso porque ?), parece que é condição para que o parceiro "permita" a mulher ter uma conta na rede, só vejo isso aqui nesta cidade.

    - eu não gosto de dirigir, quem dirige é a minha parceira e cansei de ver homens motoristas se transformarem quando percebem que é uma mulher ao volante, só que ela é motorista experimentada ( classe C ) e não se intimida além de que nosso carro é potente ela não cede ultrapassagem forçadas mais ainda quando tentam forçar na base da intimidação rs.

    - já vi casos cujos pais tem imóveis e sempre deixam o melhor imóvel para filho ou então só constroem casas para o filho e nada para a filha ( devem pensar ah ela vai casar e o marido que resolva) e tudo com a aquiescência da esposa/mãe machista.

    Joinville na mentalidade ainda está na primeira metade do século XX, esta é a triste realidade que constato no dia a dia e vai demorar muito para mudar porque pais continuam a criarem filhos e filhas machistas.

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  7. Nestes 6 ou 7 anos, aprendemos na prática que a conquista da lei Maria da Penha não significou automaticamente um fim à violência, nem que a lei tem sido devidamente aplicada. Isto porque a violência é um dos fundamentos da opressão das mulheres, e o sexismo e misoginia são parte do pensamento hegemônico e da prática dos operadores do direito. E porque os homens continuam batendo nas mulheres, e porque o machismo continua matando 10 mulheres por dia no Brasil.
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  8. Acredito que falta um pouco mais de educação (urbanidade) para a maioria dos casos de agressão, pois esses tipos parecem os mesmos que furam filas, dirigem acima da velocidade, estacionam em qualquer lugar de qualquer jeito, colocam o som no carro até sangrar os tímpanos, enfim é toda uma "CRASSE" de sem noção que podemos dizer com orgulho ser produto cem por cento nacional. Esse é o nosso Brasil que para contribuir com tais mazelas nos apresenta os resultados deprimentes do Enem. Infelizmente estamos a milhões de passos do paraíso.

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