quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Este não é um texto sobre o Trump
















POR FILIPE FERRARI


Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do século XX, certa vez falou que o tempo mais difícil para um historiador é escrever, é aquela na qual ele vive. Afinal, ele está imerso em seu próprio tempo, sem a distância que muitas vezes o objeto científico demanda, e o sujeito histórico, que escreve sua própria história e de seus contemporâneos está sujeito a um bombardeio de opiniões, sejam ela dos pares, da mídia ou de qualquer outro meio. E nesse ponto, Hobsbawn brilhou ao descrever o seu século, o século XX, na obra A Era dos Extremos.

Senti isso na pele ao querer escrever um texto sobre a eleição do Donald Trump, e no processo, me deparei com mais de dez abas abertas no meu navegador com os mais diversos textos. Desde a análise apocalíptica de John Carlin para o El País, até o ponderamento ao avesso do filósofo Slavoj Žižek. Tanta gente melhor do que eu estava tendo dificuldades para entender o fenômeno, então por que eu conseguiria? O Clóvis Gruner colocou essa semana em sua conta no Facebook uma fala que traduz exatamente o que eu senti:
“Quer dizer, a gente não consegue serenidade pra tentar entender o que "realmente aconteceu" nas nossas eleições municipais, e acha que vai conseguir fazer análise sensata das eleições estadunidenses?”

Já que eu não sou nenhum Hobsbawn, e não tenho essa pretensão, vou discorrer sobre o uso de termos. O Felipe Silveira foi brilhante ao pedir que “Melhoremos” a algumas semanas atrás, especialmente quando falamos. Nessas eleições estadunidenses, o que muito se viu foi a comparação de Trump a Hitler, e muitos chamando o estadunidense de fascista. Esse é um excelente exemplo. O termo “fascista” não pode ser usado levianamente. Senão, acaba que nem no conto do menino que gritava “lobo! Lobo!”. Quando aparecer o fascismo, ninguém mais vai acreditar. Trump é racista, misógino, sexista, e insulta sempre que pode mexicanos, muçulmanos, negros, emigrantes e mulheres (e fala fino com o Putin). Obviamente Trump é um problema, mas ainda creio que ele vai ser mais um problema para os próprios estadunidenses (e para os mexicanos) do que para o resto do mundo. E agora, pensar que a maioria do eleitorado estadunidense concorda cegamente com esse discurso de ódio, é fazer uma análise tão rasa quanto falar que o Rio de Janeiro é em sua maioria fundamentalista religioso. Os problemas são outros.

Os Estados Unidos jamais se tornarão um país fascista, no sentido histórico-sociológico da palavra, pois as próprias instituições da democracia norte-americana impedem esse movimento. A história do Grande Irmão do norte é construída obviamente na exclusão social dos negros, do genocídio indígena e outras problemáticas, mas é lá também que surgiu um Martin Luther King, um Harvey Milk, um Muhammed Ali, e várias outras figuras que lutaram pela liberdade e pela justiça social. Como eu sou um otimista, e gosto das simbologias, ouso dizer que os Estados Unidos são maior do que Trump. A América (o continente, óbvio), é maior que Trump. Que nossos irmãos americanos do norte lembrem-se sempre das suas palavras fundadoras, escritas por Thomas Jefferson (com uma grande pitada de John Locke): “que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estas são a vida, liberdade e busca pela felicidade”.

11 comentários:

  1. Que bom que teve esse discernimento e nos poupou de mais um texto intelectualoide esquerdista. Porque estou farto de ver postagens em redes sociais chamando os estadunidenses de fascistas enquanto replicam posts de “pensadores” de twitter, como Madonna (que afirmou entregar a periquita a quem votasse na Hilary), Kate Perry (que ia posar nua, caso Hilary vencesse) ou da Lady Gaga que se fantasiou de “nazista” em um comício de Hilary e ameaçou fazer sabe-se lá deus o quê se não votassem na democrata. E olhe que lá parece não haver problemas com leis do tipo Rouanet parecidos com os que tivemos aqui no governo petista.

    Eduardo, Jlle

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  2. Tal como no Brasil, os EUA não são feitos apenas da Califórnia ou Nova Iorque com seus hipsters-classe-média-alta-progressistas. Que os perdedores aceitem a democracia como ela é, ou a democracia só serve para um grupo de vencedores?

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    1. Tem que dizer isso pra quem pediu o impeachment da Dilma. Ops.

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    2. Pediram o impedimento da presidente, a chapa (com o vice) está no governo até hoje...

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  3. Ao ter que se ter cuidado quando falamos em candidato do ódio. Seria o ódio a contraposição justa do amor, em termos afetivos do que nos referimos quando estamos sentindo o amor, ou manisfestando o amor? Na psicologia dos afetos amor é um desejo intenso por um objeto, que passa ser o objeto que passa dominar nossa mente, e ódio não poderia ser descrito desta da mesma forma? Ou seja, ao odiar estaríamos colocando a mesma energia psíquica, com um sinal trocado. Então por que a esquerda diz que trump é o candidato do ódio? pq ele em nenhum momento diz isso. É pq o trump se tornou o objeto da mente da esquerda, com sinal trocado, é a esquerda que odeia Trump.
    E gostei de Luiz Felipe ponde que diz que trump ganhou as eleições, pq conseguiu falar com as pessoas reais, preocupadas com seus empregos,comida, férias, e noites de sexo. Se vai conseguir ajuda-las é outra questão.
    E Felipe as vezes há de se desconfiar do Otimismo, pois ele as vezes é a forma mediogre que lidamos com o vazio/melancolia de existir, incapaz de lidar com as questões mais bestiais da vida, o otimismo surge como remédio para passar noite escuras.

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    1. Fábio, o cara tem que falar "ódio" para ser o candidato do ódio? Se as declarações machistas, misóginas e xenofóbicas dele não te convencem, não sou eu que vou fazer isso.
      Quanto ao otimismo: sou cristão protestante.

      Abraço!

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    2. Penso que a diferença entre Trump e Hilary resume-se apenas pela fanfarronice do candidato.

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  4. Não me convencem.
    Pois as declarações machistas, xenófobas, misóginas podem fazer parte de preconceitos, medo desconfiança,ignorância, cultura,que nada tem haver com ódio. O ódio, foi alcunha da esquerda.
    Por exemplo: o preconceito do enrustido, é um mecanismo de defesa,pois como ele tem "medo" que descubram que ele é gay, a manifestaçao do preconceito é uma espécie de disfarce, inconsciente.
    Uma comunidade fechada que recebe pouca visitas desconfia naturalmente depessoas estrangeiras que se chegam aquela comunidade sem que isso seja ódio.

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  5. É o que sobrou para a "esquerdalha": xilique e gritaria!
    Huaaaah! Boa noite! zzzzzzzz...

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