quarta-feira, 4 de março de 2015

Vai, Udo, na contramão do mundo!

Clima não é problema para os bicicleteiros de Copenhague
POR FELIPE SILVEIRA

Não esqueço de uma resposta do então candidato Udo Döhler durante a campanha à prefeitura. O tema era mobilidade urbana e Udo respondeu de bate-pronto: 300 km de asfalto. Essa era a proposta do empresário para um dos temas mais complexos e debatidos da política do nosso século.

Estava ainda no início da corrida eleitoral e acredito que Udo tenha dado respostas melhores até ser eleito. Mas, pra mim, aquela resposta foi bem representativa sobre o candidato da elite econômica da cidade. Um homem despreparado para a política do século 21, que adentrava ao jogo para seguir uma tradição da dominação econômica e política local.

O problema é que essa velha política ganhou o espaço que precisava nos últimos dois anos e tem deixado pra escanteio temas relevantes e que estavam mais avançados em um passado recente. Como o caso das políticas públicas em prol da bike como meio de transporte.

O trânsito de Joinville está cada vez pior e a gestão municipal tem uma enorme parcela de responsabilidade. Um exemplo: o atual governo deixou a cidade sem estacionamento rotativo até hoje, o que gera um caos em busca de lugar para estacionar no centro da cidade. Os donos dos estacionamentos privados é que se deram bem na história. Sem contar a questão do transporte público (que deixa empresas de outros homens da elite econômica operar um serviço público sem devido processo licitatório), sem contar que não há novidade alguma para quem opta pela bike como meio de transporte, sem contar que não se faz o debate sobre o assunto. Também pudera. Na campanha, Udo disse que no futuro todo mundo vai ter carro. Deve pensar que não importa o resto.

Enquanto isso, carros (veículos a motor em geral) seguem como um dos fatores que mais contribui para a poluição do planeta. Além de outros malefícios, como o alto número de acidentes de trânsito e os gastos com saúde por causa do trânsito (por causa da poluição ou por causa de acidentes).

Udo vai na contramão de grandes cidades do mundo que já passaram pela experiência do foco no transporte individual. Cada vez mais cidades da Europa e dos Estados Unidos fecham seus centros para carros e desenvolvem políticas de incentivo ao uso da magrela no dia a dia. Enquanto Boston derruba elevados, aqui ainda estamos tentando arrumar dinheiro para construí-los. Enquanto Londres limita a circulação de carros na área central, aqui incentivamos cada vez mais. Enquanto Copenhague integra a bicicleta ao ônibus, aqui sobrecarregamos os motoristas com a dupla função de cobrador.

As desculpas para não usar a bicicleta são muitas, mas as soluções são fáceis e conhecidas. Por exemplo, empresas podem instalar vestiários com chuveiros para funcionários se trocarem, além de estacionamento para as bikes de funcionários e clientes. O governo pode atuar para diminuir a velocidade média dos carros, com radares (oi, Udo) e campanhas de educação no trânsito. Também é preciso investir em vias para ciclistas em determinados casos. Integrar a bike ao transporte público também é fundamental, assim como gerar empregos perto dos locais de moradia das pessoas, diminuindo as distâncias que precisam ser percorridas.

É preciso colocar a bike na agenda novamente. Tratar a mobilidade urbana com a cabeça no século 21, com benefícios para as pessoas, e não com ideias ultrapassadas, elitistas, maquiadas como planejamento para o futuro.


Abaixo, um vídeo do projeto Cidade para Pessoas sobre a política de mobilidade urbana adotada em Copenhague, que a transformou em referência no assunto. Vale muito a pena ver:

11 comentários:

  1. Olá Felipe
    Concordo plenamente com teus argumentos .... a gestão está em outra época e em outro lugar. Coisa que infelizmente está se tronando lugar comum em todos os níveis da administração pública .... sem contar na discrepância entre o que é prometido em campanha e o que acontece quando a bunda esquenta a cadeira.
    Só queria fazer uma observação sobre a parte que diz:
    "o atual governo deixou a cidade sem estacionamento rotativo até hoje, o que gera um caos em busca de lugar para estacionar no centro da cidade. Os donos dos estacionamentos privados é que se deram bem na história".
    Acompanho com alguma proximidade os debates a este respeito. Particularmente defendo a eliminação completa - ZERO - dos estacionamentos em vias públicas nas ruas do centro. Via pública não é local para o particular deixar o seu enlatado tomando banho de sol. Via pública é para transporte coletivo, bike, pedestre, veículos de abastecimento do comercio (este com paradas rápidas e pontuais). exceções localizadas para táxis, deficientes e numa escala um pouco menor, para idosos que verdadeiramente necessitam ---- Cá entre nós, os idosos de hoje tão batendo um bolão.
    Temos que desestimular completamente o uso do veículo individual. O "Belo" vem pro centro de carro porque sabe que vai encontrar vaga. Claro! É muito mais cômodo. Mas, se souber que não há vaga, o cabra nem se arrisca a vir. Para na periferia e caminha duas ou três quadras. O coração agradece, a balança alivia e o pobre do comerciante que investiu o suado dindin na decoração da vitrine é prestigiado com o ir e vir dos "novos transeuntes”.
    Ah ! É uma emergência? Tá excepcionalmente super-atrasado? Perdeu meu’rmão! Vai ter que morrer no estacionamento particular. Os caras vão ganhar rios? Vão. E daí? Vão se dar cada vez melhor. Ou então vem de taxi. Vir de carro para o centro não pode ser uma rotina .... tem que ser uma super exceção.
    Ninguém quer sacrificar o carro. Nem proibir a circulação ou o sagrado direito de ir e vir ..... só não vai ter onde parar. Continuaremos emplacando 2000 veículos por mês. As classes emergentes e os adolescentes ávidos poderão continuar a acalentar o sonho do “poderconsumosupremus” e os vendedores de concessionárias não perderão os empregos.
    Com isso, a cidade terá mais espaços para o cidadão, para o transporte coletivo, para o ciclista, para o convívio, para a cultura, para a contemplação, pra não fazer nada e ficar olhando as pessoas circulando.
    A coisa começou a estragar quando inventaram essa meleca de “manchester catarinense”. Não existe vida nesse conceito. Brinco com o amigo Guilherme Gassenferth – eu queria a Gramado Catarinense, ou num sonho mais aprofundado: a Paris Catarinense ............. bom, mais aí, nós já fugimos muito do tema.
    Saudações
    sergio

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    1. Legal, Sergio. Eu concordo com você.
      Minha crítica é ao fato de o governo Udo não fazer uma coisa nem outra. Não cobra rotativo, o que gera receita pro município, e não tira os carros do centro, como desejamos.
      Abs

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  2. Vamos por partes:

    Então o prefeito tem de deixar de lado a política de investimento em 300 km de nossa ma-ra-vi-lho-sa rede viária e pintar, indiscriminadamente, as faixas de ciclistas como o prefeito de SP vem fazendo. Pergunte aos ciclistas de SP o que eles estão achando de dividir uma faixa de 3 metros com ônibus e caminhões.

    Logo você, Felipe, incentivando a cobrança de estacionamento rotativo por empresas privadas? Aquelas empresas que as meninas se escondiam para que o motorista perdesse a paciência e fosse embora deixando o seu carro estacionado, e depois recebia a multa das “profissionais”?

    Bicicleta só usa quem quer, quem gosta e acha conveniente. O “incentivo” não deve partir do poder público porque deixa de ser incentivo e passa a ser obrigação. O uso deve partir dos cidadãos com apoio das empresas de transporte público. Copenhague e Amsterdã são cidades planas onde chove pouco, tem metrôs, ônibus e trens adaptados para o transporte de bicicletas. Aqui não.

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    1. Perdi o saco de debater com anônimo neoliberaleco.

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  3. Felipe acho que o titulo "O mundo na contramão de Udo" teria sido mais correto.

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    1. HAHAHAHA. Aposto que ele se pergunta sobre isso.

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  4. Recentemente estive em Amsterdam e vi coisas que se alguém me contasse, eu o chamaria de mentiroso. Vi um trem parar para dar passagem a uma ciclista. Lá, ciclista tem a preferência, antes mesmo do pedestre. Abria a janela do hotel e via um mar de bicicletas passando. De dar inveja a qualquer um que sonha com mobilidade. Aliás, depois daquilo eu vi que a grande maioria por aqui, tem que voltar ao banco da escola para aprender sobre mobilidade. Eu já fui ciclista e no meu curriculum constam muitos atropelamentos, isso porque por aqui, a preferência são dos veículos. Mas eu voltei com muita vontade de tirar a magrela do rancho. Até apetrechos para a bichinha eu comprei e se por acaso alguém passar por você e fizer “fom-fom”, sou eu Felipe.
    Ahmed

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    1. Legal, Ahmed.
      Vamos nos organizar para que os bons exemplos de lá sejam copiados aqui.

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  5. a nova leva de blogueiros, meu senhor...

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    1. Pq a nova leva de anônimos tá uma bença mesmo...

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    2. nunca foram grande coisa, nem um nem outro. aliás, nem nos notórios se encontra coisa que preste. sai fora dessa barca furada.

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