terça-feira, 3 de março de 2015

O racismo por trás do preconceito musical

POR FELIPE CARDOSO



“Nossa, você vê racismo em tudo”, disse-me o branco cheio de privilégios e com medo de perdê-los. Pois eu vejo racismo em tudo porque ele está em todo o lugar. E quando um negro tenta mostrar e desconstruir é impedido justamente por quem não sofre com esse grave problema. A cultura escravista ainda persiste. Os brancos acham que até para falar ou denunciar atitudes racistas precisamos da permissão deles.
E para aumentar um pouco mais o desespero dos racistas de plantão, vamos estender a reflexão. Vamos falar do racismo na música.

Ao vivermos em sociedade percebemos que existem diferenças entre as pessoas. E é por meio dessas diferenças que construímos a nossa identidade. Se eu digo que sou “brasileiro” é porque existem pessoas que não são brasileiras. Então podemos perceber que a identidade tem uma estreita relação com a diferença.

A música também contribui para mostrar a diferença entre as pessoas e a construção de cada identidade dos indivíduos na sociedade. Até aí tudo bem. Mas o que escreverei aqui tem a ver com o etnocentrismo e o racismo existente em nosso país.

Como já havia citado no texto anterior, o etnocentrismo, segundo Everardo P. Guimarães Rocha, em seu livro “O que é etnocentrismo”, é:

“... uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é existência. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc.”.

Logo, muitas pessoas se acham no direito de pensar que o seu estilo de música preferido é o melhor, o mais correto. Mesmo desconhecendo outros estilos, acham que podem discriminar pessoas que gostam de outros tipos de música.

Como citei no outro texto, desde o período colonial, tem-se no imaginário popular que tudo o que é/vem do negro é visto como ruim e tudo o que é/vem do branco é visto como bom e civilizado. E podemos ver que, até hoje, isso se reflete em diferentes setores da nossa sociedade, inclusive na música.

LOCAIS DE PERDIÇÃO - O samba, por exemplo, nasceu dos batuques dos escravos, no século XIX. Assim como a capoeira, o samba durante muito tempo foi perseguido e proibido de ser tocado. A elite branca da época não via com bons olhos o estilo musical e os locais onde se realizavam os pagodes eram considerados perigosos, sujos, verdadeiros "locais de perdição". Mas, na verdade, o preconceito contra os negros estava por trás desse modo de ver as coisas.

Demorou bastante tempo para o samba tornar-se o que é hoje. A cultura teve que ser aceita pelos brancos para poder ganhar mais popularidade. Inclusive muitos artistas brancos se influenciaram no samba. Somente a partir daí que os sambistas começaram a ter o respeito merecido.

Um trecho da música de Vinícius de Moraes traduz bem o que quero dizer: "O samba nasceu lá na Bahia, se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração". O samba agora é “branco” na poesia, ou seja, é bom, podem escutar.

A partir de 2005, o samba de roda tornou-se um Patrimônio da Humanidade, um título concedido pela Unesco (órgão da Organização das Nações Unidas) para as mais autênticas manifestações culturais.

A mesma perseguição que o samba sofreu e a mesma apropriação cultural que passou e passa até hoje, aconteceu e acontece com o rap, com o axé e com o funk.

Durante a década de 1990 esses três estilos ganharam muita força no Brasil. Dominando a periferia e trazendo muito ritmo para as festas e bailes, mas sofreram resistência justamente por causa da sua raiz negra.

O rap, responsável por demonstrar a realidade das favelas brasileiras, foi perseguido e proibido de tocar em rádios, pois era considerado uma cultura marginal, ou até mesmo “sem cultura”. Racionais Mc’s, RZO, Facção Central, Sistema Negro, Consciência Humana, Realidade Cruel e tantos outros grupos e artistas mostravam e ainda mostram, através de rimas, todos os acontecimentos da periferia e denunciavam / denunciam o descaso do governo com o povo preto, as corrupções e as injustiças sociais.

O funk e o axé traziam a alegria para a periferia. Os bailes e as micaretas sacudiam o povo do morro, mas não podiam sair dali, assim como na escravidão, a música e os negros deveriam saber onde era o seu lugar.

Mas com o crescimento do interesse financeiro do setor fonográfico, investiu-se muito para tentar agradar a “população superior”, apropriando-se da cultura negra, mais uma vez. Cantores brancos passaram a se utilizar dos estilos periféricos e começaram a ganhar destaque na mídia. Mais uma vez a cultura negra precisou passar pela aprovação branca para ser tolerada.

ARTISTAS EM TRANSFORMAÇÃO - Para conseguir espaço e destaque pelo seu trabalho, muitos artistas tem que passar por uma transformação. Suas letras tem que ser alteradas, sua aparência tem que ser mudada  e moldada, assim como o seu comportamento que tem que ser “padrão branco de qualidade”.

Quem não segue a regra corre o risco de perder a visibilidade. Não acredita? Tati Quebra Barraco, diva do “proibidão”, não quis mudar as seu estilo de música e, aos poucos, foi substituída por Anitta e Valesca Popozuda que, recentemente, decidiu trocar o “my pussy é o poder”, “se elas brincam com a xoninha eu te dou ate o cu”, por “beijinho no ombro”.  Mc Serginho foi substituído por Naldo Benny, Mc Rodolfinho e outros ostentadores, que iludem a juventude negra, fazendo publicidade de coisas fúteis, influenciando em algumas escolhas ruins.

Eles querem se apropriar da cultura, apenas isso. Dar visibilidade não.

O mesmo aconteceu com as letras contundentes de Mv Bill, Facção Central, Racionais e tantos outros rappers. Alguns tiveram que se adaptar ao mesmo modelo para conseguir sobreviver e outros perderam a visibilidade para pessoas com discursos romantizados, rimando “ão” com “ão” e transformando um estilo que deveria representar a favela em um capítulo de Malhação.

Projota, Rashid, Emicida, Flora Matos vêm com um linguajar bem mais sofisticado e leve, muitas vezes sem críticas em suas letras, assim ganham espaço até mesmo nas rádios.

Você deve estar pensando: “nada a ver, isso pode ser apenas uma transformação cultural da juventude atual”. Ok, mas então por que raios esses estilos não ganharam visibilidade antes? Por que não podiam ser aceitos do jeito como eram? Justamente por que eram pretos. Justamente porque falavam verdades e incomodavam aqueles que se achavam superiores a tudo e a todos.

Antes as letras não eram “brancas”, não eram consideradas “civilizadas”. Não agradavam os ouvidos da cultura branca. Hoje são e agradam os ouvidos brancos e podem ser tolerados.

Mas você percebe que não houve transformação cultural nenhuma quando “rolezinhos” são perseguidos e jovens apreciadores de funk são proibidos de frequentar locais reservados “azelite”. Quando shows de rap são impedidos de acontecer. Quando a polícia continua atirando em pessoas que saem de bailes funks na periferia e continua prendendo pessoas injustamente por vestirem roupas largas.

O que eles querem é apenas se apropriar dos nossos estilos para cantar o que eles querem ouvir.

Ainda hoje a cultura negra enfrenta muita resistência e sofre muito com o preconceito. O ar de superioridade do período escravista pode ser sentido em cada comentário quando alguém passa com som alto ouvindo funk, rap ou pagode ou a cada comentário virtual em clipes desses segmentos lançados na internet.

CULTURA SUPERIOR - Esta suposta superioridade do bom gosto musical desenvolveu-se no período colonial e está atrelada a dois fatores principais: o fator financeiro/social e o fator intelectual. O primeiro é que as pessoas ricas, de classes mais altas possuem gostos mais refinados e melhores que as pessoas de classes mais baixas. Por isso todos deveriam segui-los, pois a cultura deles é superior. O segundo fator é o da intelectualidade, afinal todos querem ser associados a grupos de pessoas inteligentes. Logo, o estilo musical deve representar essa intelectualidade e tudo o que não tiver o mesmo requinte, não presta. Eles possuem uma “cultura superior” que os menos desenvolvidos não têm.

Mas graças ao poder da internet tais pensamentos podem ser desconstruídos. Mas devemos ficar atentos, pois a todo o instante eles tentam se apropriar da cultura negra para lucrar e, ao mesmo tempo, apagar a essência de tais culturas, enfraquecendo, assim, a identidade negra no Brasil.

“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar. O morro foi feito de samba, de samba para a gente sambar”.

“É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”.

Algumas verdades sobre a nossa cultura preta e genial, que vai de Cartola a Tati Quebra Barraco. De Leci a Sabotage. Da mais intensa tristeza até ao maior grito de felicidade e liberdade. Da denúncia à putaria. Nossa cultura luta contra o preconceito, a intolerância e injustiças e faz, principalmente, uma grande luta pela liberdade, sem hipocrisia.

Para finalizar fica o vídeo do rapper Mv Bill deixando o Faustão perdido ao falar algumas verdades ao vivo. (Não é improviso não, a letra faz parte da música sim).

https://www.youtube.com/watch?v=4BEGSHg8TJA

23 comentários:

  1. Bu! Diria o Gasparzinho...

    ResponderExcluir
  2. Pra você: "o racismo por trás de tudo".
    Hipocrisia é uma merda. É a coisa que eu mais abomino na esquerda, parece um castigo.

    Eduardo, Jlle

    ResponderExcluir
  3. Felipe falou, falou, falou, mas no fundo o que temos é uma questão de mercado. Quando os produtores chegam a conclusão que um estilo de música pode dar dinheiro eles tratam de adaptar a estética do estilo ao público alvo deles. Aconteceu com o rock, o samba e agora com o funk. Anitta nada mais é que um produto. Tanto é que suas falas não correspondem ao seu discurso. Mercado é mercado.
    E o único meio de tornar as coisas mais equilibradas é educação. Aulas de música do pré até o segundo grau ajudariam também.

    ResponderExcluir
  4. Detesto quando pessoas usam frases de terceiros para embasar suas opiniões (cujas ideias foram, na verdade, forjadas nas frases). Não compile frases, tente explicá-las com tuas próprias palavras, se é que consegue. No máximo cite o autor, mas tem de ser O AUTOR, e não qualquer antropólogo obscuro só para tentar qualificar a tua linha de pensamento.

    O rap pode ser encarado como manifestação cultural, poética. Racionais é um exemplo de que o rap pode ser inteligente e com letras que trazem algo “traduzido” para o senso comum. Mas a maioria das letras do rap não diz nada com nada, ou diz algo que envolve a especificidades do local onde os rappers vivem. Nesse caso, que escute aquele que divide a mesma experiência.

    O axé é de um gosto dubiíssimo, eu particularmente detesto. Porque ele é negro? Não, porque é uma grandessíssima merda mesmo, tal qual o branquíssimo sertanejo universitário. Ao contrário de cantarolar vogais isoladas, o sertanejo ao menos tem frases que fazem algum sentido.

    Agora o funk, que não é funk. O funk é norte-americano e tem substância tal qual o blues e o jazz. Nasceu na América negra e teve nomes de peso como James Brown, Commodores, Aretha Franklin, Billie Holiday, entre outros. Isso que nasceu nos morros cariocas e que eles chamam de “funk carioca” não tem nada a ver com o funk. É uma espécie rap rítmico com uma batida eletrônica de péssima qualidade. Quando ouço visualizo um monte de diabinhos de mãos dadas dançando e rebolando numa ciranda. As letras atacam a polícia, enaltecem o tráfico e transformam a mulher num carpete. É um lixo! É irritante! É algo que pessoas com mais de dois neurônios não conseguem absorver. É a derrocada da já combalida música brasileira.

    Por fim, a coisa mais estúpida e constrangedora é sua tentativa de rotular pessoas como racistas porque não conseguem aguentar mais do que dez segundos escutando Tati Quebra Barraco, ou Anitta, ou a branquinha Valeska Popozuda. Você não precisa da minha “aprovação branca” sobre o funk carioca, o axé, o samba ou sertanojo universitário, só peço que poupe-nos desses seus textos ignorantes, preconceituosos e sem embasamento algum, que tentam desqualificar quem pensa diferente de você.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Comprovou apenas o que eu disse no texto. Seu elitismo pode até não deixar você enxergar o que há por trás de tudo isso. E você sabe muito bem que lá nos EUA o funk também era criminalizado. Abraço.

      Excluir
  5. "Queixo-me às rosas
    Mas que bobagem
    As rosas não falam
    Simplesmente as rosas exalam
    O perfume que roubam de ti"

    Um dos mais belos versos da nossa música popular brasileira. Composta por Cartola, em homenagem à esposa Dona Zica, do Morro da Mangueira. Pura poesia, e duvido que exista alguem no mundo que não reconheça a beleza desses versos. Como todos sabem, Cartola era negro. Dona Zica tambem.

    "Lá vem ela
    Corrigir o meu bilau
    Pepeca do mal, não deixa anal
    Pepeca do mal, não deixa anal
    Pepeca do mal, não deixa anal

    Já que não quer dar o cuzinho
    Então desliza no bilau"

    Letra de um funk de Mc Livinho, (R$ 18.000,00 por apresentação) que faz grande sucesso no meio "cultural" que admira o gênero.
    Não vou aqui comentar o gosto musical ou poético de quem quer que seja, mas vamos e venhamos, o "preto favelado" do primeiro verso, sabia das coisas.

    Querer iguala-lo ao segundo, por pura fantasia ideológica é no mínimo uma ofensa ao intelecto do ser humano.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ninguém quer igualar ninguém. O que falamos aqui é que foram perseguidos igualmente e o que se luta é pela verdadeira liberdade. O que te dói ouvir "bilau", "cuzinho"? É o tabu sobre sexo que existe no país? Agora uma coisa eu concordo com você, Cartola merecia receber 18 mil por apresentação também e não passar pelo o que passou. O carnaval que ele tanto lutou está aí, também sofreu apropriação cultural e virou comércio que, por sinal, parece ser muito lucrativo. Enquanto sua família nem destaque ganha nesse período.

      Excluir
    2. Sexo talvez não é tabú. Mas a promiscuidade ainda é. Lide com isso! O carnval não deve ser um monopólio "dos negros, para os negros, pelos negros". Isso é ridículo.

      Excluir
    3. Não, meu caro Felipe. Ainda existe muito racismo sim. Disfarçado e camuflado. Mas não me dói ouvir uma música com versos como os referidos acima, (dar o cuzinho....deslizar o bilau....pepeca do mal, não deixa anal...). Não sou nem nunca fui puritano, portanto, nada contra. O que me dói até a raiz do último pêlo do meu corpo, é ouvir gente considerar isso como "manifestação artístico-cultural" E quanto a ser de origem branca ou negra, tanto faz. É puro lixo sim.

      Excluir
    4. Malamute, nunca disse que deveria ser monopólio. Não coloque palavras nos meus dedos kkkkkkk

      Nelson, o tal do sertanejo universitário segue a mesma linha e não é perseguido do mesmo jeito que o funk, muito pelo contrário, só aqui em Joinville temos/tinhamos 3 casas dedicadas a esse gênero. Sem hipocrisia, vai.

      Excluir
  6. O samba, na verdade surgiu através dos batuques nos terreiros de candoblé oriundos da África e Europa. Estes terreiros surgiram primeiramente na Bahia. O samba como gênero musical que conhecemos, foi uma união entre estes batuques e a dança oriunda de rituais promovidos por escravos, através do que conhecemos como rodas de samba. Além disso, sofreu influências de gêneros instrumentais como choro e a seresta.

    ResponderExcluir
  7. Felipe, com todo o respeito , infelizmente, acho que : você vê racismo em tudo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. “Nossa, você vê racismo em tudo”, disse-me o branco cheio de privilégios e com medo de perdê-los. Pois eu vejo racismo em tudo porque ele está em todo o lugar. E quando um negro tenta mostrar e desconstruir é impedido justamente por quem não sofre com esse grave problema. A cultura escravista ainda persiste. Os brancos acham que até para falar ou denunciar atitudes racistas precisamos da permissão deles.

      No início do texto. Veio bem a calhar. kkkkkkkk

      Excluir
    2. Claro que você vê racismo em tudo.

      Você é um racista, porque usa o racismo (que você não inventou) contra os brancos.

      É uma arma e você está usando.

      Excluir
    3. Eu inventei o racismo, tá certinho hein fera? Andou faltando bastantes aulas de história. É uma arma que eu estou tentando destruir, só que o mais complicado é que tem gente que ajuda a esconder essa arma, igual você fez agora. Abraço.

      Excluir
  8. Eita! prevejo a horda dos "não é bem assim", dos "você está exagerando" se contorcerem anonimamente de raiva.

    "Vamos acabar com o samba, madame não gosta que ninguém sambe..."

    Excelente texto

    ResponderExcluir
  9. Detesto qualquer música de origem africana. é meu direito Constitucional a pensamento livre.

    ResponderExcluir
  10. quem tirou o cartola da merda foi um branco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. e acrescento: duvido que cartola e stanilaw tenham se preocupado com a cor da pele um do outro. triste quando cor de pele nos define.

      Excluir
  11. olha como o branco a atende, com respeito

    https://www.youtube.com/watch?v=NWmCbEbMmeU

    ResponderExcluir
  12. Jazz, Blues, Samba, Rumba , Conga são ritmos de origem negra.
    Funk brasileiro , Axé , são ritmos de origem negra.
    Enquanto os primeiros são um deleite para a alma, os dois últimos são
    uma grande merda.
    Isto nada tem a ver com racismo. Genialidade e bosta surgem em qualquer etnia.
    Discorrer sobre a nossa sociedade que sem dúvida é racista é uma coisa, agora misturar qualidade musical com mediocridade talvez não seja a melhor maneira de fazê-lo. Concordo com a finalidade que vc queria chegar com o seu texto. Discordo é do caminho que vc traçou para alcança-lo.

    ResponderExcluir

O comentário não representa a opinião do blog; a responsabilidade é do autor da mensagem