terça-feira, 31 de março de 2015

O negro, a educação e a mídia

POR FELIPE CARDOSO

História:

Enquanto os europeus recebiam incentivos do governo brasileiro para vir trabalhar no Brasil, em uma tentativa de branquear o país, os negros, recém-libertos, ficaram à margem, sem direito a saúde, moradia, terras, comida e, principalmente, sem educação.


Sem oportunidade de estudo, a maioria dos ex-escravos não tinham condições de competir por vagas no mercado de trabalho. Por isso, muitos continuaram trabalhando para seus senhores, enquanto outros se submeteram a trabalhos subalternos nos grandes centros, que começavam a se industrializar.

O reflexo dessa falta de acesso está presente atualmente. Basta olhar os dados e ver que a realidade da população negra brasileira continua ruim. A cultura escravista persiste e vemos isso nos diferentes setores de trabalhos da nossa sociedade.

A maioria dos negros do Brasil estuda em escolas públicas e muitos têm que trabalhar durante o dia e estudar a noite.

Sabendo dessas dificuldades e das injustiças sociais e raciais cometidas no passado, foi aprovada, no final de agosto de 2012, a lei que alterou a forma de ingresso nos cursos superiores das instituições de ensino federais.

A chamada Lei das Cotas (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012) obriga as universidades, institutos e centros federais a reservarem metade das vagas oferecidas anualmente em seus processos seletivos para candidatos cotistas. O prazo para o cumprimento dessa determinação é 30 de agosto de 2016.

Essa lei causou e continua causando grandes polêmicas por conta da não aceitação dos setores conservadores da nossa sociedade. Mesmo sem entender o objetivo da criação da lei, muitos veículos da imprensa começaram a produzir opiniões infundadas, incentivando os receptores a não aceitar esse tipo de lei.

Explicação:

As cotas são sociais e são considerados cotistas todos os candidatos que cursaram, com aprovação, as três séries do ensino médio em escolas públicas ou Educação de Jovens e Adultos (EJA), ou tenham obtido o certificado de conclusão do ensino médio pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Os estudantes com bolsa de estudo integral em colégios particulares não são beneficiados pela lei.

A lei também prevê, dentro do sistema de cotas, que metade das vagas deverá ser preenchida por estudantes com renda familiar mensal por pessoa igual ou menor a 1,5 salários mínimos e a outra metade com renda maior que 1,5 salários mínimos.

Dentro dessas cotas sociais, livres para todos os tipos de cores que se enquadrem dentro das exigências da lei, estão reservados as cotas raciais, dedicada a negros, pardos e índios, conforme o percentual de cada raça indicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ou seja, a distribuição das vagas da cota racial varia de acordo com a proporção de índios, negros e pardos do Estado onde está situado o campus da universidade, centro ou instituto federal. Logo, um Estado com um número maior de negros, terá mais vagas destinadas a esse grupo racial. Para comprovar a raça, o único documento necessário é a auto declaração.

Então, para deixar escuro, mais uma vez: as cotas sociais podem ser utilizadas por todas as pessoas, de todas as cores que atendam os requisitos necessários. Dentro dessas cotas sociais, existem as cotas raciais em que o número de vagas varia de acordo com a proporção de índios, negros e pardos do estado em que se encontram o campus das instituições.

A mídia:

Sem querer elucidar tais fatos, a grande imprensa tratou logo de fazer o seu serviço de desinformação. Os grandes veículos brasileiros mostraram, mais uma vez, que o seu real objetivo é a manipulação e não o compromisso com a verdade e muito menos com a ética.

Em matérias mal feitas e muito tendenciosas fizeram com que as pessoas pensassem que apenas os negros teriam direito as cotas nas universidades. Algumas pessoas acreditavam que valeria para todas as universidades, inclusive particulares. Logo, uma onda de protestos e racismo começou a surgir nas redes sociais.

Tentando fazer com que os próprios negros sentissem vergonha de fazer parte de um projeto de inclusão que demorou muitos anos para acontecer, as mesmas empresas que financiaram e colaboraram para o golpe militar de 1964, investiram em propagandas para dizer NÃO AS COTAS. A Folha de São Paulo, por exemplo, usou até uma modelo negra, com cabelo afro, para dizer que é contra as cotas raciais. (Confira aqui: www.youtube.com/watch?v=xRNtn3UyIdI)

Mas graças a uma grande militância dos movimentos sociais conseguiu-se desmistificar as inverdades propagadas por esses canais. Porém, ainda hoje, esse assunto ainda continua gerando polêmica, justamente por causa da falta de explicações sobre todo o processo.

É de se esperar tais posicionamentos desses veículos que sempre fizeram questão de manchar e humilhar a população negra no país e que ainda se mostra resistente em colocar pessoas de pele escura como protagonistas em novelas, âncoras e editores de jornais, modelos, apresentadores, entre outros. Para eles, os negros continuam não merecendo estudo, pois eles precisam de homens negros para segurar as câmeras e gravar seus programas e de mulheres negras para segurar suas sombrinhas para escapar da chuva ou do sol forte. Não é mesmo Angélica? (Confira: www.pragmatismopolitico.com.br/2015/03/sob-vaias-angelica-e-globo-sao-obrigados-a-deixar-universidade-no-rio.html)

Opinião:

– Existem brancos pobres?

– Sim, existem.

– As cotas são só para negros?

– Não.

– Mas por que batem tanto na questão dos negros?

– Pois ainda existe no Brasil o pensamento escravista, colonial. O racismo está impregnado e os habitantes da Casa Grande não querem ver esses negros quebrarem a corrente de novo. Eles querem manter o status quo para não perderem seus privilégios.

– As cotas raciais solucionarão os problemas da nossa educação?

– Não, mas darão mais oportunidades para as pessoas frequentarem ambientes acadêmicos, terem uma melhor formação e poder disputar vagas com salários melhores. Contribuirão para que vários jovens possam ter outras perspectivas de vida, para lutar por melhoria nas suas comunidades e incentivar mais jovens a estudar.

Cabe a toda população, agora, cobrar de nossos vereadores, prefeitos e governadores uma melhor educação nos ensinos de base. Cobrar melhores salários para os professores, mais especialização para os mesmos e melhorias no ensino, dando suporte e incentivando, cada vez mais, os alunos a almejarem sonhos maiores.

Devemos entender que as universidades federais e estaduais devem ser sim utilizadas por pessoas que não possuem condições para arcar com as despesas de uma universidade, portanto as cotas não tem que ser vista como um absurdo, uma vez que tais universidades foram criadas para os pobres. Mas o que vemos, atualmente, são esses locais sendo preenchidos por pessoas que tiveram condições de pagar escola particular e cursinho. Os mesmos que se revoltam pela Lei das Cotas.

A nossa educação hoje se resume a mercadoria, uma vez que os colégios particulares ensinam seus alunos para passarem em universidades federais para depois investir em publicidade em TVs e outdoors mostrando que foram “os maiores aprovadores no vestibular daquele ano”, seduzindo mais pais a matricularem seus filhos naquele colégio.

Enquanto isso os estudantes de escolas públicas concluem o ensino médio sem qualificação para competir com os alunos de colégios particulares e acabam ingressando em faculdades particulares que, em sua maioria, tem certo objetivo de mercantilizar o ensino sem muita preocupação com a qualidade.

Mas chegará o dia em que todos nós aprenderemos a não avaliar as pessoas por números e excluiremos de vez os vestibulares de nossas vidas deixando, assim, o caminho livre para as pessoas experimentarem e decidirem tranquilamente suas profissões. Para isso, é preciso muito estudo. Portanto, as cotas ainda se fazem necessárias, pois a realidade da nossa educação ainda é a lógica de mercado, nossa desigualdade se faz presente e nossa sociedade ainda é excludente.

14 comentários:

  1. Antônio Carlos, SFS31 de março de 2015 10:07

    Alto lá! Os negros foram sequestrados e escravizados no Brasil. Foram séculos de escravidão, mas os europeus foram trazidos para ocupar o lugar dos negros no trabalho, desta vez empregado, do qual os últimos já não queriam mais fazer parte. Poucos, raros ex-escravos continuaram empregados para os seus antigos senhores, a maioria foi tentar a sorte nos centros urbanos.

    Na década de 50 (ontem!) 57% da população brasileira era composta por analfabetos, não havia 57% da população brasileira parda ou negra. Isso quer dizer que a educação sempre foi deixada de lado pelo governo, para negros e para brancos. Outro detalhe: se a escravidão terminou oficialmente em 1888, portanto há 127 anos e em 1950 a questão educacional era desfavorável para todos, não teríamos aí pelo menos 60 anos para negros e brancos se equipararem no quesito educação? Lembro que o conceito de escola privada teve início no final da década de 70, porém só no início da década de 90 as escolas particulares de popularizaram e uma suposta “elite branca” teve acesso a estudos mais complementares.

    “A maioria dos BRANCOS do Brasil estuda em escolas públicas e muitos têm que trabalhar durante o dia e estudar a noite.” Oras, não é diferente! Você escreve como se todos os brancos tivesses acesso as escolas consideradas boas e os negros não tivesses direitos nem a educação!

    O sistema de cotas é um sistema paliativo! Não percebe que o governo nada faz para melhorar a formação da população para que todos tenham condições de entrar num curso superior? É mais fácil facilitar a entrada no curso superior do que formar pessoas. É mais fácil dar R$ 77,00 do que formar profissionais e facilitar o acesso ao mercado de trabalho. O Bolsa Família e o sistema de cotas são dois exemplos de algo que tinha tudo para dar certo, mas o primeiro virou uma compra descarada de votos, e o segundo, uma propaganda populista. Não tem anda a ver com conservadorismo, quem pensa desta forma, ou está mal informado ou é um intelectual mau-caráter.

    A mídia nunca afirmou que as cotas eram exclusivas para negros, são para indígenas também. Mas como 99% destas cotas beneficiam negros, nada mais normal do que associar as cotas a eles, como bem demonstra o art. 7º: “O Poder Executivo promoverá, no prazo de 10 (dez) anos, a contar da publicação desta Lei, a revisão do programa especial para o acesso de estudantes pretos, pardos e indígenas, bem como daqueles que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas, às instituições de educação superior.”

    Em outras palavras, todos os pretos, pardos e indígenas que cursaram o ensino em escolas públicas (independente da renda familiar per capita) estariam beneficiados neste inciso. Independente também do nível de formação, que sabemos, na maioria das vezes não ser o ideal para adentrar num curso superior em condições normais.

    Repito: a questão não é o benefício das cotas, mas o que o governo faz (ou não faz!) para que no futuro a população não tenha que usar ações afirmativas. As cotas são paliativas, de nada adianta se daqui a sete anos, quando na revisão desse sistema, chegarem à conclusão que necessitará de mais dez anos porque a qualidade da educação básica e fundamental nada mudou.


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    1. Você leu o texto com atenção? Qual governo que você está falando? Eu lá disse que a educação pública era boa? Eu neguei que existiam brancos pobres? O que tu tá falando cara? Quantos negros frequentam colégios particulares? Quer que eu minta para te agradar?

      A lei de cotas beneficia a todos as pessoas pobres, só mostrei que é mito toda essa história de que existem apenas cotas raciais, que o que deveriam existir era cota para pobre e blábláblá, sendo que o que existem são COTAS PARA POBRES. Quem estudou em colégio particular não tem acesso a essa lei.

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    2. A lei de cotas só beneficia pobres que tenham vontade, ou seja, os que progrediriam mesmo sem cotas. os que não tem vontade não serão beneficiados. Aí terão que se pendurar num partido político e esperar serem alçados a Ministros.

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  2. Quer entender a situação? leia a estatística da polícia de Nova York.
    Espero possas entender porque eles se incomodam tanto.
    http://www.nyc.gov/html/nypd/downloads/pdf/analysis_and_planning/2013_year_end_enforcement_report.pdf

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  3. Poderíamos fazer uma proposta de emenda parlamentar, entregando este país aos índios e sermos enviados de volta a nossos países de origem ancestral. Eu aceitaria.

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    1. Acho uma solução covarde. Ajudaria mais se oferecesse soluções mais concretas que contribuam com o crescimento e com a luta por justiça e igualdade. Não desista. "Não baixe a guarda, a luta não acabou" (Criolo).

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    2. Bem, hipoteticamente falando, eu iria para a Alemanha, vc... bem,, vc.....

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    3. nao ha racismo. CADA UM A SEU OVO...Mas o poeta nao cantou as delicias da mama Africa?

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    4. Oras, quer dizer que se tua mae e preta e a minha e branca eu sou racista?°

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    5. Atencao racistas, nao ha maes brancas para todos

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  4. Bom o esclarecimento Felipe, apesar disto sou a favor da meritocracia e portanto contra qualquer tipo de reserva. Em vez de criar reservas o Estado deveria investir mais em ensino superior público.
    Quanto aos ditos incentivos para Europeus desconheço. O que posso afirmar é meu bisavô pagou pelas passagens (Alemanha-Brasil) e pelas terras adquiridas de uma empresa de colonização europeia (pelas quais trabalhou por anos até quitar integralmente).

    Anderson Titz

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    1. Não foram todos os imigrantes que receberam, foram alguns, inclusive sementes para o plantio. Meritocracia não existe com desigualdade. Uma criança pobre não terá as mesmas condições que uma criança rica. Por mais que tenha minhas críticas ao governo petista devo admitir que houve uma melhora nas universidades brasileiras, mas acredito que não seja o nosso problema. O problema está na base, nos ensinos fundamentais e médios. Nossos professores fazem milagres, não recebem incentivos e não tem tempo para se atualizarem. E quando resolvem fazer greves para exigir melhorias, a população ao invés de apoiar, crítica. Obrigado pelo comentário e pela educação :)

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    2. Anderson,
      O que foi feito com os Minha Casa Minha Vida? Os honestos estão saindo porque não aguentam a bandidagem, alguns estão vendendo com contrato de gaveta. Ou seja, tudo que é dado não é valorizado.

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