quarta-feira, 23 de novembro de 2011

É preciso esclarecer, deputado Clarikennedy

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

É ilegal um deputado receber diárias de R$ 670 pelo tempo que está na própria cidade? Claro que não. Mas mesmo sendo legal, os deputados correm o risco de ouvir, de muitos eleitores, a acusação de estarem a legislar em causa própria, oferecendo a si mesmos polpudas diárias (apesar de eles acharem que é pouco).

Mas há outra pergunta que todos os eleitores podem estar a fazer: é moral? Parece que no plano da moralidade os deputados precisam dar explicações aos seus eleitores. E, pelo que podemos ler nos comentários aqui no Chuva Ácida, o caso que está a provocar reações negativas no eleitorado.

O fato é que há um clima de dúvida. No caso de Joinville, seria bom que os deputados representantes da cidade fizessem esclarecimentos cabais – e detalhados –, para que não pairem incertezas. É bom para a democracia e é um direito do eleitor. Ontem o deputado Clarikennedy Nunes escreveu no Twitter que o “procedimento de prestação de contas e controle de tráfego exigem que a cidade origem das viagens seja colocada no roteiro”. O deputado Darci de Matos explicou o mesmo.

Vamos tentar entender. Mas antes de começar deixo um aviso. As linhas que seguem não pretendem por em dúvida a honra de qualquer político. Mas há questões que merecem ser esclarecidas, por uma questão de transparência. Do ponto de vista moral (nunca legal), o que o eleitor pode pensar do caso do deputado Clarikennedy Nunes, pré-candidato a prefeito de Joinville, que recebeu R$ 3.350 de diárias no período de uma semana?

Segundo os documentos apresentados por Charles Henrique, aqui no Chuva Ácida, o deputado teria recebido cinco diárias entre os dias 22 e 28 de setembro por estar em São Bento do Sul, Joinville, Abelardo Luz, Itajaí e Pomerode (os fac-similes estão no texto de ontem). E hoje surgiu a explicação do “ponto inicial” das viagens.

Quem acompanha o deputado Clarikennedy Nunes pelo Twitter sabe que ele é profuso e gosta de informar aos seus seguidores onde está a cada momento, no Brasil ou no exterior. Uma rápida pesquisa nos twitts desse período mostra onde ele esteve nesses dias. Enfatizo – com o objetivo de evitar mal-entendidos – que é uma visão limitada pelo que o Twitter permite saber. O deputado pode ter outras atividades que não registrou na rede social.

Dia 22 - Falou na AL em Florianópolis. Foi para São Bento do Sul entregar um ônibus à APAE local. E rumou a Joinville, onde à noite foi ver uma competição do Bom Jesus.

Dia 23 - Permaneceu em Joinville. Pela manhã teve uma reunião com uma equipe técnica - a que chama GT2012 - para definir o futuro governo de Joinville (com ele de prefeito, claro). Mais tarde teve uma reunião com o pessoal de uma igreja. E à noite foi para uma filiação no PPS. Não é possível perceber se realizou trabalho como deputado, mas pode ter acontecido.

Dia 24, 25 e parte do dia 26 - Passou por Curitiba, Foz do Iguaçu e participou de um evento religioso em Marechal Cândido Rondon. Também anunciou uma ida a Rolândia, no Norte do Paraná. No dia 26, visitou uma fábrica e voltou a Joinville para, segundo escreveu no Twitter, para dar um seminário de Comunicação e Liderança. Os dois primeiros dias foram um fim-de-semana, que é livre e certamente não remunerado. E no dia 26 também não deu para perceber se teve alguma ação enquanto deputado.

Dia 27 - Tudo indica que ainda em Joinville. Teve uma reunião com o futuro secretário da SDR JOI. Também postou um twitt a reclamar que o jornal AN deu a notícia mas não revelou o autor de outdoors contra mais vereadores. Não fica claro, mas é possível que tenha tido alguma ação como deputado.

Dia 28 - Diz que teve um dia puxado na região de Abelardo Luz (540 quilômetros de Florianópolis e 450 quilômetros de Joinville). Ah... escreveu que estava tentando chegar a tempo para a reunião do PSD em Joinville, onde parece ter permanecido.

Como podem ver, Clarikennedy Nunes teve dias cheios. Mas, pelo que se viu no Twitter (e, repito, isso não permite ver o todo) nem sempre ficou caracterizado que estava a trabalhar nas funções de deputado. Ah... o leitor mais atento deve ter percebido que não há referências a Itajaí e Pomerode, que seriam cidades de origem a duas diárias. Sem problema.

Talvez seja apenas o abastecimento do carro. Também é provável que ele tenha esquecido de fazer o registro das idas a essas duas cidades nas redes sociais. Aliás, até me preocupei em procurar alguma notícia na internet e não encontrei respostas. Ou talvez ele tenha participado de acontecimentos sem interesse jornalístico, o que é perfeitamente possível.

Repito. Não estou a por em causa a honorabilidade de ninguém. Mas enquanto os políticos não clarificarem a situação, os eleitores podem cair na tentação de fazer julgamentos errados. Aliás, confesso, entender onde estão os pontos de partida é complicado.
Mas de uma coisa não devemos ter dúvidas: a coisa é legal. Só que do ponto de vista moral dá o que pensar.

17 comentários:

  1. Parabéns pelo blog bem como pela empenho de fazer este levantamento a respeito das viagens deste tão inquieto político joinvilense. Que satisfação ler seu texto, que demonstra alguns possíveis desvios deste que, normalmente vejo tão exaltado por um jornal ai. A sua sensatez foi ímpar. Marcos @m_dovale

    ResponderExcluir
  2. Adorei o "Não fica claro, mas é possível que tenha tido alguma ação como deputado."
    Como falei, não entendo o porque de verba p/ final de semana, muito menos para os dias (terças, quartas e quintas) que deveriam estar trabalhando na assembléia. Ou isso demonstra que não tem tanto trabalho assim por lá ou que eles não estão muito interessados nos assuntos desses dias em que ficam "viajando".
    Ilegal pode não ser, mas é mais uma lei que eles próprios criaram para si. Imagina o que acontece no Congresso?
    Precisamos ficar mais atentos e que mais e mais atos dessa natureza sejam divulgados.

    ResponderExcluir
  3. Só um comentário desnecessário.

    O Kennedy estava na abertura dos jogos do bonja, eu o vi por lá. hehehe

    Maikon K
    www.amor-armado.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Achei o post comedido. Muito paninho quente, mas vá lá, valeu. Queria é saber dos outros que tiveram as diárias expostas... Espero que não pare por aqui e tudo isso chegue à massa, àquela que realmente faz a diferença nas urnas.
    Stefana

    ResponderExcluir
  5. Caro Baço!

    Vejo que preza pela moralidade. Gostaria de uma
    posição sua (sem evasivas) sobre NEPOTISMO.

    Yes, temos bananas. Aqui em Joinville, num
    passado não muito distante, haviam uns petistas
    e que hoje mamam em cargos municipais, um deles,
    na função maxima de prefeito. Pois é! Essas figuras, mais irritadas que siri na lata, bravejavam contra o nepotismo da "Gestão anterior" (eles gostam dessa expressão e a usam
    para qualquer situação) Porém, assim que assumiram o feudo, puseram-se a utilizar a
    prática. E aí? Nada a falar sobre isso? Silêncio que pode comprometer sua bela descoberta.

    Fraternos abraços

    ResponderExcluir
  6. Maldade, como deputado considero um excelente músico, bom twitteiro desde que não seja cobrado.

    Deveríamos aumentar o número de deputados para 150 para melhorar nossa representatividade com outros da mesma "qualidade".

    ResponderExcluir
  7. "Achei o post comedido. Muito paninho quente, mas vá lá, valeu"

    Discordo totalmente. É exatamente este "paninho quente" que fez este texto ferver. Alias, me surpreendi com o Baço neste "post". Se ele tivesse sido agressivo, para mim, perderia todo o valor, mas, da forma como ele colocou, ficou muito bom.

    A credibilidade adentrou exatamente no suposto benefício da dúvida.

    ResponderExcluir
  8. Louvável a sua tentativa de justificar, ou explicar, a diferença entre o "legal" e o "moral". Louvável, também, o alerta para que não nos açodemos em condenar, a priori, no calor da discussão.
    Lição aprendida!
    O estranho é a sua evidente preocupação com a defesa do deputado Kennedy, especificamente. Aliás, diante dessa “amostragem”, me pergunto: quantos, e por quanto tempo, além dos listados, “cometeram” o mesmo ato “legalmente imoral”? Essa pesquisa poderia ser muito reveladora, não concorda, Sr. Baço?
    As reproduções dos documentos falam por si, principalmente uma das do deputado Kennedy, cujas cidades não ficam em um raio médio maior do que 60km, à partir de Joinville.
    Não sou adepto da leitura da Bíblia, mas, como todos os listados o são (pelo menos na sua imagem vendida ao público), cito, até onde me lembro, uma das suas passagens: “Embora tudo me seja lícito, nem tudo me convém...”
    Conviria aos “nobres” legisladores darem uma explicação bem mais, digamos, substanciosa, do que uma mera mensagem no “twitter”. Não sei se convenceria, provavelmente não, e eles sabem disso, mas, pelo menos, poderia ser uma tentativa de demonstrar que ainda resta um pingo de respeito e consideração com o eleitor/cidadão/contribuinte.

    ResponderExcluir
  9. ... como disse o Jordi... estranho, muito estranho.

    Critico muito o estilo de escrita do Baço. Particularmente, em regra, não gosto. Acho arrogante, prepotente e até mesmo preconceituoso.

    Mas, caramba, este texto ficou muito bom.

    É evidente que o Baço esta sendo irônico e ácido, em relação ao Kennedy Nunes... ele não esta defendendo o para lá de questionável deputado nem aqui e nem na china.

    Realmente como a opinião é mesmo individual... esta foi a primeira vez que li um texto dele com um estilo legal, com classe... e, curiosamente, ele recebe críticas que não entendo de ondem vem.

    De qualquer forma, parabéns pelo texto, achei muito bom.

    ResponderExcluir
  10. Ahhh. E quando ele fala que é legal, ele já esta acabando com a defesa do próprio deputado, oras...

    ResponderExcluir
  11. "Muito paninho quente" sim. Não quis ser tão óbvia quanto foi o Nico, em dizer que sentiu uma "quase" defesa ao Kennedy. Mas se o Nico (que conheço por seus comentários aqui neste blog - percebe-se que é uma pessoa que acompanha a vida política da cidade e é muuuito esclarecida)diz que sentiu uma defesa, imagina uma pessoa de difícil discernimento? E para mostrar fatos não é necessário ser agressivo, basta escrever o quê tem que ser escrito. E a função de qualquer jornalista.
    Stefana

    ResponderExcluir
  12. Baço! Peço-lhe que permaneça a debulhar sobre o tema proposto. Um anti-PT aí em cima quer conduzir para o nepotismo, que merece tal pauta, mas não neste momento. A excelente abordagem merece seus méritos. Marcos @m_dovale

    ResponderExcluir
  13. Viagem_ruim@hotmail.com24 de novembro de 2011 14:08

    Anti-PT? Quero lhe dizer que votei na senhora Dilma. Votei também no Lula lá lá. Porém, fico triste em ver que atirei meu voto na latrina.
    Não votei no Carlito e sua trupe porque já os
    conhecia. Quer saber? Vivi muito próximo a essas
    pessoas e sei bem do que gostam. Isso sim vai ser uma bomba quando for divulgadas as fotos e
    gravações.

    ResponderExcluir
  14. Olha... reli o texto e vi 0,0% de defesa do Kennedy pelo Baço. Muito pelo contrário, o que vi foi uma "paulada" muito forte e de difícil contra-argumentação.

    Se isto que o Baço escreveu é uma defesa... fico com aquela máxima de que com um amigo assim eu não preciso de inimigos.

    ResponderExcluir
  15. Dei um "google" no tema ARTs e li bastante a respeito. Parece evidente que temos que aprender com os erros das cidades que fizeram uso deste artifício nocivo e extirpar este “instituto” dos planos de nossa cidade.

    ResponderExcluir
  16. Parabéns aos cinco integrantes do Blog. Principalmente aos polêmicos, pois são eles a engrenagem do debate e das boas discussões. A cidade estava precisando deste espaço. Concordar ou não, ter a mesma visão dos fatos ou não, isso não importa. O importante é o quê está acontecendo nos posts. Muita conversa, discussões e até mesmo as acusações. Que venham mais textos bons como o do Baço, do Jordi, do Felipe, do Charles e da Elisa. Estou até prevendo o que vai acontecer nas eleições...
    Stefana

    ResponderExcluir
  17. Pior que ele vai ser o próximo prefeito de Joinville. Eu acredito na vitória dele.

    ResponderExcluir

O comentário não representa a opinião do blog; a responsabilidade é do autor da mensagem