sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Assim não verás cidade nenhuma








POR SALVADOR NETO

Em 1981 o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão lançou o romance Não verás país nenhum, uma obra mais atual que nunca. A história conta sobre um lugar onde tudo era controlado pelo Esquema, um tipo de governo totalitário do futuro. O cenário é de águas poluídas, avanço do deserto, doenças estranhas, miséria crescente, comidas artificiais com aditivos químicos que injetam tranquilidade direto no sangue, urina reciclada para beber (para os menos privilegiados), o nordeste do país vendido para transnacionais, aquecimento solar...

Passados 35 anos dessa surpreendente antevisão do que poderia vir a ser o país – e porque não o mundo? – em que viveríamos, proporcionada por Loyola, vemos com olhar complacente que nos encaminhamos para esse fim. Após o pretenso fim da guerra fria – acabou mesmo? – nos deparamos hoje com ameaças de bomba de hidrogênio pela Coréia da Norte, guerras sem fim no Oriente Médio que causam um êxodo de populações inteiras, todas fugindo da insanidade humana, que só aumenta. Catástrofes ambientais como a de Mariana (MG) se sucedem aqui e acolá, acabando com a fauna, a flora, e com o homem que não pode mais beber a água limpa, cuidar do seu gado e das suas plantações, e sequer casa pode ter.

Não vou me alongar nos exemplos que temos, pois faltariam linhas e espaço para tantos desastres socioambientais. Mas é claro que avançamos para ter esse mundo do Souza, de Loyola, batendo à nossa porta. O que temos feito para evitar que o Esquema continue a nos pilhar, controlar, envolver e aceitar suas imposições? Quase nada. Souza precisou de um buraco em sua mão para sair da inércia. Em Joinville mais de 600 mil pessoas caem em buracos todos os dias nas ruas, e acreditam que não podem fazer nada para reverter tal abandono. Quantos buracos em ruas, calçadas, precisaremos ter a frente dos olhos para contrapor esse esquema perverso que empurra a cidade em que moramos para ser a cidade do romance de Loyola?

"BOM SENSO" - O esquema do governo atual da Prefeitura de Joinville tem feito muito mal aos cidadãos que acreditam em um lugar adequado para se viver. Com muita publicidade, propaganda em meios de comunicação de massa, tenta impor uma cidade moderna, perfeita, que não existe na prática. A receita oferecida, um empresário com fama de bom gestor construída na mídia ao longo de muitos anos, se mostra um parco arrazoado de boas intenções, mas sem verdade e sem indicações claras para atacar os problemas. Andar pela cidade mostra isso. A última ação, o aumento “bom senso” na tarifa de transporte coletivo, abusivo, mostra o lado para o qual o Esquema atua. E não é o da maioria da população.


A maioria da população está enfrentando os buracos que já fazem parte da geografia da cidade, pois proliferam tal quais os mosquitos da dengue. Continuam a buscar remédios que também continuam a faltar na rede publica de saúde, assim como leitos para que seus doentes sejam bem tratados. Somente nesta gestão de Udo Döhler a saúde já teve três secretários, cujos afastamentos se deram pela ameaça da Justiça à porta. Mobilidade urbana continua a mesma imobilidade, com avanços rápidos para a paralisação da cidade, pois obras de vulto só existem nas entrevistas, promessas. Vagas para as crianças nas creches? Eles resolvem facilmente: cortam o turno integral de pais carentes e – vupt! – lá aparecem mais vagas... Os pais e as crianças? Ah... se virem por aí.

Para piorar, enquanto a incompetência na gestão só cresce e joga a cidade para trás, o Prefeito segue um receituário proposto por algum Goebbels de plantão. Cria histórias para que o povo esqueça as anteriores. É o caso do bordão de campanha – não falta dinheiro, falta gestão -, que tentam esconder agora com Biervilles (qual foi o prejuízo?), cortes de gastos (?), apontando o dedo para a corrupção que grassava na Prefeitura (onde, quando, quanto, quem, valores?), sem mostrar dados concretos. A mais nova é que as prioridades são educação, saúde e salários. Novidade? Não é mais que a obrigação determinada na Constituição Federal. Esse Esquema não é novo, mas continuou na gestão atual, e já vem de muitos anos na cidade.

PODER PELO PODER - Como enfrentar isso? Bem, comecemos por participar mais da política. Comparecer à Câmara e ver o que e como votam nossos vereadores em casos como aumentos, etc. Ver se fiscalizam a Prefeitura, ou somente dizem amém a tudo que vem de lá. E usar o voto, a ferramenta da democracia que sempre pode pelo menos oxigenar a gestão pública. Com consciência, participação e fiscalização. Sim gente, é no legislativo que se legitimam muitas das ações do executivo. E olhem que o atual governo Udo tem maioria absoluta.

E, claro, é preciso prestar muita atenção nos nomes que virão este ano para concorrer à Prefeitura. Há muitos, ou quase todos, que gostam do mesmo que o atual alcaide: o poder pelo poder. Uma cidade como Joinville precisa de um Prefeito que tenha de fato liderança, que inspire e motive a população, que mostre trabalho, intensidade, propostas e ações que engajem as pessoas a crer em um futuro melhor. Precisamos nos empoderar da cidade, ou não veremos cidade nenhuma para nossos filhos e netos. Pessimista, catastrófico? Não, apenas realista. Ignácio de Loyola Brandão anteviu em sua obra muito do que vemos hoje. Nós podemos mudar.

Finalizando, completo um ano de participação neste coletivo Chuva Ácida agradecendo aos colegas do blog, aos leitores de todas as semanas, aos comentaristas e a todos os que apoiam um jornalismo independente. Sigamos em frente, obrigado!

É assim nas teias do poder...

19 comentários:

  1. Nós leitores que agradecemos suas interessantes críticas ao status quo da governança de plantão.

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    1. Mario Sérgio de Santana, obrigado pelo prestígio da leitura e por seu comentário, forte abraço!

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  2. Johansonn Knorring8 de janeiro de 2016 10:56

    Peremptório e magistral!
    Parabéns pelo texto.
    Anãlise precisa da quimérica propaganda que grassa a prócer política municipal de Joinville.

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    1. Johansonn Knorring, obrigado por prestigiar o Chuva e meu artigo, abraço!

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  3. Mário Cezar da Silveira8 de janeiro de 2016 13:27

    Parabéns Salvador Neto!
    Seu texto me leva ao "Admirável Mundo Novo", de Aldoux Huxley; ao "1984", de George Orwell. Mas o atual prefeito de Joinville -Udo Doehler- quando assumem o poder, me lembra muito o porco Max, da "Revolução dos Bichos", do mesmo Orwell. Depois que assumiu o poder casuisticamente esquece o que prometeu em campanha e passou a chafurdar na lavagem da incompetência.

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    1. Mário Cezar da Silveira, o poder corrompe mesmo, e fico feliz por receber seu comentário inteligente, como sempre, obrigado pelo prestígio!

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    2. A Revolução dos Bichos é uma crítica ao Comunismo. Não sei onde ela se encaixa na situação atual.

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    3. Mário Cezar da Silveira11 de janeiro de 2016 08:33

      Meu caro anônimo, a Resolução dos Bichos não é simplesmente uma crítica ao comunismo, mas também um retrato claro da política atual, onde em campanha os políticos apresentam as propostas de um mundo melhor, mas depois de eleitos repetem os erros dos antecessores.
      Sugiro que faça críticas usando seu nome, pois o anonimato o transforma em ninguém.

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  4. Boa reflexão! Apesar da nossa frustração total, não podemos ficar inertes. Nós, povo brasileiro, precisamos aprender a ser mais articulados socialmente, começando por acompanhar mais de perto mesmo o legislativo e executivo...

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    1. Obrigado Malu, é o que sempre digo, temos de participar sempre, não só em eleições. Obrigado pelo comentário e prestígio da leitura!

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  5. Qual é a lógica de se eleger uma pessoa, pagando-lhe R$22 mil mensais para nos sacanear desta maneira? Ruas esburacadas, ruas sem asfalto, falta ade medicamentos nas UBS,s ,aumento abusivo da tarifa de ônibus e aumento de impostos (IPTU) e taxas (de lixo)???

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    1. Prosa & Verso, não há lógica alguma, mas os culpados somos nós, da sociedade que acredita em historinhas de que o fulano é competente, etc, e não outros atributos mais alinhados com o que é preciso para ser um gestor público. Obrigado por prestigiar meu texto, abraço!

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  6. Chega a ser deprimente a sua demagogia... Você reclama (com razão) da cidade que vivemos, cita exemplos das causas que deixaram a cidade um caos, mas esquece que o governo central de Brasília faz uso do mesmo expediente. O Esquema começa lá e reverbera para o resto do país.

    Porque não deixar o título original do livro de Loyola? Já não bastam as versões erráticas sobre as obras de Karl Marx?

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    1. Anônimo, não fique deprimido, vá ler seus blogs de preferência, anime-se. Por isso a cidade está assim, a causa é de longe, nunca daqui, e sua visão construtiva é ótima, sua "casa" começa de cima para baixo, do teto ao alicerce... então tá. Obrigado pela leitura e comentário.

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  7. Gilberto Moreira da Silva10 de janeiro de 2016 19:18

    A incompetência administrativa é tanta que embora a atual gestão tenha conseguido aprovar o orçamento de 2016, ele foi apreciado e votado com possíveis inconstitucionalidades. E qual o busílis? O trâmite do Projeto de Lei nº 300/2015 (que estabelece o Orçamento Anual para o exercício de 2016 e que foi votado e aprovado em 08/12/2015) possivelmente não teve observada a necessidade de realização de múltiplas audiências públicas conforme exigido pela Lei nº 10.257/2001 em seu art. 44. Diante de tais fatos, Maycon Cesar Rocher da Rosa impetrou um Mandado de Segurança – Inconstitucionalidade Material (Mandado de Segurança nº 0324635-87.2015.8.24.0038) contra o referido projeto.

    E o que faz o alcaide? Publica em 05 de janeiro de 2015 o Decreto nº 26.197, para aplicar o orçamento de 2015, aprovado pela Lei Municipal nº 7.890/2014, para o exercício de 2016 face a decisão liminar proferida no Mandado de Segurança nº 0324635-87.2015.8.24.0038 e ao princípio da continuidade que impõe a prestação ininterrupta dos serviços públicos.

    Nos autos dos meus 52 anos sempre vividos em Joinville não via tamanha incompetência desde a péssima gestão de Luiz Gomes (1989–1992). Udo consegue ser pior até que seu antecessor, Carlito Merss (2009–2012). O atual mandatário da maior cidade do Estado atropela o censo comum, cria imbróglios administrativos, bate de frente com os servidores de carreira suspendendo direitos trabalhistas garantidos pela legislação, como vale alimentação, licença prêmio e 1/3 constitucional das férias e se torna incapaz de cortar na própria carne. Gasta milhões com publicidade para enaltecer uma cidade de sonhos. Sonho de um empresário que de longe não entende nada de administração pública, algo bem diferente da privada.

    O mote “não falta dinheiro, falta gestão” se perde nas turbulentas decisões de um gestor público fadado ao fracasso. Esperar de Udo Döhler o mesmo carisma, a mesma competência, o mesmo empreendedorismo e a excelente visão e a gestão pública do saudoso Wittich Freitag em seu primeiro mandato (1983–1988) vai além da utopia. Não havia reeleição na época. Houve alternância de poder e mesmo assim Freitag voltaria para um segundo mandato (1993– 1996) e se não fez uma gestão idêntica a primeira – já estava com sérios problemas de saúde – também não deixou a desejar.

    Por fim, um texto pontual, meu caro Salvador Neto. Embora você conclame ao fim que “é preciso prestar muita atenção nos nomes que virão este ano para concorrer à Prefeitura. (...) Uma cidade como Joinville precisa de um Prefeito que tenha de fato liderança, que inspire e motive a população, que mostre trabalho, intensidade, propostas e ações que engajem as pessoas a crer em um futuro melhor. Precisamos nos empoderar da cidade, ou não veremos cidade nenhuma para nossos filhos e netos. (...) Nós podemos mudar.” (...), gostaria de compartilhar deste otimismo, mas o que temos no cardápio não é nada animador. Temos Udo como potencial candidato a reeleição e a seu favor todo o mecanismo da máquina pública – aposto que este ano o dinheiro aparecerá para obras faraônicas de impacto aos mais desavisados, as chamadas obras eleitoreiras. Temos Darci de Matos que ao meu ver não possui perfil de homem público, serve a interesses escusos, tem um passado obscuro. No seu partido temos ainda Kennedy que pode ou não rivalizar com ele e é outra incógnita, um cara a princípio integro, mas com um mote parecido ao de Udo, “dá pra fazer!” e com promessas um tanto faraônicas como na última campanha. Temos Carlito Merss que teve uma rejeição acentuada quando foi candidato a reeleição e não conseguiu obter êxito nas urnas nem recentemente a Câmera Federal. Se sua gestão à frente da maior cidade de Santa Catarina não foi desonesta, foi abaixo da crítica, diria quase desastrosa, com sérios erros na escolha de um secretariado técnico e que o apunhalou pelas costas.

    Esta é minha visão das propaladas teias do poder. Forte abraço!

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    1. Gilberto Moreira da Silva, Giba, obrigado por prestigiar novamente o Chuva e meu artigo. De fato, Udo Döhler deve voltar para a iniciativa privada, lá é o lugar dele. A herança que deixará é essa mesma que escrevestes, infelizmente para a cidade como um todo. E como disse no texto, estamos no mato, sem cachorro, sem nada... Forte abraço!

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    2. Acrescento que o Sr.Udo começou errando em seu primeiro discurso de campanha , quando enalteceu sua capacidade de GESTON e citou que a administração pública era a mesma que a privada. Qualquer um que teve um mínimo de contato com a admisnitração pública sabe que é muito , mas muito diferente uma da outra. Quando começõu a administrar a cidade do alto do pedestal de sua arrogância achou que estava em sua empresa, resultando no que vemos "por toda a Joinville" descaso inaptidão incompetência ! abç , du grego.

      Em tempo: Salvador fala mais do governo municipal , neste você sempre acerta... não tente defender a Dilma , neste você sempre erra... rsrsrs abçs...

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    3. Prezado Anônimo, obrigado por prestigiar meu texto e o Chuva Ácida. Se você notar, falo sobre vários assuntos, mas não posso me abster de falar da nossa província, até porque a coisa tá muito ruim mesmo... não há como não falar algo... Quanto a defender a Dilma, defendo a democracia em que vivemos, mesmo com um governo ruim que ela faz também. Mas veja, um dia você verá que nossas críticas ao seletivo noticiário que visa incriminar o PT e todos os que são contra o receituário liberal e neoliberal, são reais. Espero que ao ler outras revistas, blogs e sites independentes, possa comparar melhor do que falo. Abraço.

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    4. Não dá para comparar o empreendedorismo de Freitag e Udo. Freitag começou a Consul do ZERO com mais 2 sócios, Udo, apesar de ser um empresário de sucesso, nasceu em 1942 e a empresa Dohler foi fundada em 1881, ou seja, 61 anos antes dele nascer.

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