quinta-feira, 30 de novembro de 2017

MEC-Usaid, o avô da Escola Sem Partido

POR DOMINGOS MIRANDA
Há cerca de meio século houve uma mudança radical no nosso ensino, colocada em prática sob a orientação de técnicos norte-americanos. O principal objetivo do Acordo MEC-Usaid (United States Agency for International Development) era acabar com as ideologias nas escolas e faculdades e orientar os estudos para os interesses das grandes empresas multinacionais. É claro que houve muitos protestos, cujo auge foi em 1968 e que resultou no famigerado AI-5, que acabou com o que ainda restava de garantias democráticas.

O Acordo MEC-Usaid começou a ser gestado em 1964, logo depois do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart. O professor norte-americano Rudolph Atcon realizou estudo sobre o ensino superior brasileiro, a pedido do MEC (Ministério da Educação). Ele propunha que “a universidade deveria se libertar de todas as malhas do Estado, ter autonomia plena para se desenvolver enquanto empresa privada”.

Quando foi colocado em prática, uma de suas medidas foi a extinção das disciplinas de filosofia e latim e a introdução de outras, como Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política Brasileira). No XXVIII Fórum da UNE, os estudantes afirmaram que “o governo militar propõe para a universidade, uma universidade e um universitário inteiramente distantes e alienados dos problemas do seu país e do seu povo”.

Para a sua implantação, o governo utilizou de muita repressão. O temido Artigo 477 foi utilizado com frequência para a expulsão de professores e alunos considerados indesejáveis. Centenas de estudantes foram presos, torturados ou mortos. O último presidente da UNE antes de sua desarticulação, Honestino Guimarães, está desaparecido até os dias atuais. Em cada sala de aula sempre havia um informante do governo para relatar o posicionamento de professores e alunos.

Há um célebre ditado popular que ressalta que errar é humano, repetir o erro é burrice. Atualmente existe um movimento chamado Escola Sem Partido que, em linhas gerais, é a volta do Acordo MEC-Usaid. Seus defensores alegam que os professores estariam proibidos de abordar alguns assuntos considerados “doutrinas de esquerda”. Sem nenhuma criatividade, a direita tenta retomar uma prática adotada meio século atrás e que deixou sequelas por toda uma geração.

A burrice desses Torquemadas modernos chega a tal ponto que querem retirar o Paulo Freire como patrono da educação brasileira. Freire é um dos educadores mais respeitados em todo o mundo, mas em seu país alguns saudosistas da ditadura querem bani-lo mais uma vez das salas de aula. Aqui vale repetir uma frase do filósofo espanhol Baltazar Gracian: “A insensatez sempre se precipita à ação, pois todos os tolos são audazes”.


19 comentários:

  1. Primeiro: que não foi golpe, já que a população foi as ruas pedir intervenção militar, com apoio da imprensa (vide a declaração de Roberto Marinho).

    Segundo: de fato o Usaid foi responsável pela privatização da escola no Brasil em detrimento da estatização do ensino. Sem recuros, essa seria a única forma de universalização.

    Terceiro: a destruição da educação no país tem nome e sobrenome, Paulo Freire, que desenvolveu um método para EDUCAÇÃO DE ADULTOS (que já é ruim!), mas que foi PORCAMENTE ADAPTADO PARA O ENSINO INFANTIL.

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    1. Em 64 não houve golpe? Alguém afirmando isso é a prova cabal de que as disciplinas Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil cumpriram suas finalidades.

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    2. Os fatos dizem que não houve golpe. A população foi as ruas pedir a intervenção militar, está lá documentado em fotos e vídeos.
      Nas disciplinas EMC e OSPB aprendi, antes de mais nada, a respeitar o professor e os mais velhos, além de etiqueta.

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    3. O que confirma que estas disciplinas alcançaram seus objetivos são afirmações de anônimos que devem acreditar que o povo decide seu próprio caminho sem ser manipulado.

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  2. Lendo o comentário do Anônimo 08:28 vejo como o Baltazar Gracian tinha razão: os tolos, realmente, são muito audazes (e mentirosos).

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    1. Ahahahaha
      São FATOS!

      Quem deturpa a história são os esquerdistas que aparecem com esses castelinhos de areia.

      Procure nos livros de história, tem o google também...

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  3. Se vamos debater uma proposta de lei é nela que temos que nos ater.
    Li o projeto de Joinville e não identifiquei nenhuma linha "seus defensores alegam que os professores estariam proibidos de abordar alguns assuntos considerados “doutrinas de esquerda”
    Por favor cite o artigo e parágrafo que mencionam isto?

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    1. Anderson, o perigo está nas entrelinhas. Vamos fazer florescer cem flores e não podá-las.

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    2. Nas entrelinhas, está escrito "doutrinação".

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  4. Sou contra a escola sem partido, mas que a esquerda tem hegemonia na academia é inegável, qualquer pensamento contrário é demonizado. Além do mais o pensamento da esquerda é formado pela elite, pois os pobres e trabalhadores estão nem ai com ideologia pois a lei da sobrevivência é uma ditadura para eles. Então a democracia não passa de uma afetação pequena burquesa para eles e nisso o Velho Marx estava certo.

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    1. Pois é, e o cara vem culpar o Usaid...

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    2. Não é de se admirar que a academia, ao menos na área de humanas, tende mais para lado social, no Brasil. Somos um país muito desigual, com uma forte estrutura hierárquica cultural, e violenta, onde os homens não tem o mesmo valor, com pouca mobilidade social, grande distância entre as classes, com a justiça que não é igual para todos, com o ambiente econômico dominado por grupos de interesses, que formam redes de contatos que excluem profissionais de fora e dificultam as coisas para a população. E como no Brasil todo mundo que não prega a doutrina do mercado é visto como esquerda, tu queria o que? Que professores que conhecem a história e, parte, da realidade brasileira, ficasse com discurso do tipo "+misses - marx"? Não é a toa que o Brasil foi considerado 2º país com menos noção da própria realidade.

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  5. Fabio Rosa, qualquer pensamento é formado por uma elite, daqueles que sabem pensar. Se a esquerda predomina neste campo é porque seu raciocínio tem mais lógica. Simples assim.

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    1. Não querido!
      A esquerda predomina nas salas escolares com alunos cativos. O aluno não pode se opor a ação ideológica do professor que ensina que o capitalismo é mau (com o exemplo do Japão) e o socialismo é bom (com o exemplo da Venezuela). Que lógica é essa?

      A lógica nessa história toda vem da sociedade que questiona esse tipo de atitude vinda do professor.

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    2. Bem, o que VC Diz com usar a lógica? Os escolástico usavam a lógica aristotélica, e eram a elite do pensamento da alta idade média mas seus postulados já não tem mas relevância alguma. Que provam que mesmo com lógica associado a vaidade é enganosa.
      A esquerda também tem sua metafísica dentro da ciência sociais, visto que a realidade é uma soma tão grande de fatos que não é possível nenhum controle epistemológico. Digo isto aos economistas liberais ou o que for também. Deus nos engana a todos como diria Duns Scott uns precursores do nominalismo doutrina que veio por fim a escolástica.

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  6. O anônimo 09:42 critica a maioria dos professores, que segundo ele é de esquerda. Então a saída é fazer uma escola sem professor? Esse pessoal do Escola Sem Partido está querendo um professor sem cérebro.

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    1. A saída é ter bom-senso. Já que muitos professores não têm, entra a lei para garantir aos alunos o direito à informação correta.
      A propósito, o nível de educação nos ensinos básico e fundamental caiu drasticamente, por quê?

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    2. O problema é a falta de bom senso e neutralidade. Se tivesse cérebro não seria comunista

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    3. Onde existe neutralidade neste mundo? Se você for neutro onde impera a injustiça, você já tomou um lado.

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