terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Na corrupção não há meia virgem, nem uma pequena gravidez.


POR JORDI CASTAN




Não há termino médio quando o tema é corrupção, nem meia virgem. Ou se é honesto ou não. Ou se é virgem ou não. Há no Brasil uma capacidade extraordinária para alargar os limites da honestidade até faze-los tão elásticos que fiquem irreconhecíveis. Já esqueceram o inflamado discurso da Presidente do PT no Senado dizendo que o que tinha sido roubado na Petrobras era um valor mínimo frente ao seu patrimônio e faturamento? Pois é. O mesmo discurso foi ouvido nestes dias para justificar o que parece um novo caso de corrupção, o valor é irrisório e não deve ser tomado com tanta seriedade.

É perversa esta lógica que é possível ser só um pouco corrupto. Que só podemos considerar corrupção acima de determinados valores. Assim o brasileiro de uma forma geral não considera errado levar material de escritório do trabalho para casa, canetas, marcadores, folhas de papel, não tem um valor significativo. Utilizar a internet no horário de trabalho para tratar de assuntos particulares tampouco e usar a máquina de xerox, da empresa, para fotocopiar aquele livro de receitas da vizinha, não pode ser considerado corrupção.

A corrupção também utiliza de outros argumentos, como que aquilo é feito por todos, ou pela maioria. No caso dos políticos é conhecido o caso dos deputados e senadores reeleitos que recebem uma verba para fazer a mudança de Brasilia para seus estados e outra para fazer a mudança dos seus estados para Brasilia. Até uma criança de 7 anos, no seu candor, entende que esta verba, que por si só já é questionável, não deve ser paga em dobro para os deputados e senadores reeleitos. Já que eles permanecem na capital federal.

Do mesmo modo a forma como são definidas e são justificadas as verbas de gabinete dos legisladores nos três níveis, não só permitem, como estimulam a contratação de mais assessores que os necessários, pior ainda é uma porta aberta para que sejam contratados assessores sem competência e capacidade para prestar seus serviços e que ainda acabem devolvendo, na forma de um pedágio, parte do seu salario ao vereador, deputado ou senador que o contratou. Algo que não é novidade nem por aqui. Já tivemos casos destes em Joinville.

A decisão que devemos tomar como nação é se aceitaremos conviver com níveis menores de corrupção ou se toda corrupção, por menor e mais insignificante que possa parecer será denunciada, perseguida e punida com dureza? A resposta não é tão fácil como pode parecer. No Brasil a corrupção está de tal forma entranhada no ADN de cada um que é difícil obter uma única resposta. Há uma tendência, perigosíssima a aceitar pequenos níveis de corrupção, como uma alternativa a corrupção sistêmica e escandalosa com a que temos sido confrontados nos últimos anos.

O nosso futuro como nação dependerá diretamente ao modelo de casa leniência que definamos para os próximos quatro anos. Será um antro repleto de meretrizes experientes e conhecedoras dos caminhos e dos atalhos que levam ao poder ou teremos um jardim florido em que revoem alegres grupos de vestais com vaporosos vestidos brancos?


O Brasil votou contra a continuidade das marafonas. A maioria da população expressou nas urnas o desejo que houvesse uma mudança radical na administração da casa de lenocínio, será difícil aceitar que uma nova geração de pécoras assuma o negócio, pior ainda se entre as raparigas encontram-se algumas velhas conhecidas da clientela. No Brasil de hoje só Polyana para acreditar que alguém possa chafurdar na lama da política e manter a castidade e a pureza virginal. O dilema que eleitor enfrenta é ser condenado como Sísifo a empurrar até o topo de uma montanha uma rocha que inevitavelmente rolará eternamente de novo ladeira abaixo, assim a cada nova eleição escolhemos o candidato menos ruim, que depois de empossado acaba se mostrando pior, mais inepto e mais corrupto que o anterior. 

4 comentários:

  1. Nenhuma crítica aos Bozo?

    ResponderExcluir
  2. Uma das possíveis definições de corrupção é: Comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio.

    O povo acha que corrupção só ocorre entre políticos e qualquer ação "pequena" deve ser tolerada porque o ônus é baixo. Os políticos pegaram esse mesmo discurso, já que os valores são bem mais altos do que furar uma fila, por exemplo.

    Os atos de corrupção do cotidiano nos fizeram chegar a esse ponto. Aquele estacionamento (rapidinho) na vaga de idoso ou deficiente, não pedir nota fiscal porque sai mais barato, consumir produto dentro do mercado e não pagar, parar em lugar proibido (nem para subir ou descer do carro pode), dar um agrado pro professor pra aumentar a nota (é suborno que chama), beber e dirigir, pular catraca mesmo tendo mais de cinco anos (afinal, meu filho é pequeno e se passa por menos de cinco ainda)... essas são só algumas das "pequenas" corrupções do dia a dia. Ser conivente com isso é ser conivente com aqueles que nos representam em todos os três poderes. Aliás, neste ponto, estamos muito bem representados.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário. Ele reforça os pontos principais do post. Os corruptos são sempre os outros.

      Excluir

O comentário não representa a opinião do blog; a responsabilidade é do autor da mensagem