terça-feira, 26 de junho de 2018

Mamãe, falei. E foi só vira-latice...

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
Um dia destes vi, numa rede social, um post em que o tal Arthur do Val (do canal “Mamãe Falei”) teria “tomado uma surra de um petroleiro” num debate sobre a Petrobras. Uma surra verbal, diga-se. Fiquei curioso. Não pela surra, mas pela dúvida: quem convidaria um sujeito intelectualmente estéril para um debate? O que teria ele a dizer que alguém com dois dedinhos de testa queira ouvir?

O vídeo que rola na internet é apresentado da seguinte maneira: “com auditório lotado, com mais de 200 estudantes, estivemos no debate sobre a privatização da Petrobras, no Colégio Universitas, em Santos. E ouvimos muita besteira do MBL. Uma delas foi a reprodução, em tom jocoso, do velho mito elitista de que brasileiro é preguiçoso”. Sim... era uma tese: o brasileiro é um tipo vagabundo.

O cara disparou o velho clichê de que os brasileiros não prestam e os estrangeiros, estes sim, é que são bons e fazem tudo direitinho. Diz este grande pensador que não dá para entregar as coisas nas mãos do “brasileirinho gordinho folgado”, porque o cara não sabe jogar pelas regras da “competitividade internacional”. E ficamos a saber que brasileiros gordinhos são pouco competitivos. Ah... eis o complexo de vira-lata no seu esplendor.

A democracia tem os seus paradoxos e garante, às pessoas, o direito de dizer as besteiras que quiserem. Mas quando um energúmeno é levado a sério ao ponto de fazer palestras para estudantes, então é hora de refletir. Porque é quase atribuir um estatuto de ciência à ignorância, ao anti-intelectualismo e à iliteracia. E tudo tendo como pano de fundo a defesa da entrega do pre-sal aos gringos.

O viralatismo é a língua dos entreguistas. É gente culturalmente colonizada e para a qual o lugar do Brasil é mesmo a periferia do capitalismo. Aliás, vale lembrar Nelson Rodrigues, o criador da expressão. “Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”.

Pode parecer um episódio sem importância, mas é o sintoma de uma doença que está a corroer o tecido social. Essa ascensão do irracionalismo só pode empurrar o Brasil para o atraso. Os caras imaginam uma Suécia, mas estão a plantar as sementes de algo parecido com o Sudão do Sul. Afinal, como já disse alguém, os ignorantes levam vantagem sobre os sábios: a ignorância é grátis e a ciência custa dinheiro.

É a dança da chuva.



6 comentários:

  1. Peraí, o cara se sujeita a participar de uma discussão com petroleiros? A classe mais baixa do sindicalifado brasileiro? Tudo que representa de mais podre e atrasado no Brasil, com a manutenção de cargos e salários altíssimos à vagabundos grevistas que produzem um combustível de péssima qualidade???

    Está sobrando muito tempo ao MBL...

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    1. Se ao menos soubesse usar a crase. Mas nem isso...

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  2. Parabéns Baço....considerações muito pertinentes e fundamentadas. Recupera a noção do culturalismo racista utilizada por Jesse Souza (A Elite do Atraso. Ed. Leya, 2017) que denuncia uma dominação de classes sociais cruel e segregacionista, herança do escravagismo que se reproduz lamentavelmente ainda hoje.

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  3. Publica o título do vídeo... quero saber o que andas pesquisando na net.

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    1. "... quero saber o que andas pesquisando na net". Sério? Bateu os espírito da mãe braba em ti? Vais me pôr de castigo. Peraê que eu fui ali me atirar ao Tejo e já volto.

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