quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Na maternagem e no feminismo

Gabriela com 6 meses e eu,
  mamando e viajando.

POR FERNANDA M. POMPERMAIER

Desde muito cedo eu soube que era feminista. Talvez não reconhecesse todas as facetas e sutilezas do machismo, mas identificava as suas principais construções e me incomodava muito com elas. Quis sempre provar que mulher pode e deve fazer o que quiser, quando quiser e como quiser. Lutei bravamente contra serviços domésticos, cozinha, padrão de beleza, agradar homem e tudo que eu achava que o machismo trazia consigo. Fumei, bebi, fiz tatuagem, pintei cabelo, tudo para demonstrar minha rebeldia à esses padrões estabelecidos, (pensava eu). Nunca fui a quietinha, comportada, princesinha, e eu me orgulhava de ser diferente. Hoje minha relação está melhor estabelecida com a cozinha, a limpeza ou os homens, reconheço suas respectivas necessidades e importâncias. 

Um casamento feminista se torna no início um pouco mais trabalhoso que um "convencional" porque existem algumas arestas a serem podadas. Os papéis não estão definidos no padrão "sociedade tradicional" e algumas questões precisam ser dialogadas para se chegar em consenso. Meu marido, é lógico, também é feminista e nesses 10 anos juntos construímos um relacionamento bastante igualitário. É válido salientar que as conquistas feministas acontecem geralmente sob protesto do grupo que, acostumado com o status quo, deseja manter tudinho como está. É necessário que as mudanças se iniciem do lado do oprimido pois de outra forma, elas não se legitimam. Digo isso para expor que, apesar de ser extremamente importante a abertura para diálogo e a recepção do marido nas discussões, o protagonismo das mudanças é da mulher. Sem nenhuma dúvida, é ela que precisa protestar quando sentir que algo no relacionamento está injusto. E é claro que muitas vezes, eu protestei. Detesto manifestações de controle e qualquer tentativa de regrar meu comportamento, decisões ou roupas podia ser motivo de briga, mesmo que fosse exposto às vezes apenas como uma opinião.

Bom, fechado o parênteses e voltando ao tema, feminista resolvida, eu virei mãe. E a maternidade nos leva a uma dedicação intensa especialmente nos primeiros meses. São novas questões relacionadas diretamente com aquele medo constante de virar dona de casa e acabar tendo mais responsabilidades que o pai, de acabar se anulando profissionalmente ou como indivíduo para se transformar apenas na mãe. O estado ajuda a discriminar a mulher oferecendo 4 a 6 meses de licença maternidade e para o homem apenas alguns dia. É a forma oficial do governo dizer: o pai não tem nada a ver com isso, vc, mãe, que deu, e engravidou, dê conta disso sozinha. O cúmulo do machismo. Mas por sorte, tive tempo e disposição para ler, boas companhias e pessoas próximas que me ajudaram a perceber que não existe nada de errado em ser mãe e ser feminista. Ambos podem e precisam viver simultâneamente, para construir uma maternidade mais coerente com o mundo atual.

E como é uma mãe feminista?

Sob o meu ponto de vista é uma mãe que:

- Vai tentar não imprimir em seus filhos estereótipos de gênero. Qualquer coisa que venha acompanhada de: "isso é pra menina" ou "isso é coisa de menino" não serve numa educação moderna. Jogamos fora, é lixo. Tudo é para todos ou o que não é pra todos não é para ninguém.

- Vai dar o máximo de si para ser uma boa mãe, sem achar que esse é seu único papel no mundo. Que os filhos percebam que a vida da mulher é feita de conquistas em diferentes áreas e que não é preciso ser perfeita em tudo. 

- Vai se esforçar para amamentar e ter parto natural, porque sabe que seu corpo e do seu filho assim desejam.

- Vai buscar relacionar a maternidade com satisfação e prazer, nunca com dor, sofrimento ou culpa relacionadas à sacrifícios.

- Vai estabelecer uma relação saudável de troca de carinho que não seja baseada na chantagem ou no sentimento de dívida com os pais por ter recebido a vida, casa ou comida. 

-  Não vai impor papéis sociais "pré-determinados" esperando que menina goste de boneca e não de vídeo-game ou que seja vaidosa e doce e o menino agressivo e forte. Fazer isso oferecendo brinquedos diversos e construindo senso crítico. Vai buscar elogiar usando palavras como: corajosa, independente, inteligente ou feliz.

- Vai buscar quebrar com a ditadura da beleza: da princesa que é loira e de olhos azuis. Vai mostrar a beleza dos cabelos negros, encaracolados, da mulher de quadril largo, de corpo robusto, da idosa ou da cadeirante. E vai mostrar que não há nenhum problema em se ter pêlos no corpo. 

- Vai respeitar sua orientação sexual, seja ela hetero, homo ou bi. 

- Vai respeitar sua identidade de gênero, seja cis ou transgênero. 

- Vai ensinar a respeitar seu corpo, seus desejos, seus limites. Que sim seja sim e não seja não.

- Vai auxiliar na descoberta da sexualidade, oferecendo informação, diálogo aberto e fugindo de moralismos estúpidos.

Eu poderia continuar com a lista, on and on, mas vamos combinar que dando conta dessa aqui, já fazemos nossa pequena revolução.
É possível ser feminista e viver a maternidade com toda a sua intensidade num relacionamento igualitário. É o que desejo à todas (os) nós!
Tudo por um mundo muito mais feliz, aberto e receptivo. 

8 comentários:

  1. Maternagem...

    Aprendi mais uma hoje.

    Além do aprendizado do texto, claro.

    NelsonJoi

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  2. Fernanda, AMEI seu post!!! Sabe o que achei interessante? É que em nenhum momento do seu post você menciona que só se tornou feminista depois que se tornou mãe. Outro dia, me irritei profundamente com um grupinho da internet que se acha o mais, mais da em questão de maternidade e feminismo. Segundo o grupo, as mulheres brancas, de classe média só se tornam feministas quando são mães. E, também, que família é quando se tem filho. Um casal sem filhos não é família.
    Gosto demais quando encontro textos na internet sem o blá, blá, blá de teorias que só tentam mostrar o lattes do autor, autora. No fundo, reptem todo o estereótipo do sistema.
    É um texto que precisa ser lido, replicado nas redes sociais. Ser uma mãe feminista é, acima de tudo, ser aberta ao novo, ao diferente e, ao mesmo tempo, ser interessada em quebrar ciclos destrutivos na educação das crianças e adolescentes.
    Um beijo, querida!

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    1. Obrigada!
      Eu tenho impressão que a história com o feminismo é de cada uma e é difícil achar que existe um padrão no qual a maioria das mulheres brancas de classe média vira feminista depois de ser mãe. Tem as que eram antes e potenializaram, tem as que não se consideram feministas nunca... mas enfim.. histórias pessoais. E família pra mim são pessoas que vivem juntas porque se amam, 2, 3 ou 5. Se existe um conceito cienifico de família no qual se exige que existam crianças eu desconheço. Vamos tentando ser o mais abertas possíveis e aprender sempre mais com o diferente. Beijos!

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  3. Ótimo texto, resume todo o turbilhão de sentimentos e atitudes que nós mulheres, mães ou não temos que nos adaptar ou transformar, mudar mesmo para que tudo aquilo que conquistamos seja readaptado a sociedade atual. Mas, convenhamos a muito ainda a ser alterado e talvez isso tenha que partir mesmo de nós mesmas.

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    1. Com certeza!
      Obrigada pela participação!

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  4. Enquanto isso no Brasil....http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/homens_que_nao_amam_as_mulheres

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  5. Prezada Love Makes a Family,

    Fico triste quando você cita o "grupinho" sem citar o nome do grupo. Gostaria que houvesse mais transparência na comunicação entre as pessoas.
    Acredito que sei de que grupo você está falando, o FemMaterna. E permita-me esclarecer sobre as conversas que tivemos sobre como nos tornamos feministas.

    Em uma postagem, surgiu a pergunta sobre quando cada mulher se percebeu feminista e observamos que, naquele grupo, composto em sua maioria de mulheres brancas, cis e de classe média, a maioria descobriu-se feminista após tornar-se mãe. Uso o termo "descobrir" porque acredito que grande parte das feministas que se dizem como tal hoje e que não se enquadravam assim no passado, provavelmente já tinham idéias feministas, mas simplesmente não encontravam o termo adequado para enquadrá-las.
    Em momento nenhum foi dito que esse tipo de mulher só se torna feminista quando é mãe, e sim que, entre as mulheres que comentaram, a maioria se enquadrava desta forma.

    Tenho que discordar também sobre quando cita que dizemos que "família é quando se tem filho". Eu realmente não sei de onde você chegou à essa conclusão e gostaria de entender como chegou a isto para, quem sabe, obter um novo olhar sobre as discussões que acontecem no grupo.

    Acredito que o objetivo de toda feminista é um mundo mais igualitário e sem "caixinhas" para separar as pessoas.
    Na minha concepção, família é um conjunto de pessoas que se conecta para conviver no dia-a-dia, tenha esse conjunto gerado novos seres humanos ou não. Por exemplo, uma república de estudantes é uma família.

    Um abraço
    Clara

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  6. Prezada Love Makes a Family,

    Fico triste quando você cita o "grupinho" sem citar o nome do grupo. Gostaria que houvesse mais transparência na comunicação entre as pessoas.
    Acredito que sei de que grupo você está falando, o FemMaterna. E permita-me esclarecer sobre as conversas que tivemos sobre como nos tornamos feministas.

    Em uma postagem, surgiu a pergunta sobre quando cada mulher se percebeu feminista e observamos que, naquele grupo, composto em sua maioria de mulheres brancas, cis e de classe média, a maioria descobriu-se feminista após tornar-se mãe. Uso o termo "descobrir" porque acredito que grande parte das feministas que se dizem como tal hoje e que não se enquadravam assim no passado, provavelmente já tinham idéias feministas, mas simplesmente não encontravam o termo adequado para enquadrá-las.
    Em momento nenhum foi dito que esse tipo de mulher só se torna feminista quando é mãe, e sim que, entre as mulheres que comentaram, a maioria se enquadrava desta forma.

    Tenho que discordar também sobre quando cita que dizemos que "família é quando se tem filho". Eu realmente não sei de onde você chegou à essa conclusão e gostaria de entender como chegou a isto para, quem sabe, obter um novo olhar sobre as discussões que acontecem no grupo.

    Acredito que o objetivo de toda feminista é um mundo mais igualitário e sem "caixinhas" para separar as pessoas.
    Na minha concepção, família é um conjunto de pessoas que se conecta para conviver no dia-a-dia, tenha esse conjunto gerado novos seres humanos ou não. Por exemplo, uma república de estudantes é uma família.

    Um abraço
    Clara

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