quinta-feira, 26 de julho de 2018

Uns vêm com Venezuela e Nicarágua, eu vou com Moçambique

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
Esta semana tive um ligeiro desaguisado numa rede social com o professor Clóvis Gruner, co-blogger no Chuva Ácida. O tema não tinha muita importância, mas rendeu uma troca de posts. Tudo começou com um pequeno texto, onde ele pedia uma reflexão da esquerda: “há alguns padrões identificáveis nos processos de degradação da Venezuela de Maduro e, agora, na Nicarágua governada por Daniel Ortega. Um deles é a dificuldade de uma parcela da esquerda brasileira de fazer a necessária - e cada vez mais urgente -, critica aos dois regimes”, escreveu.

Não vi grande utilidade na proposta. Afinal, o resultado não teria qualquer interferência prática em qualquer das duas situações. Pareceu mesmo que ele estava a fazer um frete para a direita. Ou seja, lançar a esquerda num processo de autoflagelação. Post para lá, post para cá, acabei sugerir que, em alternativa, houvesse uma discussão sobre o fundamentalismo islâmico em Moçambique. O quê? O leitor e a leitora devem estar a perguntar como acabamos em Moçambique. Foi o que fez o professor Clóvis Gruner:

- “Esse seu comentário me lembrou aqueles caras que perguntam se a gente denunciou toda a violência do Oriente Médio quando denunciamos a violência da ocupação israelense em território palestino. Ou aqueles que perguntam por que não falamos de todos milhares de assassinatos cometidos no Brasil, quando denunciamos o assassinato de Marielle Franco. Acho que você anda a dar muito crédito aos anônimos”, escreveu.

Será um tema assim tão impróprio? Não acho. E respondi.

- “Foi apenas um exemplo a mostrar - e confirmar a minha tese - de que as pessoas só vão atrás do que a mídia indica. Ninguém quer saber de Moçambique, mas tem interesse na Nicarágua. Ou seja, a mídia não falou em Moçambique, então não existe. Aliás, posso dizer que o caso do país africano interessa muito mais ao Brasil do que a Nicarágua. Mas não interessa aos brasileiros, é um não assunto”, defendi. Mas Moçambique interessa?

Eis os fatos. Há algumas semanas, ataques no Norte do país, atribuídos ao extremismo islâmico, fizeram cerca de 20 mortos. O tema não é novo. Os registros de violência surgiram no ano passado. O TRAC – Terrorism Research & Analysis Consortium, entidade que pesquisa e analisa o terrorismo, diz que desde então houve 20 ataques. Há uma escalada. O leitor e a leitora devem estar a perguntar: o que o Brasil tem a ver com isso?

Ora, talvez interesse mais do que a Nicarágua. Há um movimento internacional – pequeno, é certo – a pedir a intervenção dos integrantes da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa antes que a coisa se agrave e fuja ao controle. Há a noção de que as forças armadas moçambicanas não têm capacidade operacional para conter os avanços terroristas. O Brasil é integrante da CPLP e tem maior capacidade de mobilizar os seus militares, numa operação conjunta com os outros membros.

Ok... essas coisas costumam ser resolvidas pelos capacetes azuis da ONU. Mas pode ser oportuno discutir o papel da própria CPLP, que vem perdendo relevância. Afinal, se um dos seus membros mais frágeis não pode contar com a solidariedade e a ação dos outros integrantes, então a existência da organização deixa de ter interesse. E é aqui que entra o meu comentário. Se é para propor uma reflexão, que tal refletir sobre uma ação conjunta dos países da CPLP em Moçambique?

A direita aponta o dedo a Cuba. A esquerda é convidada a fazer uma reflexão sobre Cuba. A direita questiona a Venezuela. A esquerda é convidada a fazer uma reflexão sobre a Venezuela. A direita põe a Nicarágua na agenda midiática. A esquerda é convidada a fazer uma reflexão sobre a Nicarágua. Eis o meu ponto: não é a reflexão, mas a inflexão. É dobrar a coluna e ficar curvado aos ditames dos conservadores.

Pergunto: por que a esquerda tem que andar a reboque da direita? Até porque a direita não é dada a qualquer tipo de reflexão. É aí que entra a minha proposta: criar uma agenda própria, sem estar a seguir a pegada imposta pela mídia conservadora ou os próprios conservadores. Afinal, a direita está sempre a fazer a esquerda cortar a própria carne. É uma posição defensiva. Não faz sentido.

É a dança da chuva.

7 comentários:

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    1. Obrigado. Elogios são sempre bem-vindos...

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  2. Recentemente, o Ciro Gomes (aquele que quer presentar o amigo presidiário com o indulto) afirmou numa entrevista à rádio JP que a Venezuela é uma democracia!... passou vergonha, claro!

    A esquerda quando é defrontada com esse tema, ou desconversa, como fez Manuela d'Ávila, ou faz como o Ciro... passa vergonha. Sinceramente, não vejo reflexão alguma da esquerda brasileira com relação à Cuba e Venezuela.

    Então, concordo com o Clóvis sobre a necessidade urgente de uma análise crítica por parte da esquerda à esses regimes autoritários.
    A esquerda quando nega o que se passa nesses países, promove um "tiro no pé".


    HGW XX/7

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    1. E a direita? Que reflexão achas que deve fazer? Sudão do Sul? Guiné Equatorial, Zimbábue, Gabão, Suazilândia, Líbia, Eritréia, Guiné, Burkina Fasso, Etiópia?

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  3. Exato, estamos todos a falar de “fundamentalismo”: islâmico ou ideológico.
    O caudilho populista-sem-vergonha ascende ao poder e, uma vez lá, mostra-se um ditador. Vimos esse filme tantas vezes que já não sabemos mais qual país latino-americano esse caudilho governa. A esquerda a qual esse caudilho pertence está perdendo espaço porque, justamente, não faz um mea-culpa, uma autocrítica, uma reflexão. E não faz porque falta-lhe a legitimidade ante a peculiar incoerência. À esquerda brasileira, por exemplo, sobra: o fundamentalista radical antidemocrático (Guilherme Boulos); o falso esquerdista com canto de sereia (Ciro Gomes); a esquerdista-verde travestida de liberal (Marina da Silva) e, é claro, o canalha que usa a ironia para chamar de “liberal” uma ação fascista de controle da mídia e intervenção maior do Estado falido na economia, caso seja eleito (Fernando Haddad ou qualquer outra porta que um certo presidiário, chefe de máfia, apontar para governar o país).
    É isso que sobra para essa esquerda e desmiolada que acha que a humildade de reconhecer erros resume-se a “se curvar à direita”.

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    1. Ok. Só acho que este comentário fica melhor no texto do Clóvis Gruner. Aqui não terás muita guarida...

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  4. Parabéns...

    Valeria extrapolar para outros temas também, em que somos levados ao confronto coxinhas x petralhas, que afinal não interessa, necessariamente, a nenhum dos dois.

    Pegando carona no seu raciocínio, lá vamos nós, novamente, polarizar nas eleições presidenciais... e entendo que vamos pra onde nos direcionam...
    Deveríamos gastar muito mais energia e saliva discutindo as eleições do legislativo, em todos os seus âmbitos.

    A retirada da Dilma foi uma clara demonstração que o Legislativo pode muito mais que o Executivo, então para que - ou para quem, serve essa polarização para as eleições presidenciais?

    Saudações democráticas

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