sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Maior dançarino do século é homenageado em Santa Catarina

POR DOMINGOS MIRANDA
A gratidão é o sentimento mais nobre do ser humano.  Cícero, célebre político romano, disse: “Nenhum dever é mais importante do que a gratidão”. Portanto, foi com alegria que participei, no dia 1º de dezembro, em Joinville, da solenidade de entrega da Medalha do Mérito Governador Luiz Henrique da Silveira ao  dançarino e coreógrafo russo Vladimir Vasiliev. Esta honraria é oferecida pelo governo do Estado a pessoas que prestaram relevantes serviços a Santa Catarina. O Bolshoi Brasil existe por decisão de Vasiliev, quando era diretor geral do Ballet Bolshoi de Moscou.

A cultura é a maneira mais eficaz de estreitar relações entre os povos. Em 1999, o Bolshoi, a mais renomada escola de dança do planeta, fundada em 1776, fazia excursão pelo Brasil e, por esforços do então prefeito Luiz Henrique da Silveira, foi possível fazer uma apresentação em Joinville, com enorme sucesso de público, o que impressionou Vasiliev, que estava presente. Luiz Henrique, num gesto ousado fez a ele o convite para que instalasse em Joinville a única filial do Bolshoi fora da Rússia. As outras duas cidades que estavam no páreo eram Washington, nos EUA, e Tókio, no Japão.

Vladimir Vasiliev voltou à Rússia e convenceu a direção da escola de dança que a melhor opção seria o Brasil. Assim, em março de 2000 começaram as aulas da Escola do Teatro Bolshoi em Joinville, com a mesma qualidade de ensino da matriz. Tanto isto é verdade que inúmeros alunos do Bolshoi se destacam em inúmeras companhias do Brasil e no exterior, até mesmo em Moscou.

Nas décadas de 50 e 60, havia duas coisas que a então União Soviética era imbatível no mundo: a ciência e a dança. O primeiro satélite a entrar em órbita (Sputnik) e o primeiro cosmonauta e dar a volta na terra (Gagarin) foram soviéticos. E os três melhores bailarinos do século – Rudolf Nureyev, Mikhail Baryshnikov e Vladimir Vasiliev – eram da pátria do comunismo. Os dois primeiros ficaram mais conhecidos no ocidente porque deixaram o seu país natal. Vasiliev, conhecido como “o deus da dança”, não quis ir morar no exterior porque sempre valorizou a cultura russa e achava que tinha o dever de repassá-la a seus conterrâneos. Por isso ganhou o cobiçado Prêmio Lênin.

Com a introdução do socialismo na Rússia, os governantes, mesmo com todas as dificuldades, tais como a Guerra Civil e a invasão das tropas nazistas durante a segunda guerra mundial, nunca deixaram de lado a cultura para o povo. Se na época do czarismo, o ensino no Bolshoi estava reservado somente para a elite, no comunismo os filhos dos trabalhadores tinham a preferência. O pai de Vasiliev, por exemplo, era um motorista de caminhão.

Durante os anos de disputa entre a URSS e os EUA, na chamada Guerra Fria, os países ocidentais temiam os avanços soviéticos em todas as áreas. Em alguns casos este medo chegava a ser grotesco, sendo motivo de chacota, como aconteceu no Brasil, em 1976, em plena ditadura militar. A tevê Globo havia anunciado um documentário sobre os 200 anos do Balé Bolshoi, feito pela BBC, da Inglaterra. O ministro da Justiça de Geisel, Armando Falcão, proibiu a apresentação do filme e também não permitiu que a televisão anunciasse a censura. O argumento de Falcão era que os dançarinos soviéticos, que interpretavam a peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, iriam repassar mensagens comunistas.

Mas, se há uma coisa que não volta é a roda da história, às vezes ela derrapa, mas sempre segue em frente.  A ditadura caiu nove anos depois desta maluquice e 24 anos após a censura a Escola do Balé Bolshoi se instalou no Brasil.  Neste mesmo período a União Soviética desapareceu, o comunismo não está mais no poder mas a qualidade do Bolshoi permanece imutável. E, nós, brasileiros, podemos ter acesso a esta pérola da cultura russa.

E o que mais se destaca nisso tudo, é que os nossos bailarinos têm a cara do Brasil, de todas as cores, todas as raças e crenças. Há bolsa de estudo para todos. Um aluno, filho de um vaqueiro nordestino, tem a mesma chance de estudar que o filho de um industrial. Isso se chama igualdade de condições, tão carente em nossa terra. Obrigado Vasiliev por nos dar este presente.


9 comentários:

  1. Beleza agora só falta a UDESC implantar a graduação em dança, pois, creio que só assim Joinville assumira o lugar de liderança em prática e pesquisa.

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    1. A faculdade de dança está programada para sair na Udesc.

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  2. Vasiliev falou bem quando disse cultura Russa. O comunismo/socialismo como queiram que nasceu ideologicamente na Europa que naquele tempo já estava morta, foi executado por um povo valente e vigoroso fora da Europa o único com coragem para tal ato imprudente,como os cubanos na america latina. E o que manteve por tanto tempo esse experiência idiota, não foi força do comunismo mas a força do povo , sua religião e sua cultura Russa.

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    1. A cultura russa é uma das mais ricas do mundo. Um exemplo é sua literatura, com nomes como Tolstoi, Dostoievski, Gorki, Maiakovski etc.

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  3. Os soviéticos só não eram bons em economia, tanto que, de tanto socializar a pobreza (exceto para os partidários do comunismo) a URSS caiu de madura.

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    1. A economia russa virou um caos depois do fim do comunismo, não antes.

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    2. É, e onde está a URSS?

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    3. "A economia russa virou um caos depois do fim do comunismo, não antes."

      Ah, como eu queria que o Domingos tivesse uma conversa com Svetlana (minha professora na federal do RS) sobre o inferno do comunismo na URSS: fome, violência, desespero, perseguições... tudo ao lado de burocratas milionários e bailarinos do Bolshoi.

      esquerdistas nutella...

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    4. Assim como a da Hungria, Polonia, República Tcheca, Alemanha Oriental e tantas outras...
      Mas que o Bolchoi é sensacional, ah isto é, assim como o Vasilev...

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