sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ideologia de gênero: muita confusão para nenhum benefício

POR DOMINGOS MIRANDA
A ideologia de gênero tomou proporções inimagináveis há pouco tempo por causa dos grandes debates entre progressistas, de um lado, e conservadores e religiosos, de outro. Sempre achei esta questão de querer evitar a definição de sexos entre crianças uma grande estupidez. No entanto, evitava entrar nesta discussão para que não achassem que eu estaria no mesmo barco que estes trogloditas como o pastor Silas Malafaia ou o deputado Marcos Feliciano. Mas, depois que descobri o documentário “O Paradoxo da Igualdade”, do jornalista, humorista e sociólogo norueguês Harald Eia, achei que não podia me calar, mesmo que muitos amigos fiquem bravos comigo. 

Imagino que a ideologia de gênero seja como uma arapuca, armadilha que nós crianças usávamos para capturar aves. Colocávamos uma isca apetitosa para atrair a vítima e capturá-la. Esta nova ideia que agita a sociedade usa como isca a luta pela igualdade entre homem, mulher e o segmento LGBT. Muitos progressistas embarcam por esta estrada, esquecendo um velho ditado: “O caminho do inferno está calçado de boas intenções”.

Este debate serve aos interesses da direita. Veja o que aconteceu na semana passada, onde parcela importante da nossa riqueza petrolífera foi entregue a preço de banana para empresas estrangeiras, em um leilão espúrio. Diante de um momento tão tenebroso, o que a sociedade estava debatendo com maior furor? A ideologia de gênero. Em Blumenau, a Câmara de Vereadores ficou lotada para acompanhar um projeto de lei sobre o assunto. No plenário, os dois grupos, contra e a favor, quase saíram no tapa.

Todo assunto comportamental gera enorme polêmica em nossa sociedade e os setores religiosos mais conservadores se pontificam na crítica. Não devemos confundir a educação sexual com a ideologia de gênero. A primeira é um ensino normal nas escolas, como outras matérias e que visa orientar os estudantes sobre sexualidade. Já a segunda prega que a criança não deve ter definido se é menino ou menina. É uma teoria sem base científica. Seus defensores alegam que, agindo assim, poderia se evitar, futuramente, preconceitos contra o sexo feminino e o grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais).

A esquerda se isola ao adotar a defesa desta tese, pois a igreja católica, importante aliada na luta contra o golpe que afastou Dilma do poder, é totalmente contra a ideologia de gênero. Aqui não quero entrar no aspecto religioso, mas pesquisas científicas realizadas ao redor do mundo têm demonstrado que cada gênero tem propensão diferente para certas profissões. Portanto, não é abolindo a definição de sexo que a total igualdade de gênero seria conquistada.

Acho que a ideologia de gênero serve aos interesses da direita porque camufla a verdadeira luta para alcançar a igualdade entre homens e mulheres. Esta equiparação só será conseguida com muita luta depois de mudar a estrutura de dominação na sociedade, não só de classes, mas também de gêneros. Ao desviar a mira do verdadeiro inimigo os dominadores continuarão reinando por mais tempo. Se fosse tão simples fazer esta revolução, apenas não definindo o sexo das crianças,  a verdadeira igualdade poderia aparecer num passe de mágica. Mas milagre não existe, infelizmente. Vale a pena assistir o documentário  “O Paradoxo da Igualdade” para tirar as suas conclusões.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O repórter fodão, o guarda e a liberdade de imprensa

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
"’Tu quer ser o repórter fodão? Bota a mão na cabeça’, me disse um guarda municipal de Joinville na tarde deste domingo. Isso aconteceu depois que fiz fotos de dois guardas revistando seis jovens no jardim do Museu de Arte de Joinville (MAJ). Estou bem, mas desconfiado de que há agentes que não simpatizam com a liberdade de imprensa na cidade. Será que estou exagerando? O que vocês acham? Já presenciaram situações parecidas?”

O relato é do repórter Alex Sander Magdyel, o tal “fodão”. O episódio ficou quase restrito às redes sociais e pouco mais. Infelizmente. Porque a fraca repercussão midiática não está em linha com a seriedade dos fatos. Em qualquer democracia, o caso seria motivo para ações visíveis e inequívocas das autoridades, neste caso o poder público municipal. Em Joinville, todos sabemos, vai ser um simples “fait divers” e cair no esquecimento.

Não se enganem. O caso é grave. Não apenas pela agressividade contra o repórter, mas pela resposta frouxa dos inquilinos da Prefeitura. A reação resumiu-se a uma nota de 12 pontos, na qual 11 são uma defesa dos policiais e o outro é pura miopia. É quando diz que “em momento algum foi cerceado o direito à liberdade de imprensa”. Errado. Apontar uma arma taser e revistar a mochila do repórter configura um caso claro de agressão à liberdade de imprensa.

Mas discutir liberdade de imprensa em Joinville é jogar palavras ao vento. E a nota é a melhor prova disso. Tímida. Burocrática. Tediosa. Quem lê fica com a sensação de que o redator já estava de pijama, pronto para dormir, quando foi obrigado a sair da cama para escrever o texto. Entende-se. Para o poder, o tema da liberdade de imprensa é sempre uma chatice. Para os jornalistas, é como os discos voadores: todos ouviram falar, mas nunca viram.

Todos sabemos que o ambiente da comunicação não é democrático. Nem no país, nem em Joinville. Qualquer jornalista conhece o poder das verbas publicitárias e o efeito dos telefonemas para as redações. É um vício de décadas. Mas este momento é diferente e pede reflexão. É preocupante quando a autocracia ganha força muscular. E porta armas. O risco não é apenas para a liberdade de imprensa, mas para toda a sociedade.

É a dança da chuva.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Fodão



POR SANDRO SCHMIDT

Pré-sal: Temer amputa o Brasil e hipoteca o futuro dos brasileiros

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
Michel Temer comemorou o resultado dos leilões para a exploração dos campos de petróleo do pré-sal, realizados na semana passada. O presidente disse que o país agora entra num novo ciclo de crescimento econômico e, ao mesmo tempo, acenou com a criação de 500 mil novos empregos. O negócio garantiu ao governo uma arrecadação de 6,15 bilhões de reais em bônus (abaixo do esperado). Michel Temer tenta passar a ideia de que a entrega do pré-sal aos estrangeiros foi um negocião.

Só que logo a seguir a revista “Exame” tratou de jogar água no chope de Temer, com uma manchete até irônica: “pré-sal arrecada 1/5 do que Temer gastou para escapar de denúncia”. Segundo a revista, a grana que entra para os cofres públicos cobre parte ínfima do buraco financeiro. Não dá para comemorar, claro. Mas o que está em jogo não são os números. É o entreguismo. A corja do golpe está a entregar o Brasil de bandeja. E os brasileiros permanecem em estado de catatonia. 

Entreguismo é a palavra do momento. É possível que muitos não saibam, mas há muito tempo a expressão é vista como um conceito ideológico, com repercussões nos planos político, social e econômico. O entreguismo é um mal do tal terceiro mundo e consiste na entrega das riquezas nacionais para a exploração de outros países. Gente com outros interesses. A desnacionalização de certos setores estratégicos para as economias nacionais faz parte da estratégia. É a tragédia de um passado colonial que nunca acaba.

A entrega do pré-sal põe a nu a lógica do entreguismo. Deixa claro que as elites lesa-pátria estão do lado dos estrangeiros. Temer e a sua catrefa podem insistir nessa tecla, mas nenhum negócio é aceitável se representa um golpe na soberania nacional. E quem ainda tem na memória o escandaloso processo de privatização da Vale do Rio Doce sabe do que estamos a tratar: uma das empresas mais valiosas do patrimônio público é vendida a preço de banana. Mas logo a seguir não pára de dar lucro aos compradores.

Mas não se ouve uma única panela. Porque muitos brasileiros, em especial a classe média, vivem o delírio de um estado mínimo e um pretenso liberalismo. O problema é que a maioria não faz a mínima ideia do que está a falar. E nem percebe que está a ser envolvida por um tipo de “ideologia”. Por quê? Porque o discurso, feito a partir da colagem de clichês surrados, é fácil de absorver. Tão fácil que até os analfabetos mirins do MBL, por exemplo, conseguem passar por inteligentes.

O país está nas mãos de gente disposta a entregar os anéis, mas também os dedos. Não se iludam, porque não estamos a falar de estratégias políticas ou econômicas. Estamos, isto sim, a tratar de simples entreguismo, autênticos crimes de lesa-pátria. Há quem não consiga enxergar, mas quando o “gigante acordar” a sério vai ver um Brasil amputado nas suas riquezas. E com o futuro dos brasileiros hipotecado. Eis a ironia: quem alertou para a sacanagem foi tachado de “petralha, bolivariano, esquerdopata”. Mas quem avisa...

É a dança da chuva.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Economizar? Ah ah ah. O pessoal da "gestón" está de brincadeira...



POR JORDI CASTAN
Dizem que uma imagem vale por mil palavras. Então, hoje temos aqui um texto quase do tamanho de "Os Lusíadas". Sei que a leitura pode ficar enfadonha para alguns, mas escutar as queixas constantes sobre a falta de dinheiro e a falta de gestão já ficou chato. Assim, nada melhor para mostrar que não há mesmo é gestão, porque há dinheiro para jogar fora. Podem até achar que não há vergonha. Eu acho que há. Mas esses que ai estão nunca a usaram. 



Ah! Não esqueça de pagar todos seus impostos e taxas direitinho, porque o "bicho" está sempre esfomeado e quer mais dinheiro para seguir gastando. Da maneira que você viu nestas imagens...


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Canal 100 era nota 10

POR ALEXANDRE CAMARGO
“Que bonito é/as bandeiras tremulando/a torcida delirando/vendo a rede balançar”. O pessoal com mais tempo de janela já sacou que estou falando do Canal 100, de Carlos Niemeyer. Era uma atração à parte no cinema. Antes de começar o filme, vinha uma espécie de telejornal. O Canal 100 também falava de outros temas, mas a galera queria ver eram as crônicas de futebol, quase sempre jogos de Rio de Janeiro ou São Paulo.

Uma coisa era certa. Mesmo que o filme em cartaz fosse uma porcaria, só ver o Canal 100 era a garantia de que o espectador não tinha jogado dinheiro fora. Quando aparecia a vinheta do programa e a tela ficava cheia com aquelas luzes “estouradas”, parecendo fogos de artifício, era sinal de que vinha coisa boa.

No ar desde os anos 50, o Canal 100 teve os seus momentos altos nas décadas seguintes e desapareceu no início deste século. Foi tempo suficiente para moldar as referências visuais de gerações – em especial cinquentões como eu – que aprenderam a ver os jogos em película de cinema, com a câmara ao nível do gramado e com os jogadores em planos fechados. Um leve slow motion era a marca do programa.

E quem não lembra do “tananan nananan nananan nananan”, a música que acompanhava as jogadas? O autor foi Luiz Bandeira, mas quando foi lançada, em 1956, com o nome de “Na Cadência do Samba”, a música não teve sucesso. Mas tudo mudou quando o tema foi escolhido por Carlinhos Niemeyer para prefixo e fundo musical do Canal 100. O sucesso foi estrondoso. E a música foi rebatizada para “Que Bonito É”.

Tudo passa. E o Canal 100 passou. Mas não sem deixar marcas na vida de gerações e gerações, que viram, nas telas dos cinemas, alguns dos momentos mais bonitos da história do futebol brasileiro. E não podemos esquecer dos locutores que narravam os resumos dos jogos. Só tinha fera. Destaque para o conhecido Cid Moreira, então em começo de carreira. Bons tempos.

Alexandre Camargo é especialista em Gestão de Qualidade, vive em Florianópolis e torce pelo Flamengo

500 anos de Lutero. E o mundo ainda necessita de uma nova Reforma

POR DOMINGOS MIRANDA
Há 500 anos, um monge agostiniano pregou 95 teses contra a venda de indulgências pelo papa na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha. Com isso deu  início a uma transformação que mexeu com o mundo ocidental, da mesma maneira que aconteceu com a Revolução Francesa e a Revolução Russa séculos mais tarde.

A Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, causou uma fratura no poder da Igreja Católica, até então a autocracia mais poderosa do mundo, capaz de destituir reis e executar quem discordasse de seus cânones. A fagulha que causou este incêndio começou com um protesto contra a corrupção na Igreja, mas em pouco tempo se alastrou para os campos políticos tendo como bandeira a reforma da fé.

A corrupção é uma praga que sempre existiu na sociedade e infectou enormemente a Igreja Católica nos séculos 15 e 16. Os papas criaram a venda de indulgências para arrecadar fundos para a construção da Basílica de São Pedro. Quem pagasse uma certa quantia em dinheiro ficaria perdoado de seus pecados. Isso gerou abusos e revolta e levou o monge Martinho Lutero a contestar esta prática baseado em textos bíblicos.

Como era de esperar, o papa Leão X determinou a ida de Lutero até o Vaticano, de onde teria poucas chances de voltar vivo. No entanto, os príncipes alemães, que também estavam descontentes com a intervenção da cúpula do Vaticano em seus territórios, deram proteção ao reformador. A partir daí o movimento se espalhou por quase toda a Europa, gerando guerras fratricidas.

A nova fé, que lutava contra os abusos da Igreja Católica, mais tarde também entraria para o caminho da intolerância. Um caso bem emblemático foi o do médico e teólogo espanhol Miguel Servet. Ele fugiu da Espanha porque havia sido condenado à morte pela Inquisição e se refugiou em Genebra, reduto de um outro líder reformador, Calvino. Mas os escritos de Servet também enfureceram os calvinistas, que o mandaram para a fogueira, em 27 de outubro de 1553. Depois de carnificinas praticadas por católicos e protestantes, os dois lados decidiram manter uma convivência mais harmônica.

A Reforma obrigou a Igreja Católica a alterar suas práticas mais abusivas para evitar a perda de fiéis. Nos países sob domínio dos protestantes havia maior tolerância e era possível a divergência de ideias sem o risco de acabar no cárcere. Os Estados Unidos, colonizados por evangélicos puritanos, deram um passo inimaginável na época da independência: criaram o primeiro Estado laico. Tal medida, ao invés de enfraquecer a religião, permitiu o desabrochar de diferentes igrejas por todo o território.

Joinville é uma cidade colonizada por luteranos e, diferentemente do restante do Brasil, a Igreja Católica não conseguiu impor na região a sua dura legislação canônica. Por isso, aqui havia um espírito tolerante entre as religiões cristãs. O ecumenismo, apregoado pelo Concílio Vaticano II, na década de 60,  foi colocado em prática na Cidade das Flores desde o século 19.

O pastor Gottfried Brakemeier, ex-presidente da Federação Luterana Mundial, afirma que a “reforma” é uma necessidade global: “Há fenômenos angustiantes exigindo uma radical mudança de rumo. Sem incisivas reformas na economia, na política, na mentalidade da era dita pós-moderna está ameaçado o futuro da humanidade”. Diferentemente do que pensam muitos pastores atualmente, a rebeldia continua sendo necessária para que as injustiças e abusos sejam abolidos. Lutero deu um exemplo para a humanidade.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Milhões de brasileiros voltam à pobreza. E o que diz a imprensa?

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO
“Milhões retornam à pobreza no Brasil, destruindo uma década do ‘boom’”. O título é de uma matéria publicada esta semana pelo jornal norte-americano The Washington Post. O texto faz um relato do Brasil atual e destaca algumas histórias de miséria. É o caso de Simone Batista, que deixou de receber o Bolsa Família e não consegue pedir uma revisão do processo por falta de dinheiro para o ônibus. Simone aparece na foto com o filho de colo.

A imprensa internacional tem sido crítica com o Brasil. O governo de Michel Temer é visto pelo mundo como golpista e os políticos brasileiros são apresentados como aberrantes, meios apalhaçados. Aliás, quem viu o espetáculo grotesco da votação do impeachment não pode pensar outra coisa. No texto desta semana, o The Washington Post fala do desperdício de uma década de crescimento, o “boom” da economia entre 2004 e 2014.

Qual a diferença entre a imprensa nacional e internacional? Há muito a analisar, mas fiquemos pelo mais evidente. Os meios de comunicação estrangeiros fazem jornalismo e trabalham para ser projetos editoriais de sucesso. Os meios brasileiros apostam em ser um poder capaz de interferir nos destinos do país. E, a partir daí, obter os dividendos necessários à sobrevivência financeira.

Muito é dito, pouco é lido. A imprensa internacional publica em outras línguas e, como a maioria dos brasileiros é monoglota, a mensagem acaba por passar batida. Quer dizer, o povo brasileiro fica refém da informação prestada pelos meios nacionais, quem vivem sob a lógica de, sempre que possível, dar uma forcinha para a canalha que se apropriou do poder em Brasília (com o supremo, com tudo). Querem uma comparação?

Diz o Washington Post. “O Banco Mundial estima que cerca de 28,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2004 e 2014. Mas o banco estima que, desde o início de 2016 até ao final deste ano, de 2,5 a 3,6 milhões caíram abaixo da linha de pobreza, o que representa 140 brasileiros reais por mês, cerca de US$ 44 às taxas de câmbio atuais”. O jornal usa uma fonte declarada e credível: o Banco Mundial.

Diz o Estadão. “A ausência de manifestações, como as contra Dilma, pode ser entendida como sinal de que o processo de recuperação já é sentido pela população”. Como? O texto, é óbvio, resulta de um achismo proposital (o condicional “pode”). Ora, a intenção é passar a ideia de que as coisas estão no caminho certo. Enquanto isso, milhões de miseráveis como Simone Batista parecem não existir. Os miseráveis simplesmente não importam...

É a dança da chuva.

À esquerda, o The Washington Post. À direita, o Estadão. Formas diferentes de ver os fatos

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Pessoas com dedos grandes e cabeça pequena. Pirou?


POR LEO VORTIS
Quando era pequeno, olhava com muita admiração para as pessoas que tinham o tal “conhecimento enciclopédico”. Você já imaginou quanta informação é preciso armazenar no cérebro para chegar a ter tanto conhecimento? Quando olhava para a velhinha enciclopédia que os meus pais insistiam em manter na estante, a minha admiração aumentava ainda mais. Eita! Era muita coisa para memorizar.

Naqueles tempos não sabia da expressão homo encyclopedie (que só conheci depois de adulto, ao ler um texto sobre memória eidética). Meu, no meu olhar de moleque, era difícil imaginar que uma pessoa pudesse tantos livros dentro da cabeça. O cara devia saber tudo sobre tudo. Sobre o universo e arredores. Um cara assim devia ser imbatível num debate. Mas será que teria lugar no mundo de hoje, em que tudo cabe num simples chip e a ideia de debate caiu em desuso?

Hoje o cara não teria serventia. É uma pena. Porque essa pessoa certamente era capaz de interpretar a informação. Bem ao contrário do que acontece neste tempo, quando temos o fenômeno da “overload information”: a pessoa é sobrecarregada informação mas não sabe o que fazer com ela. Talvez fosse necessário atualizar o conceito para “conhecimento wikipédico”. Só que não é preciso armazenar coisa alguma, porque basta usar os dedos para pesquisar. 

Há uma clara diferença entre o homo encyclopedie e o homo wikipedie (se é permitira a analogia). Porque hoje em dia está tudo na Wikipedia. As pessoas estão a trocar o cérebro pelos dedos. Há uma enorme incapacidade de interpretar informação, pois a internet funciona com uma espécie de extensão da memória. E a cada dia a gente vai se tornando ainda mais incapaz de gerir a vastíssima informação disponível na rede.

Um dia destes li um artigo científico que era meio darwiniano, porque falava em evolução. O texto tinha um palpite meio maluco. A evolução para o homo wikipedie pode produzir mudanças físicas nos seres humanos: gente com cabeça pequena, porque não precisa do cérebro, mas com dedos enormes, para poder manipular os dispositivos eletrônicos. Caraca! Não riam... Aliás, o texto, apesar de estranho, estava bom construído. 

Fala sério. Por essa linha,  é possível um futuro orwelliano, do ponto de vista político. Uma sociedade dividida entre senhores, no topo, e tecnodependentes, na base da sociedade. Na torre de marfim do poder, um grupo reduzido de seres que ainda sabem pensar e produzem as evoluções tecnológicas. Na base da sociedade, uma massa ignara formada por consumidores de tecnologia e cuja vida gira em torno de coisas como o smartphone.

Pirou na batatinha? Talvez. Nem parece estar tão longe assim. Não vamos esquecer que a ficção é apenas a antessala da realidade.






segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Cercar o jardim do MAJ é a solução?

POR JORDI CASTAN
Há um movimento a favor de fechar, com grade, o jardim do MAJ - Museu de Arte de Joinville. Um grupo de vizinhos do museu tem se manifestado abertamente contrário à forma como o jardim está sendo usado por grupos de jovens. Há, inclusive, acusações fortes de uso e comercialização de drogas e de consumo de bebidas alcoólicas. A única proposta apresentada até agora é a de fechar o jardim com uma grade. Em outras palavras, empurrar o problema para outro lado. Ou seja, esconder o problema em baixo do tapete.
O mau uso dos espaços públicos é um problema mais complexo e mais profundo do que poderia parecer à primeira vista. A coisa vai além, muito além da gestão destes espaços, da sua manutenção ou do seu fechamento. Espaços públicos são um problema de educação, de segurança, de cultura, de saúde pública e, principalmente, de gestão. Problemas complexos não se resolvem de forma simplória. Exigem uma abordagem multidisciplinar e o diagnóstico correto. Só assim será possível identificar corretamente o problema central e poder avaliar as causas e os efeitos.
A proposta de gradear, colocar concertinas e câmaras de monitoramento, como a forma de resolver os problemas de segurança, mostra uma superficialidade estulta dos que a defendem. Na verdade, os problemas quando não se resolvem ou pioram ou mudam de lugar. Se não houver uma ação articulada, estruturada e bem planejada para a resolução, o problema do MAJ se transferirá para outras áreas próximas, como o Parque das Aguas, o Cemitério do Imigrante ou para a Rua das Palmeiras, para citar outras áreas centrais que poderiam ser ocupadas.
Não é possível aplicar em toda Joinville a lógica que o cidadão individual aplica na sua residência. Não há como gradear todos os espaços públicos, porque os espaços públicos devem ser geridos de forma democrática. E, claro, devem estar abertos a todos. Esta é a obrigação e responsabilidade do poder público. O desafio é olhar o problema de forma global, fugir das soluções fáceis, resultado de análises superficiais. E para isso é preciso enxergar toda a cidade de forma holística, envolvendo a todos e não só construir grades que nada resolvem. 
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