terça-feira, 18 de agosto de 2015

Os estereótipos nos atingem


POR FELIPE CARDOSO

Nós, humanos, costumamos nos rotular a todo o momento. Faz parte da construção da nossa identidade e da construção da identidade do grupo do qual convivemos. A identidade está ligada à diferença. Uma depende da outra.

Eu me identifico como negro, pois não sou branco ou indígena. A partir dessa construção nos situamos e passamos a conviver com as diferenças existentes na nossa sociedade.

O nosso pré-conceito nos faz resumir algo ou alguém em características que são, geralmente, propagadas de geração em geração. A partir daí, tornam-se parte do imaginário popular e que, por falta de conhecimento, transformam-se em verdade absoluta, senso comum – por conta da repetição – e sofrem grande resistência ao ser questionado e contrariado.

Exemplo:

“Os indígenas não costumam tomar banho, são preguiçosos, só gostam de pedir esmolas”.

Quais indígenas?

Nossa falta de conhecimento nos faz reduzir e agrupar tudo em um lugar só. Nossa falta de vontade em tentar conhecer e entender o próximo nos deixa confortáveis para resumir tudo o que nos é apresentado como diferente.

Não sabemos a diversidade da população indígena existente no Brasil. As diferenças no idioma, da cultura, nos locais em que vivem. É mais confortável ver filmes, novelas ou programas que retratam com a visão “de fora” e nos dizem como são e o que fazem. Podemos ver as mesmas atitudes como no caso das favelas e do continente africano, por exemplo. Vistos como algo negativo, sem valor, carente, um olhar depreciativo.

Visão feita, na maioria das vezes, por homens, brancos, heterossexuais, cisgêneros, detentores dos veículos de comunicação de massa, presença majoritária na política representativa, detentores do capital financeiro, capazes de ter muita influência na educação, na literatura, na música, na representação, dentre outros meios que acabam atingindo e influenciando os trabalhadores.

A partir desse poder é que são mostradas essas visões do “diferente”. Por meio da ótica branca. Daí são criados e propagados os estereótipos:

O índio preguiçoso, só sabe fazer a dança da chuva, usar cocar, fazer cara de brabo, conjugar verbos utilizando o “mim”, chamando todos de “cara pálida”...

O negro como subalterno, como o ser engraçado, exótico, hipersexualizado, desdentado, pobre, ignorante, violento, malandro...

O homossexual como escandaloso, pervertido, fútil, efeminado ou masculinizado...

A mulher como um ser não pensante, dependente, sentimental, frágil, objeto sexual, dentre outros...

Nordestinos são vistos como pobres, preguiçosos, carentes, dentre outros adjetivos depreciativos por alguns sulistas que defendem a separação do país.

São raros os estereótipos positivos para esses grupos sociais. A maioria dos estereótipos positivos costuma ficar para os homens, brancos, heterossexuais, cisgeneros. Eles são civilizados, inteligentes, responsáveis trabalhadores, pagadores de impostos. Constroem sua imagem positiva,  reduzindo e marginalizando os “diferentes”, os “outros”.

A construção dessa imagem começou com o imperialismo, quando os europeus decidiram se lançar em busca de novos territórios para conquistar. Para poder explorar os “diferentes”, tiveram que rebaixá-los para, depois, marginalizá-los.

Hoje, ainda vemos a propagação desses estereótipos e vemos as suas perversas consequências.

Recentemente, um material de divulgação contendo dicas de segurança, distribuído pela Polícia Militar Paulista, nas escolas da cidade de Diadema (região do Grande ABC), continha em suas ilustrações, um personagem negro representando o criminoso:

“O que era para ser um informativo com dicas de segurança pública virou alvo de críticas, por reforçar preconceito e racismo”.

A cartilha foi entregue a diversas crianças que podem não ter recebido um contraponto crítico a respeito dessa representação. Possivelmente, tomarão como verdade a imagem e na medida em que forem crescendo, aquela representação se tornará regra, pois não será apenas em uma cartilha em que verão o negro como criminoso. Nos programas policiais sensacionalistas, nos filmes, nas novelas, nas obras literárias. Assim, formarão a suas opiniões pautadas em uma cultura racista e que dificilmente receberá uma contraposição do que lhe foi apresentado desde a infância.

Podemos conferir o resultado desses estereótipos com os aumentos dos linchamentos em praça pública, incentivado por alguns “jornalistas”, ou com alto índice de jovens negros mortos ou presos sem ao menos serem ouvidos. Os famosos autos de resistência.

Está naturalizado. E muitas pessoas querem que continue da mesma forma, pois está dando lucro e não é pouco.

Em tempo de muita polêmica com a aprovação do Plano Municipal de Educação, cabe o questionamento e a problematização dessa visão do diferente. Isso tudo parte da falta de conhecimento, de uma visão singular, estereotipada, repetida, naturalizada e tomada como regra sem contestação ou confirmação teórica. A xenofobia contra nordestinos (que tem doses cavalares de racismo), o preconceito com as religiões de matrizes africanas (influenciadas por muitas igrejas cristãs e também por conta do racismo), a homofobia, o machismo, o autoritarismo, a repressão, as desigualdades sociais tem que ser pauta diária na vida das crianças e jovens brasileiros, principalmente das escolas públicas, que serão os mais atingidos por essas opressões.

O senso crítico, a autonomia do saber, o estímulo para que os estudantes comecem a ter um olhar mais analítico da realidade em que vivem, no contexto em que estão inseridos, sabendo reconhecer seus privilégios ou desvantagens já deixaram de ser importantes. Tornaram-se necessários. E nenhum grupo religioso ou político deve ter poder para proibir esses direitos.

Precisamos de mais pessoas pensando no coletivo. Pensando em pessoas. Precisamos de menos pessoas pensando no bolso, no lucro, em interesses particulares. Isso é o temor de alguns. Talvez pela ameaça que represente.

Pessoas com senso crítico questionam, não aceitam tudo como verdade absoluta. Têm outra visão. Não caem em falácias tão facilmente. Têm autonomia para interpretar. Isso preocupa muitos os políticos, porque, assim, mais pessoas entenderão dos direitos, não apenas dos deveres. Preocupa muitos líderes religiosos, pois as pessoas aprenderão a separar os ensinamentos espirituais de picaretagem, discursos de ódio e lucro exacerbado.

Os estereótipos são violências simbólicas que dão aval para que as violências físicas sejam praticadas. E, ao serem repetidas em vários momentos de nossas vidas, se naturalizam e se tornam corriqueiras diante os nossos olhos, de maneira com que não reagimos, não questionamos, não problematizamos. Apenas aceitamos, sem o sentimento de culpa.

“Sempre foi assim. Será sempre assim”.

O genocídio da população negra. Os ataques homofóbicos. A violência doméstica. A violência contra as mulheres. Está naturalizado. São motivos de piada, chacota.

Na sociedade do espetáculo, na nossa vida líquida, em que tudo é passageiro, a violência passa despercebida, desinteressante, até que nos atinja. A partir daí procuramos tomar uma atitude, tentamos ganhar voz, problematizar, mudar. Antes disso, colocar-se no lugar do outro e procurar dar credibilidade e visibilidade ao discurso do oprimido, nem pensar. Nos dos outros é refresco.

Para encerrar, deixo um vídeo humorístico que fala justamente sobre as questões dos estereótipos, mas com outra ótica. De pessoas negras falando para pessoas brancas coisas que costumam ouvir com certo tipo de frequência. Talvez esse seja um bom experimento para que as pessoas tentem desenvolver o sentimento de empatia. Talvez.




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A tocha



Na segunda seguinte ao domingo em que o joinvilense ficou divido entre sair à rua para protestar contra tudo e contra todos ou ficar twittando contra, publico um texto sobre o que faz mexer os joinvilenses.


A tocha

A população deseja médicos especialistas para realização de consultas. E o prefeito, a tocha.
A população deseja cirurgias que aguarda há muito tempo. E o prefeito, a tocha.
A população deseja a ampliação da rede de saneamento básico. E o prefeito, a tocha.
A população deseja vagas nas creches para suas crianças. E o prefeito, a tocha.
A população deseja obras para redução dos alagamentos. E o prefeito, a tocha.
A população deseja a reabertura do mirante do Boa Vista. E o prefeito, a tocha.
A população deseja a duplicação da Avenida Santos Dumont. E o prefeito, a tocha.
A população deseja a licitação do transporte coletivo. E o prefeito, a tocha.
A população deseja que os parques públicos tenham segurança e iluminação. E o prefeito, a tocha.
A população deseja mais obras e menos publicidade. E o prefeito, a tocha.
A população tem outras prioridades. E o prefeito, a tocha.

Em homenagem ao Johnny Storm (Tocha Humana).

Em tempo, cada Joinville tem o prefeito que merece e cada Brasil tem o presidente que merece. Há quem acha este governo ótimo e não tolera nem críticas, nem outras manifestações que não sejam as de loa e apoio incondicional. São os arautos da democracia, os que a querem tanto que a querem toda só para eles.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Barulho da Chuva #9


Religião e política: um debate necessário

POR VALDETE DAUFEMBACK

Religião e política. Embora o ditado popular diga que são temas que não se discutem, considero, indiscutivelmente, duas de minhas paixões sempre à espera de um bom debate em qualquer espaço e tempo. Talvez esta disponibilidade esteja arraigada aos valores assimilados na infância, por viver em uma comunidade herdeira de conduta moral religiosa medieval com seus ritos, obrigações, símbolos e representações do lugar destinado à alma após a passagem nesta vida terrena.

As forças poderosas destes espaços, deus e o diabo, cada qual com suas legiões, na concepção religiosa travam uma luta constante entre o bem e o mal, constituindo-se duas condições imperativas de escolha aos humanos. Mas se são apenas duas em que uma está condicionada à outra, surge a dúvida quanto ao livre arbítrio, o que já se constitui uma transgressão, indicando a satisfação do diabo e a derrota de deus.

Neste ponto, a dúvida sinalizava a encruzilhada entre a religião e a política. A mera crença perde espaço para a reflexão e a representação destes dois poderes passa a dispor nova interpretação. Significa, portanto, que deus e o diabo formam a elite, a qual decide o destino dos humanos. Como resultado tem-se a rebeldia e o desejo de participar das decisões que conduzem a sociedade, independente de crença religiosa, raça, cor e gênero. Este é um ato político mais significativo da história humana.

Da manifestação da dúvida à participação popular e a formação do Estado laico, a política consagrou o direito de expressão e de pensamento em estado de rizoma, quebrando as verdades inquestionáveis com a multiplicidade de escolhas e de identidades. A árvore de onde se acreditava originar o bem e o mal, com suas raízes milenares, depois do encontro com a ciência, com grupos étnicos, gêneros e suas possibilidades de trânsito, não se admite mais que se constitua um único pólo soberano com suas verdades acima do bem comum, da vontade democrática da convivência humana.

Quando o poder religioso, utilizando-se de traquejo político, não respeita as decisões democraticamente dispostas pela Constituição Federal (Estado laico), proporciona a quebra de confiança nos representantes eleitos para conduzir a estabilidade e harmonia social. Ao assumir uma postura autoritária de negar à sociedade o direito de se expressar para incluir nos currículos escolares temas em favor das minorias em nome da paz social por meio da compreensão da diversidade cultural, étnica e de gênero, estes representantes eleitos jogam na lata do lixo a Constituição Federal, o seu compromisso com a população e a esperada postura ética.

É cada vez mais corrente a presença de representantes políticos que, pautados em um livro que dizem sustentar a teoria da árvore do bem o do mal (a qual classifica, condena e elege valores considerados essenciais aos escolhidos), excluem do debate temas da realidade social e preferem olhar o mundo pela ótica bipolar das relações sociais e atribuir à família a responsabilidade dos conflitos resultantes da intolerância.

Este retorno da crença religiosa sobrepondo à política dentro poder legislativo constitui-se um perigo à sociedade. Abre portas para a volta da inquisição e para legitimar as agressões contra aqueles que não se enquadram nos critérios da verdade inquestionável pregado por grupos dotados de mentes odiosas em nome deus.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O “16 de Agosto” é para tontinhos


















POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Faz algum tempo publiquei, aqui mesmo no Chuva Ácida, um texto com 10 razões para antever o fracasso do “15 de Março”. Foi na mouche. Não vou repetir a fórmula do decálogo, mas estou muito à vontade para prever que o “16 de Agosto” será outro fracasso. E ainda pior que o anterior. Por todas as razões enumeradas em março e por algumas recentes que fazem muita diferença. O que mudou de lá para cá?

Há alterações no xadrez político. Os donos do capital saíram a campo para afirmar que esperam bom senso e equilíbrio. Uma nota conjunta assinada por Paulo Skaf, presidente da FIESP, e Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, presidente da FIRJAN, afirma que “o momento é de responsabilidade, diálogo e ação para preservar a estabilidade institucional do Brasil”. Os empresários temem o caos e enviaram o sinal: tomem juízo.

E mais. Também parece haver uma mudança no comportamento da velha mídia, que entrou em processo mitótico. De um lado, os veículos que acreditam ter viabilidade econômica, como a Globo e a Folha, que parecem rever as suas posições*. A lógica é simples: a instabilidade política contagia a economia e ninguém ganha com isso. Outros, que estão a um passo do abismo financeiro, como a Veja, apostam no caos pois só podem sobreviver em ambientes mais lassos.

Com a posição expressa pelos empresários a favor da estabilidade política, perde-se qualquer réstia de argumento. E sem o incitamento da velha mídia – todos lembramos do esforço para levar pessoas às ruas em março – o pessoal do oba-oba não será mobilizado. Ou seja, o movimento será feito apenas pelo pessoal do ódio de classe e do “quanto pior, melhor”. Em resumo: só os tontinhos  vão sair às ruas. 


Enfim, pelas razões apontadas em março (ver aqui) somadas às apresentadas hoje, só resta uma conclusão: o “16 de Agosto” será apenas um circo de ódio, irracionalidade e tonterias. Mas com menos gente ainda.

É a dança da chuva.

* Em se tratando do Globo melhor ficar com um pé atrás.