sábado, 24 de maio de 2014

Uma certa confusão intelectual

POR JOSÉ ANTÓNIO BAÇO

Um dos objetivos iniciais do Chuva Ácida era também produzir contraditório entre os próprios integrantes do blog. É algo que raramente aconteceu, mas hoje surge uma oportunidade. O texto do Felipe Silveira, publicado aqui no blog na sexta-feira passada, é uma espécie de resposta às minhas posições em defesa da Copa do Mundo. É motivo para arriscar uma réplica e lançar mais algumas achas para a fogueira.
1. ENQUADRAMENTO - Digo sempre que o nome do jogo é capitalismo. Que o capitalismo vive da indústria e que a indústria do futebol é uma das mais lucrativas. Mesmo achando que o modo de produção capitalista é injusto, porque deixa quase 80% da população do lado de fora, acho que a apostasia não é opção. Ou seja, não dá para viver no capitalismo como se o capitalismo não existisse. É pura perda de tempo. E até que venha a boa sociedade tenho que viver com as realidades capitalistas. Mas deixando claro que sou pelo socialismo moderno, um tema que, infelizmente, é pouco compreendido no Brasil, inclusive pelos que se dizem socialistas.
2. VALORES INTANGÍVEIS - Também defendo a tese de que a Copa do Mundo é uma oportunidade para realizar negócios e gerar divisas para o país. E nem estou a falar apenas dos benefícios diretos (o dinheiro que a indústria mobiliza) mas dos valores intangíveis (a boa imagem do país atrai turistas, mas também investidores). No entanto, reafirmo que há muitas pessoas de olhares curtos. Quando sopram os ventos das oportunidades, uns constroem moinhos e outros levantam muros. É uma escolha que respeito, mas não entendo. Prefiro os moinhos.
3. DETONAR FONTE DE RECEITAS - É indiscutível. O povo não tem terra, não tem casa, não tem saúde, não tem educação. Mas num ambiente de economia global, não é matando a possibilidade de atrair investimentos que alguém vai resolver esses problemas. É o contrário. Porque é com esse dinheiro que as muitas coisas podem ser resolvidas. Aliás, os leitores sabem que vivo em Portugal e que o país está a passar por uma das suas piores crises em tempos de democracia. A honra do convento tem sido salva pelo turismo, que representa 10% do PIB. E esse interesse pelo país resulta em muito do investimento em eventos mundiais como a EXPO-98 e a Eurocopa 2004. Teve gente que reclamou, mas hoje todos colhemos os frutos da imagem criada.
4- OS IDEÁRIOS - Por mais que eu respeite as ideias das pessoas conotadas com a esquerda, não respeito velhas cartilhas carcomidas e projetos engessados. Já estamos na quarta revolução industrial e não dá para agir como se ainda estivéssemos na primeira. A coisa não encaixa. É difícil ter que aceitar ideários construídos a partir de slogans ultrapassados, leituras de orelha de livro e a falta de perspectiva de mundo. Há uma enorme complexidade e muitos não gostam de coisas complexas.
5. O BORDEL IDEOLÓGICO - Por uma questão de defesa pessoal, quando vejo que a direita está a caminhar ao meu lado, tenho a tendência de resistir. Quem sabe duas ou três coisinhas de história do Brasil não tem qualquer dúvida de que, nos casos em que a esquerda e a direita se uniram num projeto (não raro esse projeto foi o populismo), sempre foi a esquerda a perder. É só dar uma olhada na timeline dos séculos mais recentes.
6. O TIMING - O argumento de que as manifestações vão ganhar mais visibilidade durante a Copa do Mundo - coisa que tenho ouvido muito - é uma tolice. Podem até aparecer. Mas que vantagem se retira daí? Nenhuma. Talvez arranhar a imagem do país no exterior e espantar os investidores internacionais? Isso é provável. É bom que as pessoas vão para as ruas. Mas se fosse essa invasão das ruas fosse ontem - ou amanhã - certamente causaria menos danos aos seus próprios autores.
7. A INJUSTIÇA - O texto do Felipe Silveira comete uma injustiça. Tudo está centrado na ideia de que não entende “gente que reclama do povo na rua”. Que fique claro. Nunca disse que sou contra o povo nas ruas. Pelo contrário. Sei que as pessoas têm o direito de lutar pelos seus interesses e que a rua é esse lugar. Mas não sou ingênuo ao ponto de não desconfiar quando vejo manifestações estratégicas que têm o objetivo político de atacar o governo e favorecer grupos que fazem política de terra queimada. É aí que temos o encontro da direita com aquilo que poderíamos chamar de esquerda (se não fosse tão anacrônica). O código genético das esquerdas não permite que elas sejam massa de manobra. Mas tudo pode acontecer, porque há uma certa confusão intelectual...

6 comentários:

  1. A Esquerda na América Latina é caquética, viciada e marxista, é sui generis , por isso os que seguem essa cartilha ideológica são chamados de esquerdistas. Lamentavelmente essa cartilha degradante é transmitida de professor para alunos nos bancos escolares.

    Para os esquerdistas, os atos de fortalecimento e respeito das instituições são vistos como “ações de Direta”. Preferem piamente seguir “alguém” a uma instituição. Por isso a palavra democracia não consta no dicionário do esquerdista.
    No Brasil os esquerdistas mostram-se “do lado do povo”, usam desavergonhadamente o maniqueísmo, jogando a sociedade contra as instituições e contra a oposição. Literalmente eles têm o “povo” ao lado deles. Entretanto essa aproximação como o “povo” não foi arranjada através das instituições públicas, mas através de um partido com suas raízes crivadas nos três poderes, tornando-o quase do mesmo tamanho do Estado. Porém, um partido não tem uma constituição, não tem poder de polícia, não tem poder de justiça. A história mostrou que quem se aproximou desta forma do povo, dando-lhe “poderes” que sobrepõem os deferidos pelas instituições públicas, abriu uma caixa de pandora.

    Um exemplo: a partir do momento que, por interesse partidário, a chefe maior do executivo deixa de atender manifestantes da educação, segurança, saúde, e recebe pessoalmente, com sorrisos e afagos, representantes dos manifestantes do MST que no dia anterior mandaram mais de trinta policiais que tentavam impedir a invasão do movimento ao prédio do STF para o hospital, ela está dando um sinal subliminar ao “povo” que neste país se pode invadir qualquer terreno, qualquer prédio, roubar e fazer justiça com as próprias mãos.

    O que vimos no ano passado e o que estamos presenciando hoje nada mais é o fruto que o PT está colhendo. Ou o Estado faz valer o que manda a constituição (para isto é necessário fortalecer as instituições, dar mais crédito e independência a elas), ou o que está acontecendo na Venezuela é pinto comparado com o que vai acontecer no Brasil.

    ResponderExcluir
  2. Começou mal, mas recuperou-se no final...

    ResponderExcluir
  3. Protestos tinham que ocorrer antes da copa. Agora é tarde.

    Bianca.

    ResponderExcluir
  4. o que é socialismo moderno?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vai ler livros! Não ganho para ser teu professor.

      Excluir
  5. Os europeus já mandaram o recado...

    José.Jlle

    ResponderExcluir

O comentário não representa a opinião do blog; a responsabilidade é do autor da mensagem