quinta-feira, 3 de maio de 2018

A novela UFSC, no capítulo de hoje: não temos nem calçadas

POR FAHYA KURY CASSINS
A vinda da UFSC para Joinville foi tema do Chuva Ácida com certa frequência na última década – sim, lá se vão dez anos. Nota-se hoje, porém, que foi um erro a instalação da universidade por aqui. Caso houvesse sido destinada a Jaraguá do Sul, ou até mesmo a Araquari, temos razões para crer que estaria em pleno funcionamento numa sede construída para ela. Não é o que ocorre em Joinville.
A ineficiência dos governos joinvilenses é nossa velha conhecida, e também muito citada por nós.

Com isto queremos demonstrar que a cidade sofre revezes e a população carece de meios e instituições por culpa de prefeitos e organizações omissos e covardes. Nunca são buscadas inovações e melhorias para a cidade e seus cidadãos, em nenhuma área – nosso exemplo emblemático é a finada rodoviária. Quando a UFSC anunciou sua vinda nós não pudemos deixar de olhar e dizer: não vai dar certo. Longe de qualquer joinvilense querer gorar a vinda (tardia, muito tardia) de uma universidade federal para a tal maior cidade do Estado, mas para o bom joinvilense é preciso estar atento e ser realista.

Começo deste ano foi anunciado o “novo” campus da UFSC, no Perini Park. O valor do aluguel exorbitante, enquanto as ruínas da construção na Curva do Arroz viraram lenda foi muito criticado. Porém, houve quem fizesse elogios a uma universidade dentro de um ambiente industrial. Universidade pública dentro de um parque industrial privado é de um contrassenso sem limites – até mesmo para os interesses e mentes fechadas de Joinville. As notícias diziam, à época, que a educação superior pública “comemorou” a mudança (terceira, desde 2009, vale lembrar) porque haveria um melhor atendimento aos “anseios” da comunidade universitária. Comemorar o que, afinal?

A estrutura foi construída para abrigar a universidade, a iniciativa privada fez (uma parte) em seis meses o que a pública não deu conta (em dez anos). Dizem que só aí já devemos abrir os olhos para os muitos interesses envolvidos na questão. E os interesses dos alunos? Inserir uma universidade pública num parque privado fere a legitimidade da mudança, mas a parte disto cabe ressaltar o elemento humano. As condições do “distrito industrial” são vergonhosas. Nenhuma cidade com vocação industrial deveria encher a boca para dizer que aquilo lá é um pólo industrial. Depois não sabem porque tantas indústrias não se mudam para a região e preferem continuar nos seus terrenos centrais.

A notícia desta semana é sobre os alunos, cerca de 150, que fazem o trajeto (que aumentou em 8km da sede anterior) de bicicleta até o tal parque. Não há condição nenhuma, os riscos são enormes e absolutamente nada é feito. Ninguém pensou nisso antes? Interrogada, a prefeitura disse que vai fazer – alguma coisa, algum dia, quem sabe. Tipo a reforma da prefeitura (venceu o último prazo dado para a licitação, lembram?). Eu me perguntei por que a prefeitura quebrou, destruiu, durante mais de um ano, todas as calçadas da São Paulo, para no lugar concretar algo que dizem ser uma calçada compartilhada, e deixou, ainda, abandonado todo o trajeto da Dona Francisca. Por quê?

A administração da cidade não sabe o que faz. E quando faz, faz… vocês sabem o quê. Segundo estimativas, 300 alunos iriam de bicicleta para a universidade, caso houvesse estrutura. Numa cidade que não tem sequer passe escolar (algo difícil de crer nos dias de hoje) e um valor de R$4,30 por passagem, a bicicleta é a saída viável para muitos alunos que batalham para fazer um curso superior no nosso país. Enquanto isso, a prefeitura diz que fará uma calçada compartilhada por lá. Quem diria que investir em ciclovias seria investir em Educação, não? Sem esquecer dos muitos (não há estimativa) funcionários que vão e voltam do trabalho no mesmo trajeto, há anos.

Enquanto mantivermos a Educação Superior Pública refém dos interesses da iniciativa privada industrial da cidade, não haverá nada a comemorar. Eu ainda aguardo que a UFSC Joinville crie vergonha na cara e abra cursos de Licenciaturas (mas aí fere outros interesses). Nós ainda aguardamos o passe escolar. E meus parabéns aos alunos que levantaram esta questão, por questionarem a prefeitura no que lhe cabe, por irem de bicicleta até a universidade e por estudarem. Tenho certeza que para a maioria é uma batalha diária.

9 comentários:

  1. Deu um bom exemplo das capacidades pública e privada em realizar as coisas e fazer acontecer.
    A localização da universidade em área industrial é um bom sinal, pois além de empresas de diversos países, da aproximação do campus com a demanda mercadológica e a consequente produção tecnológica, estará ao lado novo parque tecnológico a ser implementado na área do Perini.
    O único problema que vejo, além da distância, são as péssimas condições da rua Dona Francisca.

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    1. Vejo sempre com muita ressalva essa história de aproximação da universidade com empresas. O foco das universidades nunca foi o lucro. Educação não é mercadoria. Se fosse, quanto valeria o desenvolvimento de uma teoria científica ou da "transmissão do conhecimento" para os alunos? Isso já era criticado por Platão e Sócrates no livro 'A República'. Um modelo de financiamento das universidades públicas pelo sistema privado é algo a ser bem-vindo, mas um contrato deve ser muito bem feito para não haver perdas para o setor público. Chega de precarização. Correios que o diga...

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    2. Há um engano em ver a universidade como, apenas, formação de mão de obra. É nela que se produz e desenvolve conhecimento - e as pessoas. Esta é mais uma ação que coloca estes valores em risco.

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  2. Ótimo texto.

    Aproveito a deixa para me manifestar contra alguns autores do CA sobre a censura dessa “esquerda libertária” contra opiniões divergentes que causam incômodo, não pelas supostas ofensas, mas pelas contundentes comprovações de contradição. Esses autores “que apontam o dedo e criticam atos considerados fascistas” usam como subterfúgio, simplesmente, a condição de anonimato do arguidor.

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    1. "(...) opiniões divergentes que causam incômodo." Pelo menos sua autoestima está em dia.

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    2. Obrigada pela parte que me cabe.

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  3. Quando lançaram a sugestão de Federalização da Univille, vieram os cupinchas e não aprovaram. Não dava dinheiro, não teria desvios. Resultado: curva do arroz, um brejo aterrado para construção de um elefante branco que nunca será.

    Legado daquele governo ilusionista!!!

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    1. Pode usar o plural: "daqueles governos".
      É universidade federal, mas há parceria com município e estado nisso aí.

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    2. Exatamente. A gente fala muito do governo municipal, mas os "interesses" de alguns da cidade é que a emperram - em tudo. Nunca seremos.

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