quinta-feira, 29 de março de 2018

Lula e Bolsonaro são idênticos


POR FAHYA KURY CASSINS
No clima da quinta-feira da Semana Santa, tratemos de questões religiosas. Deuses são adorados em todas as culturas, em todas as épocas. As condições sociais, invariavelmente, é que elegem os deuses favoritos de cada estação. Perigosos ambos, os deuses e os seus eleitores. Mas, segundo a tradição, na missa do dia de hoje celebra-se o lava-pés, ato de humildade de Jesus frente aos seus na última ceia. Jesus, aliás, que tanto figura religiosa quanto histórica pode ser respeitado (quem dera imitado), porém razoável seria não se comparar a ele.

No entanto, é de assustar o tom de devoção que tomou conta desta república. Não somos mais eleitores; somos fãs, adoradores, seguidores. Não ponderamos o que está em jogo para o país e para toda a população, pensamos apenas nos nossos interesses (ínfimos diante de uma Nação) e queremos impor à força (mesmo que sob a lei) nossas crenças, meras opiniões e posicionamentos.

Diante dos dois prováveis candidatos mais falados na mídia, Lula e Bolsonaro, percebe-se facilmente que os dois – e seus fã-clubes – são idênticos. Não precisamos nem discutir a inocência, honestidade ou credibilidade de qualquer um dos dois. Os fãs do primeiro adoram achincalhar os adoradores do segundo, e vice-versa. Qualquer fato é distorcido para caber nos seus discursos.

O perfil dos dois é igual: dotados de uma empáfia de embrulhar o estômago, professam a violência e a imposição de suas crenças, como políticos de longa data erraram em terem feito pouco por aqueles que julgam defender (e na base do discurso continuam defendendo valores que quando estiveram “lá” não foram suas prioridades), falam para seus públicos na base da ofensa aos que não os adoram. Os dois pregam o ódio. Os dois são cercados de pessoas duvidosas. Os dois são, no mínimo, maus-caracteres (e muitos dos seus seguidores também). E há quem defenda o voto em um emérito mau caráter – porque, aprendemos cedo, aos deuses não nos cabe questionar. Ambos estão em campanha antecipada pelo país e nada os impede.

O episódio do beija-pés do Lula, no fim de semana, foi só mais uma das pérolas que ele logra colecionar toda vez que sobe ao palco. Seus shows são famosos por levar o povo ao delírio. Este povo que agora ele levanta pelos rincões do país porque a esquerda órfã o quer de volta à disputa – Lula o pai dos pobres em versão remasterizada, só mais velha. A esquerda desiludida, com suas pautas progressistas e válidas, desunida em torno de siglas partidárias cada vez mais combativas e menos gregárias, volta os braços desesperados ao seu carrasco. Discutem aos sussurros que houve avanços, mas… e aos sussurros decidem como lidar com seus dissidentes, sua mea-culpa, seu futuro. Não chegam a lugar nenhum e resolvem que com Lula estaria ruim, sem Lula, pior.

Lula prega o ódio do “nós x eles” - nós, quem, cara pálida? Lula encanta por sua retórica – tão convincente quanto vazia de verdades. Lulinha paz e amor que o alçou, finalmente, à presidência agora pode ser abandonado. Lula é agressivo e machista. Lula xinga e destrata pessoas do povo – e isso não é de hoje. Porque o povo, de fato, pouco importa – o que importa são seus votos. Lula agrada à elite que se diz intelectual e de esquerda (todo rico que acha bonito defender os direitos do pobre). O foco é o pobre que precisa do discurso do Salvador e a classe média (funcionários públicos, elite das universidades, etc.) alta defensora dos valores progressistas (que nada fazem pelo próprio país).

Bolsonaro coleciona pérolas de preconceitos, machismo e ignorância. É o inútil em pessoa. Mas, somemos a isso o peso da religião de fato. Dizem que consta para os cristãos não adorar outros deuses. Porém, cá está Bolsonaro para provar que há muitos maus cristãos neste país. O adoram, e ponto. Sua incitação à violência, ao porte de armas, a matar bandido, à violência contra as mulheres e gays, condiz com um Jesus às avessas. Bolsonaro não quer apenas que lhe beijemos os pés, como Lula. Quer que lhe lavemos os pés, em devoção, pela empáfia que lhe cabe naquele nariz altivo. A humildade jamais viria dele.

Bolsonaro conta com uma base forte em religiões que se entrincheiraram nas camadas mais pobres (prometendo ascensão) e chega às classes média e alta de uma forma curiosa. Seu radicalismo opressor e conservador agrada àqueles que pregam intervenção militar, os saudosistas da ditadura, às gerações mais velhas que vivem o estranhamento de uma sociedade cultural libertária e fora dos seus padrões do século passado. Ele agrada de oito a oitenta: investe no discurso preconceituoso e violento que agrega meninos misóginos que não aceitam o diferente, homens violentos, idosos desiludidos (a desilusão, em ambos os casos, é má conselheira) – e, pasmem, mulheres e moças, de educação submissa e machista.

Nenhum dos dois nos salvará de um país em transe. Nenhum dos dois desencarnará o missionário para assumir-se político. Nenhum. São tão iguais que é fácil prever o desastre em ambos os casos. Para os progressistas que pensam “mas é melhor um Lula que não vai instaurar um ditadura conservadora” eu sugiro reler a História do país (não do ponto de vista reescrito pelo próprio autor) da última década: pouquíssimo foi feito pelas pautas progressistas, nem com uma mulher presidente que sequer criou mecanismos de equiparação salarial, e muito populismo foi disseminado – volto a lembrar: consumo não é dignidade social. Para os conservadores que vociferam “mas é melhor um Bolsonaro que é honesto e não vai instaurar uma república bolivariana” eu sugiro repensar o conceito de honestidade dos políticos brasileiros (algum sobreviveria imune ao sistema?) e tentar sair do alto do seu umbigo: a sua religião não é melhor que a de ninguém nem nos pode ser imposta, os seus valores não são universais, a sua cultura e gosto não são melhores que os dos outros, a sua moral não é nem jamais será melhor do que a dos seus irmãos.

Espero que restem as outras (tantas) opções nas quais poderemos procurar menos estrelismo, menos messianismo, menos radicalismo e egocentrismo. Não precisamos de novos líderes, precisamos de alguém com menos “eu” e mais pensamento em prol do país. Mas vá dizer isso para os fiéis...

6 comentários:

  1. Belo texto Fahya.
    Possivelmente o texto mais lúcido que já li nesse blog. Porém, creio que alguns desses "fiéis" do Chuva Ácida (Baço, Miranda, Lemos, etc) irão torcer o nariz pro teu texto!... não pelo que você falou do Bolsonaro, mas pelo que você falou do "Deus-Rei" deles!... é lógico!


    A esquerda agoniza!...

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  2. Parabéns pelo texto.
    A opção é o centro.
    A esquerda, ao invés de caminhar para o centro, opta pelo PT ou extremistas (PSOL, PC do B). Lula, Boulos, Ciro Gomes são os principais cabos eleitorais do Bolsonaro, mas a esquerda ainda não se deu conta disso.
    Lula não será candidato pela lei da ficha limpa, seu substituto, Haddad, não vai absorver os votos dele, Boulos não tem a menor chance, tal qual o machista Ciro Gomes com sua língua ferina.
    Se esquerda fosse realmente inteligente, apostaria em Marina Silva, ou melhor, investiria na ala de centro-esquerda do PSDB, o partido realmente social-democrata que instituiu programas sociais com responsabilidade fiscal e econômica.
    Nos resta apostar as fichas em Geraldo Alckmin, pois não precisamos de populistas, precisamos de um governo.

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    1. Boa, bora votar no Santo da Odebrecht.

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  3. Parabéns.

    Eduardo, Jlle

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  4. Concordo com muitas coisas. Mas não vejo possibilidade na democracia de transcender a loucura do bando. E mundo prova isso, com o fim das meta narrativas e o crescente pessimismo visto nas artes com obras que descrevem realidades distopicas, e na filosofia pós moderna. Sem falar que a esquerda não quer assumir sua culpa no fato Bolsonaro, como nunca se viu culpada no fato Napoleão.
    Dois quem disse que Jesus pregava a paz política? Como diria ele : " nao vim trazer a paz, mas sim a espada." ou quando aconselha seus discípulos comprarem uma espada. Então Não dá pra comparar Jesus com Gandhi, Jesus não era hipócrita, nem evocar ele como figura para questões de desarmamento civil. Na verdade discordo quanto alguém tenta propor qualquer visão política a Jesus. Como diria ele meu reino não é desde mundo,e como ele acredito que o reino do céu esta acima de qualquer escatologia tanto terrena quanto celestial. E isso já explica quanto acho idiota o pensamento progressista essa forma de escatologia terrena.
    No mais essa tensão em uma vida cristã autêntica e a religião institucionalizada é antiga. Começa na baixa idade média,pela procura da vida monástica.
    Esse negócio de demonizar o pensamento conservador, aprendido na universidade pois a vida inteligente do lado conservador, a uma extensa linha filosófica que vem de Heráclito, David Hume, Edmund Burke, Kirk Russell que era bom ler um pouco antes.

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  5. Não vou votar no Bolsonaro, mas tem um diferença gigantesca entre ele e o Lula. Bolsonaro nao é corrupto, enquanto o alcoólatra é um condenado por lavagem de dinheiro. Beijos de paz.

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