quinta-feira, 15 de março de 2018

186 mulheres joinvilenses estupradas em 2017: vamos ignorar?


POR FAHYA KURY CASSINS
186. Este é o número de estupros consumados em Joinville no último ano, aumento de 24% em relação ao ano anterior. Acredita-se que o aumento do número de registros se dê pela força que as mulheres têm sentido em denunciar os casos, mas, por outro lado, também sabe-se que os números são menores do que a realidade.

E eu, como mulher que vive em Joinville, me pergunto: o que tem sido feito? Quais são as ações tomadas pelo poder público para coibir a violência contra a mulher? Tem algo que eu sinto muita falta na cidade: campanhas de conscientização. Seja sobre o descarte de lixo, seja sobre o cuidado com rios e bocas de lobo, sobre a atenção e respeito no trânsito e, neste caso, de ações voltadas à proteção da mulher.

Além de não termos campanhas, nada é feito. Volta e meia tem projeto de vereador para proteger animais, por exemplo, agora que há mulheres que defendem a causa com espaço na Câmara. Volta e meia vemos os projetos esdrúxulos sobre cabide em banheiro público ou cobrança disso e daquilo. Mas, aparentemente, as mulheres por aqui não existem.

Porque vivemos o silêncio. Vivemos como se em Joinville as mulheres pudessem andar como bem entendem pelas ruas, como se nós não precisássemos nos preocupar no transporte coletivo, nem nas ruas escuras. Tanto é que não lembro de casos de estupro terem ido parar nos jornais – algo corriqueiro e importante em qualquer cidade de qualquer porte. Quando noticiamos casos de estupros podemos auxiliar as outras mulheres, podemos instrui-las, podemos alertá-las. Em várias cidades o estuprador só é pego porque as mulheres ficam atentas numa determinada rua ou região, por exemplo, onde foi visto assediando. Mas quando calamos o que acontece com uma, entregamos na mão do criminoso tantas outras - suas esposas, mães, namoradas, filhas.

Foram 186 mulheres joinvilenses que tiveram sua vida dilacerada pelo abuso sexual. E ninguém fala nada, ninguém faz nada. Não temos postes com luz funcionando, não temos delegacias preparadas, não temos policiamento em áreas de risco, não temos ônibus que parem fora do ponto, não temos campanhas que incentivem a denúncia.

Eu já cansei de ver casos de violência contra a mulher – e de denunciar e a PM nunca chegar. Qualquer menina e adolescente de Joinville sabe o que é não sentir-se à vontade para usar a roupa que bem entende e sair pelas ruas da cidade. Hoje mesmo, saindo do trabalho, eu fui assediada. É mais uma realidade que simplesmente resolvemos ignorar na cidade. E como eu sempre falo aqui, ignoramos os alagamentos, as crianças sem ar condicionado, as merdas no trânsito, o mato crescendo na rua, a falta de estacionamento rotativo, etc. Etc. Etc.

Mas ignorar que somos reféns de uma sociedade que estupra, abusa e assedia? Se ao menos fosse uma sociedade onde se falasse abertamente dos problemas, mas, não. Somos uma população amordaçada – pelos políticos, empresários, meios de comunicação. Enquanto uma mulher é estuprada a cada dois dias. Dois dias.

Fonte: O Mirante

13 comentários:

  1. Termos que há séculos eram caros à sociedade foram banalizados pela polícia do politicamente correto, esse movimento deturpador e ideológico. Estupro é e sempre foi um ato, ou uma tentativa do ato sexual sem o consentimento do outro. Virou sensação. Frases do tipo “eu estava sentada a beber café e um sujeito olhou-me de modo sensual, senti-me violada!” poderia ser entendida como metáfora, mas para os defensores do politicamente correto, a simples ação do sujeito virou um crime hediondo. Quando se banaliza algo, perde-se o valor. Quando se coloca no mesmo saco as vítimas do crime hediondo do estupro e as “beldades” que ouviram o assovio do pedreiro e se sentiram “violadas”, o crime cometido contra as primeiras passa a perder a importância. Durante anos os policiais do politicamente correto chutaram o balde, crimes graves como assédio e o atentado ao pudor viraram “estupro” (com o apoio, diga-se de passagem, do STJ!!!), e as “sensações” vieram a reboque. Tudo virou estupro, inclusive um termo foi criado pelos entusiastas: “cultura do estupro”, como se nas casas o menino fosse educado a violar mulheres, ignorando o fato que quem comete esse crime hediondo sofre de problemas mentais e desvio de personalidade, independente da classe social e da educação que teve em casa ou na sociedade.
    Duvido que o Fernandinho Beira-Mar (traficante e líder do comendo vermelho) tenha ensinado seu filho a estuprar mulheres. Duvido que o Marcola (traficante e líder do PCC) tenha ensinado seu filho a estuprar mulheres. Filmes, novelas, encenações, jogos, por mais violentos que sejam, não transformam pessoas em estupradores. O estuprador é uma condição, um doente que deve ser mantido distante do meio social.
    Enquanto houver essa banalização, enquanto os crimes de assédio e atentado ao pudor não forem reconhecidos como tais, ao invés de estupro, enquanto uma cantada mal feita por um galã tiver o mesmo peso da feita por um sujeito fora dos padrões de beleza, os atos de estupro, infelizmente, continuarão a perder a importância perante a sociedade.

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    1. Concordo em parte com a banalização de certos termos. Acho que o objetivo inicial era a popularização do reconhecimento do crime, mas de certa forma prejudicou o entendimento perante a sociedade. Entretanto, o Anônimo 10:50 levantou uma questão interessante. Se um cara feio age de forma desrespeitosa contra uma moça, ele é convidado a assinar um termo circunstanciado na delegacia, mas se o mesmo gesto é feito por um cara bonito, ele é convidado para outra coisa. Aí vem a pergunta, preferimos ter leis mais claras ou 207 milhões de juízes?

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    2. Não. Não foi banalizado. Agora começamos a falar abertamente sobre isso. É algo que se ensina, sim. Com atos, com palavras, com ideologias, com violência. É assim que se criam estupradores - nem de longe podem ser relegados a quem "ofre de problemas mentais e desvio de personalidade". É mau caráter quem afirma isso. O resto do que fomos acusadas aí no primeiro comentário eu me nego a responder. É tanta falta de caráter, sensibilidade e conhecimento que causa nojo.

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  2. Os estupros não aumentaram como vc afirma, por conta do "politicamente correto". O nome disso é lógica torta. Os estupros sempre aconteceram, mas não eram denunciados pq não existiam canais para revelar o descaso com que os policiais tratavam as vítimas. Hoje temos a internet. Tarado estuprou? Policial pilantra tratou com desdém? Massacre nele pelas redes sociais e daí sim o politicamente correto faz o resto. Colocando tarado e o policial em maus lençóis. A união e o facebook fazem a força.
    Bom lembrar que o tal desdém por parte do agente da lei relapso pode ser explicado pelo senso comum que imperava (e ainda impera) na cabeça da maioria dos "machos alfa" que estão soltos por aí, onde a "culpa" pelo estupro “também” é da mulher.. Ou vc ainda não leu algo do tipo "Quem mandou ela não se dar ao respeito"? Ou ainda. “Se estivesse usando uma roupa decente, não teria acontecido.” e ainda “ela provocou”. Esses são potenciais estupradores...se já não o são.
    Outro fator para o que vc chama de aumento dos casos, sendo que eu prefiro chamar de aumento da visibilidade, é o empoderamento das mulheres, que criaram coragem e tocaram um foda-se nas convenções que marginalizavam as estupradas e as tornavam párias. Párias o cararalho! Elas são vítimas de um macho escroto que não pode viver em sociedade.
    Empoderamento que em seu manual , no capítulo que trata sobre a propriedade do corpo, diz o seguinte; O corpo é meu... vagabundo meteu a mão sem autorização? Denuncia nele. Deu cantada e recebeu um não..e ainda insiste? Denúncia nele. Objetivo? Criar o senso comum inverso. Tolerância zero. Não, é não! Creio q em uma geração os casos certamente vão diminuir e só restarão os de pauta psiquiátrica... pq hoje muito pilantra que estupra, se finge de loko...Taí o filho do Sirostki e daquele delegado que não deixam dúvidas. Soltinhos da silva.
    Não tem mais essa de tentar relativizar o estupro usando ginásticas retóricas, querendo diluir a culpa em toda a sociedade quando se sabe que isso tem a ver com a cultura machista imposta pelo patriarcado, onde a mulher é vista como propriedade do homem. São gerações educadas dessa forma. Estupro não pode estar na mesma frase que sexo..sexo é amor. Estupro tem a ver com a consciência do poder que o homem sabe que tem de subjugar a vítima, no caso, a mulher. Ou vc tem algum dado estatisticamente relevante sobre mulheres estupradoras.

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    1. Não disse que o estupro aumentou ou diminuiu, disse que a banalização do termo por grupos politicamente corretos fez o ato perder a importância que tem.

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    2. La-crou, Lemos!

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    3. "Banalização do termo por grupos politicamente corretos FEZ O ATO PERDER A IMPORTÂNCIA QUE TEM"

      Só se perdeu a importância pra vc, 08:36. Apaga que ainda dá tempo.

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  3. Toda liberdade e emancipação está em volta em correr riscos. A culpa é do patriarcado beleza. Mas não adianta fugir para o paternalismo do estado. Que no fim é sair de uma cadeia e entrar noutra.

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  4. "A culpa é do patriarcado beleza". "Não adianta fugir para o paternalismo do estado". Viram, mulheres. O nosso amigo além de sugerir que a culpada é a beleza de vcs, ele sugere também que vcs não devem denunciar abusos para o "paternalismo do estado" cujo representante no caso, é a polícia. ...visto q é sair de uma cadeia e sei lá o que esse cara quer dizer. Nessa horas que eu sinto saudades da Dercy Gonçalves...

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    1. Lemos meninas é o cafajeste do bem...me poupe. Com esse discursinho moralista pra agradar as feministas.

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    2. Entre fazer media com estupradores ou agradar as feministas, prefiro ficar do lado delas, ever..and u,baby?

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    3. Só VC acha que existe essa dicotomia. Talvez até goste de cria lá para se fazer do lado do bem.

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    4. Do lado do bem, ever...

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