quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O dia em que o litoral de Santa Catarina parou


POR FAHYA KURY CASSINS
Fazia tempo que Santa Catarina não via uma horda baixando no seu Litoral logo no início da temporada. A BR 101 parou – literalmente. Ficou dias parada, desde Araquari até Florianópolis, no sentido Sul, antes da virada do ano. Até ontem, pelo menos, estava parada desde Porto Belo/Governador Celso Ramos até Itajaí, no sentido Norte – desde o dia 1º de janeiro.

Eu diria que há décadas isto não acontecia. Como frequentadora assídua, arrisco dizer que nunca vi isso desde a duplicação do trecho. Nos últimos dois ou três anos foi bastante tranquilo, inclusive. Uma das hipóteses é que finalmente a tal crise acabou. Ou muitas pessoas desistiram de vez de ficar parados na 280 (esperando a eterna promessa da duplicação) – e resolveram todos parar a 101.

Para a virada do ano as praias ficaram lotadas. O número de afogamentos foi grande. Casos de assassinatos violentos, também. A sujeira nas areias, costões, trilhas, ruas foi imensa. Faltou água, é claro. Ah, faltou luz… (apesar da propaganda que a CELESC tem veiculado desde antes da temporada, que investiu para o nosso conforto e tal). A irresponsabilidade no trânsito e leis básicas como a proibição de animais domésticos na areia foram descumpridas – e ninguém nem aí.

Santa Catarina é famoso por ser um destino turístico para os brasileiros e estrangeiros. Porém, não dá conta do recado. Alertei sobre o descaso com a situação dos balneários ao longo do ano, pois os “enrocamentos” acabaram com algumas praias. Há casos graves de ocupação irregular em vários locais, além da total falta de investimento em saneamento básico nas cidades que têm vocação para veraneio.

Seriam os políticos os únicos culpados? Não. Mas são os grandes responsáveis? Sim. Quem dera o Pavan, secretário de turismo atual, parasse de pavonear a ideia esdrúxula de colocar rodas gigantes em Balneário Camboriú (em área de preservação) e em Florianópolis (no Parque da Luz, poluindo a visão da Ponte Hercílio Luz, que é patrimônio tombado – e que não pode) como “atrativos” do nosso litoral e se preocupasse de fato com coisas básicas.

O Estado não conta com nenhuma campanha sobre resíduos, nas praias e cidades litorâneas, nem com indicações sobre condições do mar e segurança para os banhos. Ocasionalmente em algumas praias, como iniciativa muitas vezes localizada das prefeituras, há informações sobre essas coisas. Porém, no geral, carecemos de um Estado que pense no turismo como algo além de números – pessoas recebidas e dinheiro.

Ser turista, veranista ou morador do litoral catarinense nos faz desenvolver algumas habilidades como cozinhar às escuras. Também nos faz praticar muita paciência e tolerância com pessoas que jogam lata de cerveja e maço de cigarro na areia da praia. Ou apenas com o cara que ouve a sua música na caixa de som no último volume em meio à multidão – mas aí deve ser só implicância pessoal. Mas não há paciência nem tolerância com o cara que fura a fila da BR pela marginal e entra contramão de volta na rodovia. Nem com a fofinha que leva seu cachorrinho pra tomar banho de mar.

O turismo, em verdade, nunca foi prioridade de nenhum governador catarinense. Mais um nos deixa neste início de ano, à mercê das nossas “belezas naturais” que minguam a olhos vistos diante de tanta irresponsabilidade e ignorância. Reclamar da chuva não podemos, nos resta esperar sentados nas filas das estradas, ficar às escuras e ver jovens morrendo afogados.

6 comentários:

  1. Pois é Fahya...É tudo isso que voce disse e mais um pouquinho. Muita coisa poderia ser resolvida com normas rígidas (e cumpridas), disciplina e autoridade firme. Organizar o caos necessita de mão pesada às vezes, o que infelizmente não temos em lugar nenhum. Até porque se alguma autoridade der demonstrações de firmeza, imediatamente é rotulada de fascista, nazista ou coisa pior. Aí aquele cara que leva a caixa de som pra galera ouvir o seu funk, vai continuar numa boa mesmo. Tudo bem, sem comentários. Daqui a pouco vão me chamar de fascista tambem.
    Outra parte se resolve com investimentos em infraestrutura bem planejada. Aí a porca torce o rabo né? Faz tempo que não vemos isso.
    Mas de tudo que li nos ultimos dias, o que mais doeu na alma, e trucidou minha (e nossa) cidadania, foi ver um grande jornalista, culto, respeitadíssimo e esclarecido, da RBS/NSC com coluna no AN e DC defender que a solução para tudo isso (ao menos em Florianopolis) é...cobrar pedágio!
    Desisto. Perdi a esperança.
    Não sei porque, nesses momentos de baixo astral sempre me lembro de Campo Alegre...

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    1. Não, esquerdistas são contraditórios: nenhum deles vai chamar outro esquerdista de fascista por que ele almeja que as leis sejam cumpridas. Fique tranquilo!

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    2. Nelson, se a lei e ordem imperar tem articulistas que irão redigir laudas e laudas sobre o totalitarismo... O povo brasileiro merece tudo que tem mais ainda o que não tem...

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  2. Você disse tudo, o que nos falta é educação.

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  3. Olha, afogamento de jovens deve-se a irresponsabilidade deles e dos que os cercam, porque em todas as praias mais movimentadas do Estado há sim bandeiras e salva-vidas, além de helicópteros do bombeiros. Desculpe, mas não dá para responsabilizar o governo quando um jovem que não sabe nadar sai de caiaque em alto-mar, ou um grupo vai nadar em algum trecho de rio nos confins.

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  4. A situação foi mesmo feia, pelo menos nas prais de Palhoça. Mas, a limpeza pública funcionou, e os afogamentos foram culpa da irresponsabilidade, pois guarda-vidas tinha, em quantidade.

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