quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Joinville é feia



POR FAHYA KURY CASSINS
Uma cidade não tem que ser bonita. Nem todas, é óbvio, podem ser. Mas para aquelas que não são brindadas com as belezas naturais e geográficas há infinitas possibilidades de se construir, com pequenas e grandes obras, uma bela cidade. Por vezes, como vemos em pequeninas cidades, a graça e a beleza reside no cuidado que as pessoas e o poder público despendem com os imóveis, ruas e monumentos. Atitudes simples embelezam as cidades e melhoram o sentimento de quem ali vive.

Existe uma série televisiva de imagens aéreas do mundo todo que eu acompanho, há algum tempo elas passam num canal de TV a cabo. Um programa interessante que nos leva a conhecer visualmente muitos lugares do país (“Brasil visto de cima”) e do mundo (nas versões “Mundo visto de cima” e “América vista de cima”) e ter algum contato com as suas histórias e culturas. Este ano passou o capítulo “Nordeste catarinense”, que abrange São Francisco do Sul e Joinville.

Logo no início anunciam que veremos Joinville, “metrópole com mais de 500 mil habitantes”. Passando por São Francisco vemos a belíssima Baía da Babitonga rumo ao maior PIB do Estado. Em seguida, um rasante pelo Cachoeira em maré baixa na altura da ponte azul (e os telhados coloridos do camelódromo). Mas isso não é nada. Nem a Rua das Palmeiras nos anima a encontrar a beleza da cidade, pois bem ao lado está lá o câncer que corrói nossos bairros centrais: um estacionamento. Curiosamente há destaque para as duas bibliotecas públicas, citando a Rolf Colin, e novamente a vergonha nos toma ao ver as ruínas do famoso Cine Colon.

Mais curiosamente ainda surge uma sequência na qual se enaltecem, imagens permeadas de informações que passam longe da realidade, os pontos culturais da cidade, como o teatro Juarez Machado e a Escola Bolshoi (que, como sabemos, não possuem prédios próprios, pois são encrustados no Centreventos), o Museu do Sambaqui, o Monumento à Barca, o Museu de Arte e a Cidadela Cultural (?) Antarctica. Deixo aqui a sugestão para assistirem ao programa. Para quem não pode, deixo também imagens que comprovam como estamos feios, mesmo vistos de cima, e abandonados.

Ao contrário de muitos programas da série, que contemplam até cidades menos “bonitas” do país, neste não aparece o poder fabril e econômico, além do cultural – o que ocorre em vários programas do interior paulista e paranaense. Contudo, no de Joinville não vemos nenhuma citação aos grandes parques fabris de metal-mecânica, porcas e parafusos, fogões e geladeiras. O enaltecimento fica para a fábrica de cerveja transformada em centro cultural (?) e no parque da Expoville, além da gafe mentirosa final: o belíssimo Moinho utilizado por mais de cem anos e que, recentemente desativado, foi adquirido pela prefeitura que pretende transformá-lo num espaço cultural. Seria uma opção estética? Mostrar a Tupy vista de cima não seria nada bonito e até um editor qualquer percebe que prédios históricos são mais interessantes (mesmo que amparados em textos mentirosos).

São muitas mentiras vistas de cima. São muitas ruas esburacadas vistas de cima e que nos deixam tomados de vergonha. A esquina da rua do Príncipe com Jerônimo Coelho serve de exemplo para a preservação (?) de imóveis históricos como o Hotel Príncipe. Não sei de onde tiraram as informações mentirosas do programa, também não entendi porque a insistência nos aspectos culturais. Nada é falado da área rural, nem do mirante, Zoobotânico (que aparece rapidamente), muito menos Espinheiros ou Vigorelli. Chama a atenção o fato de ainda termos um bom tanto de verde, a maioria nos morros, e daí fica mais clara a importância de batermos o pé para preservá-lo.

Parece que até vista de cima Joinville precisa enganar e esconder seus muitos problemas, com o adendo de camuflar justamente suas falhas em relação à cultura e à preservação do patrimônio e do meio ambiente.


Rua das Palmeiras e o que chama atenção é o estacionamento

Retrato fiel da cidade: o abandono do Cine Colon

Não escapou nem o nosso maior orgulho atual: a avenida Beira-rio fechada!

Não só a cor do Cachoeira nos envergonha: o Monumento à barca, o mais novo dos espaços citados, num completo abandono.

Reparem nas condições da Jerônimo Coelho: vista bem de perto é ainda pior.

O Mercado e mais uma informação mentirosa sobre ter sido construído com a técnica enxaimel (notem que as imagens foram feitas recentemente, quando do sepultamento do finado chafariz).

12 comentários:

  1. Joinville é uma cidade estranha, nem de longe representa toda esse suposto maior PIB do Estado. Florianópolis, Blumenau, Itajaí e até Criciúma dão um banho de infraestrutura e urbanismo em Joinville.

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  2. Depende muito o que consideramos como cidade bonita. Muitos associam beleza natural com praia, mar e areia, mas belezas naturais vão muito além disso e Joinville possui belezas naturais de brilhar os olhos. A grande questão é a matriz econômica escolhida pela cidade. Joinville ainda é uma cidade industrial, e seus bairros industriais produzem mais riquezas sozinhas que muitas cidades do estado. É justamente a indústria de transformação Joinvillense que produzem a maior parte das riquezas de nosso estado e consequente dá a ela o maior PIB, porém apesar de possuir PIB maior que cidades como Florianópolis, Blumenau, Balneário Camboriú não garante que Joinville desfrute de melhor infraestrutura e um urbanismo mais convidativo. Penso que o grande problema é justamente a matriz econômica, a elite industrial não quer turismo em Joinville, porque isso atrapalharia seus planos de expansão. Vejamos, uma das maiores indústrias de fundição do mundo está situado em área de preservação permanente, com uma aterro de resíduos de fundição sobre uma grande área de manguezal, liberando seus contaminantes para as águas da bela Baía da Babitonga e a anos isso vem ocorrendo. Uma Baía da Babitonga com apelo turístico significaria por fim a qualquer atividade industrial naquela localidade. Acredito que o futuro da cidade onde nasci e que amo não será nada agradável. E a reeleição de Udo significou o suicídio de nossa amada cidade.

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    1. Bom complemento, Elton. O problema é que nem se trata só de turismo, mas de qualidade (ou condições mínimas) de vida para os próprios cidadãos. Essas indústrias, então, não vêem seus funcionários como seres humanos? Pelo que temos visto...

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  3. É. Bonita, bonita nenhuma cidade brasileira é...

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  4. Agora me responda objetivamente o que é beleza?
    Seria a beleza algo destituído do grotesco?

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    1. Segundo Kant é o que causa sensação agradável, subjetivamente. Se for aplicar a Joinville, algo que fosse ao menos bem cuidado - o que não é o caso do exemplo evidente do Monumento à barca. Não vou discutir o que é o Belo pra mim ou pra você, porque uma cidade bonita é algo bem objetivo.

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  5. Se alguém acha que Joinville é feia,... eu concluo que essa pessoa não conhece e não ama Joinville! E para essas pessoas,... eu sempre recomendo o final da Ottokar Doerffel!

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    1. "acha"? Não é preciso muito esforço para "achar" a feiura de Joinville. Aliás, nenhum esforço. O problema é quem não separa o "conhecer" do "amar". Tem raivinha de quem aponta os defeitos (que não são poucos) e a feiura do objeto amado. Dizem mesmo que o amor é cego.

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    2. como é difícil esse tipo de discurso "ame-o ou deixe-o". Joinville foi bonita. Não é mais. Convido o anônimo para uma volta por lugares que talvez ele nunca tenha pisado. E por amar, não a deixo.

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  6. a cidade está ótima sim, muito feia. tanto faz o ângulo. e o pior é que não tem muita perspectiva de melhorar.

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