quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Joinville cosmopolita: arepas ou Whirlpool?


POR FAHYA KURY CASSINS
Se você não conhecesse Joinville poderia pensar que ela é cosmopolita. Sim, porque há décadas a cidade atrai pessoas de outros estados brasileiros e de várias nacionalidades. Com muita facilidade você encontra portugueses, espanhóis, colombianos, haitianos, latinos de toda a América, paranaenses, gaúchos, paraenses, acrianos, cariocas, paulistas e, também, catarinenses de todas as regiões.

São pessoas que vêm viver na cidade, mas que acabam, por consequência do atraso e serviços precários aqui disponíveis, apenas “trabalhando” ou “morando”. Foi-se o tempo dos famosos ônibus das metalúrgicas que seguiam para regiões pobres dos Estados vizinhos, principalmente Paraná, para trazer mão de obra sem qualificação para ocupar cargos de chão de fábrica com salários muito aprazíveis aos ricos industriais da cidade. Já faz um tempo que as pessoas vêm para Joinville querendo e exigindo qualidade de vida, buscando crescimento pessoal e profissional.

Mas não é nada fácil. O idioma, para os estrangeiros, é um dificultador grave; não somos um povo fluente em outros idiomas e não temos cursos que recebam estas pessoas. Em se tratando de moradia acabam jogados para as periferias mais distantes onde não há assistência, educação e segurança adequados. Como muitos vêm com filhos, estes correm risco de contato com o crime e doenças. O transporte público que não é nenhuma maravilha, além de caríssimo, dificulta ainda mais a busca por emprego, ou o aperfeiçoamento profissional, além de, muitas vezes, ser motivo de recusa (o valor e o tempo de deslocamento não compensam) em empresas e por empregadores.

Na última pesquisa, noticiada dias atrás, o (único) orgulho joinvilense pôde ser comemorado novamente: 577.077 habitantes. Crescimento de 1,3% em relação ao ano anterior. É risível, e motiva piadas sem fim, este orgulho cego de ser a “maior” (que não é, pois maior indica tamanho espacial, no que Lages leva o título) do Estado: é a cidade mais populosa do Estado. E qual a implicação disso? Óbvio que a fama de “manchester” e outros títulos, além de vender-se como terra de oportunidades, é pura propaganda. E as pessoas se deixam enganar por propagandas.

Há até uma certa dificuldade em encontrar joinvilenses nascidos aqui, de onde surge a xenofobia. Não são 577 mil joinvilenses nascidos à margem do Cachoeira, como não o eram os colonos que aqui desembarcaram. Ou seja, para deixar claro: são as pessoas que vêm de fora que construíram e constroem diariamente esta cidade. São essas pessoas que atravessam o país, durante três dias de ônibus, que estão aqui labutando por dias e vidas melhores. E o que elas encontram?

Descaso. Primeiramente, uma cidade abandonada pelo poder público. Falta de oportunidades. Sim, a educação básica municipal recebe prêmios, mas a rede estadual é um fracasso no Ensino Médio e a formação superior é uma lástima (como tenho comentado com frequência). Há uma infinidade de cursos duvidosos de ensino superior e técnico, tudo privado, que é aos quais as pessoas recorrem. Pessoas que vêm qualificadas, e não são poucas, não encontram inserção no mercado de trabalho, pois a rede de comércio e serviços, por exemplo, é pobre e fechada. Ainda perdura, em muitas mentes locais, a visão de formar mão de obra a ser explorada no chão de fábrica.

É o que ainda sustenta a cidade? Talvez. Mas a cidade precisa crescer (não só em número de habitantes). Precisa pensar no futuro (por isso insistimos nos problemas do meio ambiente, da cultura e da educação). Precisa, de fato, tornar-se uma cidade cosmopolita, aberta às novas ideias, práticas e serviços. Trazer novos empreendimentos sustentáveis e que tenham integração entre populações que têm costumes e tradições diversos. O tempo de sustentar-se apenas das grandes metalúrgicas e têxteis ficou para trás, por aqui precisa haver espaço para novos paladares, novos consumidores, novas especialidades e novos produtores.

A ponta de esperança surge ali no Espinheiros, num rapaz vendendo arepas, e cada vez que alguém começa a vida profissional sem carimbar a carteira de trabalho no chão da Whirlpool.

PS.: depois de escrito este artigo, deparei-me com uma criança no sinaleiro fazendo malabarismos e falando um portunhol. Está claro qual será o futuro da cidade...

6 comentários:

  1. converso com minha irmã sobre o assunto. ela sempre se pergunta pq as pessoas ainda vem para Joinville, se a cidade está um caco... propaganda, só pode. adorei o texto Fahya 😌

    ResponderExcluir
  2. É, faço a mesma pergunta: Se é tão ruim e sem perspectiva, por quê ainda vêm para cá?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Induzidos por propagandas e promessas. Como muitos dos que aqui ainda estão.

      Excluir
    2. O paraíso é um estado de espírito. Como diria Cristo no evangelho de Lucas.E governos, politicas , a ordem geral tudo passa.
      A sociedade é desencanto, como diria Freud em o mal estar da civilização. Nunca foi tão necessário ficar longe dela, e o deserto, e a solidão uma necessidade imperiosa de nosso tempo.

      O que é pensar no futuro? Pra que parafraseando Kierkgaard ser tudo para as gerações posteriores e anteriores? Cada dia sua tormenta basta, somos um barco rumo ao nada. O dia de hoje é a dádiva divina, quantos pensamentos do futuro atormentavam o moradores de Pompéia, no seu último dia.

      O que trazem essas pessoas a Joinville? O mesmo que trouxe 40 mil pessoas a serra pelada em 3 semanas. Uma loucura, como diria Nelson Rodrigues, matamos pelo supérfluo, a fome é doce, e quieta.

      Excluir

O comentário não representa a opinião do blog; a responsabilidade é do autor da mensagem