quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A Joinville dos contos de fadas


FAHYA KURY CASSINS
No penúltimo dia de 2016, nos pegou de surpresa a notícia (perdão pelo trocadilho) do encerramento das atividades do jornal impresso e on line Notícias do Dia de Joinville. A equipe foi informada, numa reunião, que a edição seguinte do fim de semana do dia 31 de dezembro seria a última do jornal, que durou dez anos na cidade.

Por todos os meios o fato pareceu estúpido. Não custa enumerá-los: um jornal, numa cidade tão carente de vozes e opiniões, fechar, por si, valia a reflexão, mesmo que um jornal impresso pareça ultrapassado; dezenas, talvez mais, de profissionais que faziam todo o trabalho, entre funcionários do grupo e terceirizados, serem demitidos no penúltimo dia do ano foi, se não de um mau gosto absurdo, um gesto grosseiro e desumano. Você nunca manda apenas “um” funcionário embora, são pessoas, famílias inteiras atingidas; como se não bastasse tudo isso, os leitores e assinantes, para quem o jornal era produzido, sequer foram informados. E, no nosso caso, a fatídica última edição sequer chegou na caixa do correio no sábado pela manhã.

A despeito dos problemas de gestão comercial que assinalam que o jornal sofria, certas decisões, sendo boas ou más, podem ser tomadas em maus momentos e de péssimas formas. Foi o caso. Passado o momento de surpresa, vale a análise de uma cidade órfã de discussão sobre si mesma. Piadas à parte, pois ao que parece nem o velho e renegado A Notícia tem muitas chances de sobreviver, cabe parar para pensar: a cidade pensa sobre si mesma?

Não que jornais sejam independentes e imparciais. O próprio finado ND merecia duras críticas pela sua complacência com os mandos e desmandos da Prefeitura Municipal (no contrapeso dos anúncios da mesma e do hospital administrado pelo prefeito), ausência de críticas aos problemas da cidade, enaltecimento de atividades e eventos produzidos pelos seus anunciantes, etc.. Porém, é nas páginas de um jornal que fatos vêm à tona, que a cidade existe – de forma muito mais confiável do que por mensagens de áudio em grupos de Whatsapp, por exemplo, que são constantemente desmentidas pela PM e outros órgãos.

É no jornal escrito que há mais espaço do que o exíguo tempo dos telejornais. Joinville é uma cidade que prefere ver-se a si mesma como ela imagina que seja – não como de fato é. Então, colunistas, opiniões, notas sobre o dia a dia são dispensáveis, a realidade não atrai. Vamos crer nas propagandas do governo, nas visitas do governador, nas promessas e dados da campanha. Vamos contabilizar os números de assassinatos brutais, de jovens e mulheres e homens, como um score de um jogo qualquer. Vamos ouvir calados as entrevistas dos funcionários do IPPUJ sobre como eles trabalham bem. E, claro, como a nova iluminação é eficiente.

O jornal existe nem que seja para que nós possamos combatê-lo nos seus posicionamentos articulados por vozes de trás dos bastidores. Mas Joinville tem preferido, há décadas, ver-se no espelho dos contos de fadas: existe cidade maior e mais bela do que eu? Um jornal nunca deve ser um espelho, deve ser o dedo na ferida, deve, primeiramente, estar ao lado da população e não dos seus anunciantes (muito menos dos governantes).

De tão amordaçada, a população ficou surda. Daí de pouco adiantou prevermos novos ares com a criação, há pouco mais de uma década, de cursos da área de Comunicação na cidade, para além da sua velha vocação metal-mecância e tecnológica. A cidade não quer se ouvir, não quer se ver. Prefere não discutir a imagem criada sobre si mesma – quanto menos vozes solitárias a vagar pelas ruas, melhor.

8 comentários:

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    1. Perde a cidade, que vive calada. É preciso ter vozes dissonantes.

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  2. Parabéns, ótima reflexão sobre este momento melancólico, de uma cidade que investe em ser melancólica. Os donos do poder local preferem assim.

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    1. Obrigada. E a cada dia mais melancólica...

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  3. Concordo com Francisco, não se perdeu nada. Por que alguém tem que manter um empreendimento que dá prejuízo? Só para manter jornalistas empregados??

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    1. Exato, para que manter escolas e hospitais que dão prejuizo? Para que manter estruturas que beneficiam a sociedade se elas não dão lucro para os de sempre? Melhor fechar né?

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    2. Escola privada dá lucro ou fecha. Hospitais privados dão lucro ou fecham, jornais privados dão lucro ou fecham. Em Cuba tem o Granma, jornal público que não fecha.. Eu não colocaria o meu dinheiro em algo que não dá lucro, mas com seu dinheiro cada um faz o que quer.

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    3. Mas eu não lamento o fechamento do Nd porque era realmente muito ruim, não servia nem pra embalar pescado e AN vai pela mesma linha. Eu leio Estadão e Folha...

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